Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Vav · Halachá 7
דְּמַאי

Guer e gói que herdaram do pai gói: idolatria por dinheiro, mas não depois que a herança chegou à posse do guer; e o episódio de Akilas o Guer

Perek Vav, Halachá 7, no Talmud Yerushalmi, Massechet Demai

A Mishná trata de um guer (convertido ao judaísmo) e um gói (gentio) que herdaram de seu pai, ainda gói: pode um dizer ao outro "toma tu a avodá zará (idolatria) e eu tomarei o dinheiro correspondente, toma tu o iáin nessech (vinho de libação idólatra) e eu tomarei as frutas" — mas isso somente antes da divisão; se a herança já chegou à posse do guer, tal troca é proibida. Trata também de quem vende frutas na Síria: se afirma que são de Eretz Israel, deve dizimá-las; se afirma que já foram dizimadas, é confiável, pois "a boca que proibiu é a boca que permitiu". A guemará discute o caso paralelo de judeu e gói que compraram juntos uma casa de gói contendo vinho de libação, ídolos e dinheiro, a extensão de Rabi Yochanan ao caso de dois ídolos de formas diferentes, a ressalva de Rabi Zeira comparando ao caso de chaver e am haaretz, e por fim narra o episódio de Akilas o Guer, que dividiu a herança de idolatria com seus irmãos góim e, sendo rigoroso consigo mesmo, levou o proveito dela ao Mar Morto.

A Mishná · מַתְנִיתִין

גֵּר וְגוֹי שֶׁיָּרְשׁוּ אֶת אֲבִיהֶן גּוֹי יָכוֹל הוּא לוֹמַר לוֹ טוּל אַתָּה עֲבוֹדָה זָרָה וַאֲנִי אֶטּוֹל אֶת הַמָּעוֹת אַתָּה יַיִן נֶסֶךְ וַאֲנִי פֵירוֹת. אִם מִשֶּׁבָּאוּ לִרְשׁוּת הַגֵּר אָסוּר. הַמּוֹכֵר פֵּירוֹת בְּסוּרִיָּא וְאָמַר מִשֶּׁל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל הֵן חַיָיב לְעַשֵּׂר. מְעוּשָּׂרִין הֵן נֶאֱמָן שֶׁהַפֶּה שֶׁאָסַר הוּא הַפֶּה שֶׁהִתִּיר. מִשֶּׁלִּי הֵן חַיָיב לְעַשֵּׂר. מְעוּשָּׂרִין הֵן נֶאֱמָן שֶׁהַפֶּה שֶׁאָסַר הוּא הַפֶּה שֶׁהִתִּיר. אִם יָדוּעַ הוּא שֶׁיֵּשׁ לוֹ שָׂדֶה בְסוּרִיָּא חַיָיב לְעַשֵּׂר.

Mishná: Um guer (convertido ao judaísmo) e um gói (gentio) que herdaram de seu pai, este último ainda gói, pode o guer dizer-lhe: "toma tu a avodá zará (objeto de idolatria) e eu tomarei o dinheiro correspondente a seu valor; toma tu o iáin nessech (vinho já libado a um ídolo, proibido a todo uso judaico) e eu tomarei as frutas" (isto é, antes da divisão formal da herança, o guer ainda pode redistribuir as partes de modo a evitar ficar com objetos proibidos). Mas se a herança já chegou à posse do guer (isto é, se a partilha já se consumou e cada porção já está definida como pertencente a cada herdeiro), tal troca é proibida (pois, uma vez que o guer já é dono de sua parte da idolatria, trocá-la pela porção do irmão equivaleria a comprar e vender objetos de idolatria, o que lhe é vedado).

Quem vende frutas na Síria (região cujo estatuto quanto às obrigações da terra é apenas de origem rabínica) e diz: "são produto de Eretz Israel" — o comprador deve dizimá-las (pois frutas de Eretz Israel são obrigadas biblicamente). Se depois diz: "são dizimadas" — é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu (isto é, visto que sua própria palavra foi o que gerou a obrigação, sua palavra também basta para retirá-la, já que ninguém tem outra fonte de informação sobre a origem e o estado das frutas senão o próprio vendedor).

"São minhas" (isto é, produzidas em campo próprio do vendedor na Síria) — deve dizimá-las (pois o produto do próprio campo do vendedor na Síria está sujeito a dízimo por decreto rabínico). "São dizimadas" — é confiável, pois a boca que proibiu é a boca que permitiu. Se é sabido que ele tem campo na Síria, deve dizimá-las (pois, sendo já conhecido o fato de que o vendedor possui campo próprio ali, não se lhe crê mais, sem prova, que as frutas vieram de outra origem isenta).

A Halachá · הֲלָכָה ז

01Judeu e gói que compraram casa de gói com vinho de libação, ídolo e dinheiro
Yerushalmi · Demai 6:7
יִשְׂרָאֵל וְגוֹי שֶׁקָּנוּ בֵיתוֹ שֶׁל גּוֹי וְהָיָה שָׁם יַיִן נֶסֶךְ וַעֲבוֹדָה זָרָה וּמָעוֹת לֹא יֹאמַר לוֹ טוּל אַתְּ יַיִן נֶסֶךְ וַעֲבוֹדָה זָרָה וַאֲנִי מָעוֹת.

Um judeu e um gói que compraram juntos a casa de outro gói, e havia ali iáin nessech, avodá zará e dinheiro — o judeu não pode dizer-lhe: "toma tu o vinho de libação e a idolatria, e eu tomarei o dinheiro" (pois, diferentemente do caso da herança da Mishná, aqui os dois se tornaram sócios por compra conjunta, e não há entre eles a permissão de redistribuir as partes antes da divisão, já que o judeu, ao aceitar sua porção do dinheiro em troca da parte do gói na idolatria, estaria tratando a idolatria como objeto de valor comercial, o que lhe é vedado).

02Rabi Yochanan estende a regra a dois ídolos de formas diferentes
Yerushalmi · Demai 6:7
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן לֹא סוֹף דָּבָר יַיִן נֶסֶךְ וַעֲבוֹדָה זָרָה וּמָעוֹת אֶלָּא אֲפִילוּ הָיוּ לוֹ שָׁם שְׁנֵי צְלָמִין אֶחָד עָשׂוּי כְּמִין דֶּלְופִקֵי וְאֶחָד שֶׁאֵינוֹ עָשׂוּי כְּמִין דֶּלְופִקֵי לֹא יֹאמַר לוֹ טוּל אַתָּה אֶת שֶׁאֵינוֹ עָשׂוּי כְּמִין דֶּלְופִקֵי וַאֲנִי נוֹטֵל הֶעָשׂוּי כְּמִין דֶּלְופִקֵי.

Disse Rabi Yochanan: não é só o caso de vinho de libação, idolatria e dinheiro que se proíbe redistribuir entre os sócios; mas mesmo que houvesse ali dois ídolos, um feito em forma de delufiki (um tipo de estatueta ou moldura ornamental, de maior valor) e outro que não é feito em forma de delufiki (de menor valor), o judeu não pode dizer-lhe: "toma tu o que não é feito em forma de delufiki, e eu tomarei o que é feito em forma de delufiki" (pois, ainda que ambos sejam igualmente objetos proibidos de idolatria, a troca de um pelo outro, por terem valores diferentes, constitui uma transação de compra e venda de idolatria, vedada ao judeu).

03Rabi Zeira: e é correto — mas e quanto a chaver e am haaretz com produto apto e não apto a impureza?
Yerushalmi · Demai 6:7
אָמַר רִבִּי זְעִירָא וְיֵאוּת אִילּוּ חָבֵר וְעַם הָאָרֶץ שֶׁיָּרְשׁוּ אֶת אֲבִיהֶן עַם הָאָרֶץ וְהָיוּ שָׁם פֵּירוֹת מוּכְשָׁרִין וּפֵירוֹת שֶׁאֵינָן מוּכְשָׁרִין שֶׁמָּא אוֹמֵר לוֹ טוּל אַתָּה אֶת הַמּוּכְשָׁרִין וַאֲנִי נוֹטֵל אֶת שֶׁאֵינָן מוּכְשָׁרִין.

Disse Rabi Zeira: e é correto (a extensão de Rabi Yochanan). Eis que, no caso de um chaver e um am haaretz que herdaram de seu pai, este último am haaretz, e havia ali frutas muchsharin (já tornadas aptas a receber impureza, por terem entrado em contato com líquido) e frutas que não são muchsharin (ainda não aptas a receber impureza) — porventura pode o chaver dizer-lhe: "toma tu as aptas a impureza e eu tomarei as não aptas"? Certamente que não, pelo mesmo raciocínio — pois trocar entre categorias diferentes de valor equivaleria a uma venda disfarçada.

04Objeção da própria Mishná, e a resolução: a diferença está em antes ou depois da divisão chegar à posse do guer
Yerushalmi · Demai 6:7
וְהָא מַתְנִיתִין פְּלִיגָא טוּל אַתָּה עֲבוֹדָה זָרָה וַאֲנִי מָעוֹת אַתָּה יַיִן נֶסֶךְ וַאֲנִי פֵירוֹת. אֱמֹר סוֹפָא וְלֵית הִיא פְלִיגָא אִם מִשֶּׁבָּאוּ לִרְשׁוּת הַגֵּר אָסוּר וְהָכָא מִכֵּיוַן שֶׁקָּנָה כְּמִי שֶׁנִּכְנַס לִרְשׁוּתוֹ.

Mas eis que a própria Mishná discorda disso: "toma tu a idolatria e eu tomarei o dinheiro, toma tu o vinho de libação e eu tomarei as frutas" (pois ali a Mishná permite justamente essa troca entre categorias diferentes, ao guer e ao gói que herdam)! Diz-se em resposta: repara no final da mesma Mishná, e então verás que ela não discorda: "se já chegaram à posse do guer, é proibido" (isto é, a permissão da Mishná vale apenas antes da partilha se consumar). E aqui (no caso da compra conjunta de casa), uma vez que o judeu já comprou sua parte, é como quem já entrou em sua posse (portanto equivale ao estágio final da Mishná, em que a troca já é proibida, e não ao estágio inicial, anterior à partilha, em que ainda seria permitida).

05O episódio de Akilas o Guer: dividiu com seus irmãos e foi rigoroso consigo mesmo
Yerushalmi · Demai 6:7
עַקִּילַס הָגֵּר חִילֵּק עִם אֶחָיו וְהֶחֱמִיר עַל עַצְמוֹ וְהוֹלִיךְ הֲנָיָיה לְיַם הַמֶּלַח.

Akilas o Guer dividiu a herança de seu pai com seus irmãos (que permaneceram góim), e foi rigoroso consigo mesmo, e levou o proveito dela (hanaiá, isto é, todo benefício que lhe coubesse da parte relativa à idolatria) ao Mar Morto (destruindo-o ali, de modo que nenhum proveito material lhe restasse, ainda que a lei estrita talvez lhe permitisse ficar com o dinheiro correspondente).

06Três amoraim explicam de modo diferente o que exatamente Akilas levou ao Mar Morto
Yerushalmi · Demai 6:7
תְּלָתָא אֲמוֹרִין חַד אָמַר דְּמֵי עֲבוֹדָה זָרָה הוֹלִיךְ לְיַם הַמֶּלַח. וְחָרָנָה אָמַר דְּמֵי חֶלְקוֹ שֶׁל עֲבוֹדָה זָרָה הוֹלִיךְ לְיַם הַמֶּלַח. וְחָרָנָא אָמַר עֲבוֹדָה זָרָה עַצְמָהּ הוֹלִיךְ לְיַם הַמֶּלַח. אֶלָּא בִּשְׁבִיל לַעֲקוֹר עֲבוֹדָה זָרָה מִבֵּית אַבָּא.

Três amoraim explicaram este episódio de modo diferente: um disse que Akilas levou ao Mar Morto o valor equivalente de toda a idolatria da herança (isto é, o valor de toda a avodá zará, não apenas de sua própria porção). E outro disse que levou ao Mar Morto o valor equivalente apenas de sua porção da idolatria (ou seja, somente aquilo que já lhe pertencia por direito na partilha). E outro disse que levou ao Mar Morto a própria idolatria (o objeto físico em si, e não seu valor monetário — o que seria ainda mais surpreendente, já que dela nenhum proveito é permitido, mas Akilas assim procedeu), mas o fez apenas a fim de desarraigar a idolatria da casa de seu pai (ou seja, sua motivação não era obter ou descartar valor algum, mas eliminar por completo o vestígio de idolatria que ainda restava associado à casa paterna).

Nota

Esta halachá traz nova Mishná sobre um guer e um gói que herdaram do pai gói: antes da partilha se consumar, podem redistribuir entre si idolatria por dinheiro e vinho de libação por frutas, mas essa troca torna-se proibida assim que a herança chega à posse do guer. Trata também de quem vende frutas na Síria, confiável sobre a origem e o estado de dízimo das frutas conforme o princípio de que "a boca que proibiu é a boca que permitiu", exceto quando já se sabe que o vendedor possui campo próprio na região.

A guemará estende o princípio ao caso de judeu e gói que compraram juntos uma casa de gói contendo vinho de libação, ídolo e dinheiro: uma vez consumada a compra, não podem redistribuir as partes entre categorias diferentes. Rabi Yochanan estende isso a dois ídolos de formas e valores diferentes, e Rabi Zeira compara ao caso paralelo de chaver e am haaretz com produto apto e não apto a impureza. Uma objeção da própria Mishná é resolvida pela distinção entre antes e depois da partilha se consumar. A sugya fecha com o episódio de Akilas o Guer, que dividiu a herança de idolatria com seus irmãos góim e, por rigor consigo mesmo, levou o proveito dela ao Mar Morto — episódio que três amoraim explicam de três modos diferentes quanto ao que exatamente foi levado e destruído.