A Mishná trata de um guer (convertido ao judaísmo) e um gói (gentio) que herdaram de seu pai, ainda gói: pode um dizer ao outro "toma tu a avodá zará (idolatria) e eu tomarei o dinheiro correspondente, toma tu o iáin nessech (vinho de libação idólatra) e eu tomarei as frutas" — mas isso somente antes da divisão; se a herança já chegou à posse do guer, tal troca é proibida. Trata também de quem vende frutas na Síria: se afirma que são de Eretz Israel, deve dizimá-las; se afirma que já foram dizimadas, é confiável, pois "a boca que proibiu é a boca que permitiu". A guemará discute o caso paralelo de judeu e gói que compraram juntos uma casa de gói contendo vinho de libação, ídolos e dinheiro, a extensão de Rabi Yochanan ao caso de dois ídolos de formas diferentes, a ressalva de Rabi Zeira comparando ao caso de chaver e am haaretz, e por fim narra o episódio de Akilas o Guer, que dividiu a herança de idolatria com seus irmãos góim e, sendo rigoroso consigo mesmo, levou o proveito dela ao Mar Morto.
Mishná: Um guer (convertido ao judaísmo) e um gói (gentio) que herdaram de seu pai, este último ainda gói, pode o guer dizer-lhe: "toma tu a avodá zará (objeto de idolatria) e eu tomarei o dinheiro correspondente a seu valor; toma tu o iáin nessech (vinho já libado a um ídolo, proibido a todo uso judaico) e eu tomarei as frutas" (isto é, antes da divisão formal da herança, o guer ainda pode redistribuir as partes de modo a evitar ficar com objetos proibidos). Mas se a herança já chegou à posse do guer (isto é, se a partilha já se consumou e cada porção já está definida como pertencente a cada herdeiro), tal troca é proibida (pois, uma vez que o guer já é dono de sua parte da idolatria, trocá-la pela porção do irmão equivaleria a comprar e vender objetos de idolatria, o que lhe é vedado).
Quem vende frutas na Síria (região cujo estatuto quanto às obrigações da terra é apenas de origem rabínica) e diz: "são produto de Eretz Israel" — o comprador deve dizimá-las (pois frutas de Eretz Israel são obrigadas biblicamente). Se depois diz: "são já dizimadas" — é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu (isto é, visto que sua própria palavra foi o que gerou a obrigação, sua palavra também basta para retirá-la, já que ninguém tem outra fonte de informação sobre a origem e o estado das frutas senão o próprio vendedor).
"São minhas" (isto é, produzidas em campo próprio do vendedor na Síria) — deve dizimá-las (pois o produto do próprio campo do vendedor na Síria está sujeito a dízimo por decreto rabínico). "São já dizimadas" — é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu. Se é sabido que ele tem campo na Síria, deve dizimá-las (pois, sendo já conhecido o fato de que o vendedor possui campo próprio ali, não se lhe crê mais, sem prova, que as frutas vieram de outra origem isenta).
Um judeu e um gói que compraram juntos a casa de outro gói, e havia ali iáin nessech, avodá zará e dinheiro — o judeu não pode dizer-lhe: "toma tu o vinho de libação e a idolatria, e eu tomarei o dinheiro" (pois, diferentemente do caso da herança da Mishná, aqui os dois se tornaram sócios por compra conjunta, e não há entre eles a permissão de redistribuir as partes antes da divisão, já que o judeu, ao aceitar sua porção do dinheiro em troca da parte do gói na idolatria, estaria tratando a idolatria como objeto de valor comercial, o que lhe é vedado).
Disse Rabi Yochanan: não é só o caso de vinho de libação, idolatria e dinheiro que se proíbe redistribuir entre os sócios; mas mesmo que houvesse ali dois ídolos, um feito em forma de delufiki (um tipo de estatueta ou moldura ornamental, de maior valor) e outro que não é feito em forma de delufiki (de menor valor), o judeu não pode dizer-lhe: "toma tu o que não é feito em forma de delufiki, e eu tomarei o que é feito em forma de delufiki" (pois, ainda que ambos sejam igualmente objetos proibidos de idolatria, a troca de um pelo outro, por terem valores diferentes, constitui uma transação de compra e venda de idolatria, vedada ao judeu).
Disse Rabi Zeira: e é correto (a extensão de Rabi Yochanan). Eis que, no caso de um chaver e um am haaretz que herdaram de seu pai, este último am haaretz, e havia ali frutas muchsharin (já tornadas aptas a receber impureza, por terem entrado em contato com líquido) e frutas que não são muchsharin (ainda não aptas a receber impureza) — porventura pode o chaver dizer-lhe: "toma tu as aptas a impureza e eu tomarei as não aptas"? Certamente que não, pelo mesmo raciocínio — pois trocar entre categorias diferentes de valor equivaleria a uma venda disfarçada.
Mas eis que a própria Mishná discorda disso: "toma tu a idolatria e eu tomarei o dinheiro, toma tu o vinho de libação e eu tomarei as frutas" (pois ali a Mishná permite justamente essa troca entre categorias diferentes, ao guer e ao gói que herdam)! Diz-se em resposta: repara no final da mesma Mishná, e então verás que ela não discorda: "se já chegaram à posse do guer, é proibido" (isto é, a permissão da Mishná vale apenas antes da partilha se consumar). E aqui (no caso da compra conjunta de casa), uma vez que o judeu já comprou sua parte, é como quem já entrou em sua posse (portanto equivale ao estágio final da Mishná, em que a troca já é proibida, e não ao estágio inicial, anterior à partilha, em que ainda seria permitida).
Akilas o Guer dividiu a herança de seu pai com seus irmãos (que permaneceram góim), e foi rigoroso consigo mesmo, e levou o proveito dela (hanaiá, isto é, todo benefício que lhe coubesse da parte relativa à idolatria) ao Mar Morto (destruindo-o ali, de modo que nenhum proveito material lhe restasse, ainda que a lei estrita talvez lhe permitisse ficar com o dinheiro correspondente).
Três amoraim explicaram este episódio de modo diferente: um disse que Akilas levou ao Mar Morto o valor equivalente de toda a idolatria da herança (isto é, o valor de toda a avodá zará, não apenas de sua própria porção). E outro disse que levou ao Mar Morto o valor equivalente apenas de sua porção da idolatria (ou seja, somente aquilo que já lhe pertencia por direito na partilha). E outro disse que levou ao Mar Morto a própria idolatria (o objeto físico em si, e não seu valor monetário — o que seria ainda mais surpreendente, já que dela nenhum proveito é permitido, mas Akilas assim procedeu), mas o fez apenas a fim de desarraigar a idolatria da casa de seu pai (ou seja, sua motivação não era obter ou descartar valor algum, mas eliminar por completo o vestígio de idolatria que ainda restava associado à casa paterna).
Esta halachá traz nova Mishná sobre um guer e um gói que herdaram do pai gói: antes da partilha se consumar, podem redistribuir entre si idolatria por dinheiro e vinho de libação por frutas, mas essa troca torna-se proibida assim que a herança chega à posse do guer. Trata também de quem vende frutas na Síria, confiável sobre a origem e o estado de dízimo das frutas conforme o princípio de que "a boca que proibiu é a boca que permitiu", exceto quando já se sabe que o vendedor possui campo próprio na região.
A guemará estende o princípio ao caso de judeu e gói que compraram juntos uma casa de gói contendo vinho de libação, ídolo e dinheiro: uma vez consumada a compra, não podem redistribuir as partes entre categorias diferentes. Rabi Yochanan estende isso a dois ídolos de formas e valores diferentes, e Rabi Zeira compara ao caso paralelo de chaver e am haaretz com produto apto e não apto a impureza. Uma objeção da própria Mishná é resolvida pela distinção entre antes e depois da partilha se consumar. A sugya fecha com o episódio de Akilas o Guer, que dividiu a herança de idolatria com seus irmãos góim e, por rigor consigo mesmo, levou o proveito dela ao Mar Morto — episódio que três amoraim explicam de três modos diferentes quanto ao que exatamente foi levado e destruído.