Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Zayin · Halachá 1
דְּמַאי

Quem convida um amigo desconfiado quanto aos dízimos pode, na véspera de Shabat, condicionar o que separará no dia seguinte

Perek Zayin, Halachá 1, no Talmud Yerushalmi, Massechet Demai

Abre-se aqui o Perek Zayin (sétimo capítulo) de Massechet Demai, cujo eixo temático se desloca para o problema de dizimar em Shabat. A Mishná trata de quem convida um amigo para comer em sua casa, sendo que o amigo não confia nele quanto aos dízimos: o anfitrião pode dizer, ainda na véspera de Shabat, uma fórmula de condição (tenai) prospectiva — que aquilo que no futuro separar será dízimo, que o restante do dízimo estará junto a ele, que o que já fez dízimo será feito, que sobre ele recairá a teruma do dízimo, que o segundo dízimo estará ao norte ou ao sul dele, e que estará resgatado pelas moedas — de modo a poder, no Shabat, apontar mentalmente a porção correspondente sem realizar o ato proibido de separar. A guemará discute se essa condição vale só para demai ou também para produto certamente não dizimado, traz os episódios de Rabi Yannai e Rabi Hoshaya que fizeram tais condições para produto certo, examina se é preciso lembrar ou sussurrar a condição no momento da refeição, as três perguntas de Rabi Yirmiya a Rabi Zeira sobre reparo em Shabat, destruição de alimento e roubo, o episódio de Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá hospedados sob suspeita de am ha'aretz, e fecha com a posição de Rabi Yehudá, que proíbe a condição por princípio, comparando o anfitrião a quem vende tevel a um companheiro.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמַּזְמִין אֶת חֲבֵירוֹ שֶׁיֹּאכַל אֶצְלוֹ וְהוּא אֵינוֹ מַאֲמִינוֹ עַל הַמַּעְשְׂרוֹת. אוֹמֵר מֵעֶרֶב שַׁבָּת מַה שֶׁאֲנִי עָתִיד לְהַפְרִישׁ לְמָחָר הֲרֵי הוּא מַעֲשֵׂר וּשְׁאָר מַעְשֵׂר סָמוּךְ לוֹ. זֶה שֶׁעָשִׂיתִי מַעֲשֵׂר עָשׂוּי תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר עָלָיו וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִצְפוֹנוֹ וּבִדְרוֹמוֹ וּמְחוּלָּל עַל הַמָּעוֹת.

Mishná: Quem convida seu companheiro para que coma em sua casa (no Shabat, quando dizimar é proibido), e este o companheiro convidado não confia nele quanto aos dízimos (isto é, suspeita que o anfitrião seja am ha'aretz e não tenha corrigido devidamente seu produto)o anfitrião diz, ainda na véspera de Shabat: "aquilo que estou destinado a separar amanhã (no Shabat, apenas apontando mentalmente, sem ato físico) seja dízimo, e o restante do dízimo (as nove partes que sobram, não entregues ao levita) esteja próximo a ele (isto é, permaneça junto à porção já designada, sem necessidade de separação física adicional); isto que fiz dízimo (a porção assim designada) está feito (vale como dízimo genuíno); a teruma do dízimo recaia sobre ele (a pequena parte que o levita deve por sua vez destacar para o cohen); e o segundo dízimo esteja ao norte dele ou ao sul dele (isto é, esteja designado numa porção específica e reconhecível da comida, sem necessidade de apontar fisicamente no momento), e esteja resgatado pelas moedas (previamente reservadas em casa para esse fim, de modo que a mera declaração, feita na véspera, baste para efetuar o resgate quando chegar o momento)."

A Halachá · הֲלָכָה א

01Rabi Yochanan: a Mishná trata de demai, não de produto certo — e a objeção de uma baraita
Yerushalmi · Demai 7:1
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן מַתְנִיתָא בִדְמַאי הָא בְּוַדַּאי לֹא. מַתְנִיתָא אָמַר אֲפִילוּ בְּוַדַּאי זוֹ תַנֵּינָן תַּמָּן הָיוּ לוֹ תְאֵנִים שֶׁל טֵבֵל בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ וְהוּא בְּבֵית הַמִּדְרָשׁ אוֹ בַשָּׂדֶה. אִין תֵּימַר בִדְמַאי אֲנָן קַיָימִין לֵית יָכִיל דְּתַנֵּינָן הָיוּ דְמַאי מַה אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן בִּדְמַאי לֹא בְּוַדַּאי לֹא אָמַר אֶלָּא מַתְנִיתָא בִדְמַאי. מַה בֵין דְּמַאי וּמַה בֵין וַדַּאי. דְּמַאי אָדָם מַתְנֶה עַל דָּבָר שֶׁאֵינוֹ בִרְשׁוּתוֹ וַדַּאי אֵין אָדָם מַתְנֶה אֶלָּא עַל דָּבָר שֶׁהוּא בִרְשׁוּתוֹ.

Disse Rabi Yochanan: nossa Mishná trata de demai (produto duvidoso quanto ao dízimo); portanto, quanto a vadai (produto certamente não dizimado), não se pode fazer tal condição. Mas uma baraita diz que se pode fazer a condição mesmo quanto a vadai: isto é o que ensinamos ali noutro lugar: "tinha ele figos de tevel (produto certamente não dizimado) dentro de sua casa, e ele estava na casa de estudo ou no campo (e ali fez a condição sobre os figos em casa)". Se disseres que ali também tratamos de demai, não podes dizer isso, pois ensinamos na Mishná seguinte, continuação direta desta: "se era demai" (o que mostra que o caso anterior, sem essa ressalva, tratava de vadai, produto certo). Resposta: o que disse Rabi Yochanan foi que esta Mishná, a de nosso capítulo, trata de demai; ele não disse que quanto a vadai nunca se pode fazer tal condição — apenas que esta Mishná específica trata de demai (sem negar que noutro contexto a condição valha também para vadai). Mas então qual a diferença entre demai e vadai quanto a esta condição? Quanto a demai, a pessoa pode fazer condição sobre algo que não está em sua posse (pois o próprio dízimo do demai, sendo apenas uma dúvida rabínica, permite maior flexibilidade, incluindo condicionar sobre porção ainda não determinada); quanto a vadai, a pessoa só pode fazer condição sobre algo que está em sua posse (a porção específica já determinada e presente, e não sobre algo futuro e indeterminado).

02Rabi Yannai e a permissão de Rabi Chiya Rabá de fixar a condição mesmo em Shabat
Yerushalmi · Demai 7:1
רִבִּי יַנַּאי הֲוָה לֵיהּ תְּנַאי וַדַּאי שְׁאַל לְרִבִּי חִיָיא רוּבָּה מַהוּ מְתַקְּנָהּ בְּשׁוּבְתָא. אָמַר לֵיהּ לְמַעַן תִּלְמַד לְיִרְאָה אֶת יי אֱלֹהֶיךָ כָּל הַיָּמִים וַאֲפִילוּ בְשַׁבָּת. מַהוּ דְחָמַת מֵיקַל בַּלָּשִׁי תָלוּי בִּי. אָמַר לֵיהּ עָתִיד אַתְּ לְהַנְהִיג שְׂרָרָה עַל יִשְׂרָאֵל.

Rabi Yannai tinha uma condição feita sobre produto certo (vadai, ainda não tendo tido tempo de dizimá-lo antes da entrada do Shabat). Perguntou a Rabi Chiya Rabá (o Grande): pode-se firmá-la (realizar o ato de separação com base na condição já feita) em Shabat? Disse-lhe: está escrito "para que aprendas a temer o Eterno teu Deus todos os dias" (Devarim 14:23) — e mesmo em Shabat (pois o versículo, referindo-se ao dízimo, ensina que também em Shabat se pode agir conforme a condição já estabelecida). Perguntou ainda Rabi Yannai: como viste fundamento para seres tão leniente — esta minha iniciativa depende de mim (isto é, receio tomar essa decisão por minha própria conta)! Disse-lhe Rabi Chiya: no futuro conduzirás autoridade sobre Israel (isto é, tua cautela e tua capacidade de decidir com independência são sinal de que virás a ser líder).

03O episódio de Rabi Hoshaya, a mulher que esqueceu de arrumar a verdura, e a disputa se Zavdi ben Levi precisava lhe transferir a propriedade
Yerushalmi · Demai 7:1
רִבִּי הוֹשַׁעְיָא הָיָה לוֹ תְּנַאי וַדַּאי. חָדָא אִיתָא בִשְּׁלָה יֶרֶק אַנְשִׁיָית מְתַקְּנָתָהּ. אֲתַת לְגַבֵּי רִבִּי הוֹשַׁעְיָא וְשָלַח לְזַבְדִּי בֶּן לֵוִי דִּיתַקֵּן לֵילָא. רִבִּי בָּא בַּר מַמָּל בְּעֵי וְלָא הֲוָה זַבְדִּי בַּר לֵוִי צְרִיךְ מְזַכֵּיא לְרִבִּי הוֹשַׁעְיָא בְּיַרְקָא. רִבִּי זְעִירָא בְּעֵי מַה נָן קַיָימִין. אִי בְּשֶׁיֵּשׁ לוֹ תְּנַאי עָלָיו וְעַל אֲחֵרִים אֵינוֹ צָרִיךְ לְזַכּוֹתוֹ בְּיֶרֶק. וְאִם בְּשֶׁאֵין לוֹ תְּנַאי לֹא עָלָיו וְלֹא עַל אֲחֵרִים צָרִיךְ לְזַכּוֹתוֹ בְּיֶרֶק. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר זַבְדִּי בְשֵׁם רִבִּי אַבָּהוּ אִיתְתָבַת וְלֹא זְכִי זַבְדִּי בֶּן לֵוִי לְרִבִּי הוֹשַׁעְיָא בְּיַרְקָא.

Rabi Hoshaya tinha uma condição feita sobre produto certo. Certa mulher cozinhou verdura e esqueceu de arrumá-la (separar dela o dízimo antes do início do Shabat). Veio ela a Rabi Hoshaya, que enviou Zavdi ben Levi para arrumá-la por ele e por ela, à noite (em Shabat). Rabi Ba bar Mamal perguntou: acaso Zavdi ben Levi não precisaria transferir a Rabi Hoshaya a propriedade da verdura (pois, sendo produto certo, a condição só vale sobre o que já está na posse de quem a faz — e a verdura, estando em casa da mulher e não na de Rabi Hoshaya, ainda não seria sua)? Rabi Zeira perguntou: do que estamos tratando exatamente? Se sua condição de Rabi Hoshaya foi feita para si e para outros (isto é, uma condição geral válida para toda a comunidade, não apenas para produto já em sua posse pessoal), não é necessário transferir-lhe a propriedade da verdura (pois tal condição comunitária dispensa a exigência de posse prévia); mas se sua condição não foi feita nem para si nem para outros de modo geral, é necessário transferir-lhe a propriedade da verdura antes que a condição possa valer. Rabi Yaakov bar Zavdi, em nome de Rabi Abahu: foi respondido que Zavdi ben Levi não transferiu a Rabi Hoshaya a propriedade da verdura (concluindo, portanto, que a condição de Rabi Hoshaya era do tipo geral, válida para si e para outros, dispensando a necessidade de posse prévia sobre aquela verdura específica).

04Rabi Yannai: é preciso lembrar-se da condição; Rabi Yochanan: é preciso sussurrá-la com os lábios
Yerushalmi · Demai 7:1
אָמַר רִבִּי יַנַּאי צָרִיךְ שֶׁיְּהֵא זָכוּר תְּנַייוֹ. שִׁמְעוֹן בַּר וָוא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן וְצָרִיךְ לְהַלְחִישׁ בִּשְׂפָתָיו.

Disse Rabi Yannai: é necessário que a pessoa esteja lembrada de sua condição (no momento em que aponta mentalmente a porção que será dízimo, deve ter em mente a condição feita na véspera, e não agir automaticamente sem essa lembrança consciente). Shimon bar Vava, em nome de Rabi Yochanan: e é necessário sussurrar a condição com os lábios (isto é, não basta a mera lembrança mental — deve-se pronunciar em voz baixa a fórmula da condição no momento de agir conforme ela).

05Rabi Yirmiya pergunta a Rabi Zeira: não é como reparar em Shabat?
Yerushalmi · Demai 7:1
רִבִּי יִרְמְיָה בְּעָא קוֹמֵי רִבִּי זְעִירָא וְלֹא נִמְצָא כִּמְתַקֵּן בְּשַׁבָּת. אָמַר לֵיהּ אַדְהִיתְנֵיהּ.

Rabi Yirmiya perguntou diante de Rabi Zeira: e quem age conforme a condição em Shabat não se encontra fazendo algo semelhante a quem repara um objeto, tornando-o utilizável, o que é proibido em Shabat (como um trabalho derivado de "makê b'patish", dar o acabamento final)? Disse-lhe Rabi Zeira: o que torna o alimento apto ao consumo é sua condição já estabelecida na véspera (pois a essência de dar à teruma seu nome é o próprio ato de nomear, que já ocorreu antes de Shabat; a separação física realizada no Shabat é mera formalidade, sem o caráter de reparo proibido pela Torá).

06Rabi Yirmiya pergunta: não há destruição de alimento? Resposta: esfarela-se um pouco e come-se
Yerushalmi · Demai 7:1
רִבִּי יִרְמְיָה בְּעָא קוֹמֵי רִבִּי זְעִירָא וְאֵינוֹ אָסוּר מִפְּנֵי אוֹבְדָן אוֹכְלִים. אָמַר לֵיהּ מְפָרְרֵי כָּל שֶׁהוּא וְאוֹכֵל.

Rabi Yirmiya perguntou diante de Rabi Zeira: e não é isso proibido por causa da destruição de alimentos (pois a teruma do dízimo separada, não podendo ser entregue a um cohen em Shabat por não haver como fazê-lo com propriedade, ficaria destinada a se perder, violando a proibição de destruir comida útil)? Disse-lhe: esfarela-se uma quantidade qualquer da porção separada como teruma e come-se (consumindo-a imediatamente em pequena quantidade, evitando que se perca por completo e resolvendo o problema da destruição).

07Rabi Yirmiya pergunta: não há roubo? Resposta: o anfitrião deseja a satisfação do hóspede
Yerushalmi · Demai 7:1
רִבִּי יִרְמְיָה בְּעָא קוֹמֵי רִבִּי זְעִירָא וְאֵינוֹ אָסוּר מִשּׁוּם גֶּזֶל. אָמַר לֵיהּ רוֹצֶה הוּא שֶׁיְּהֵא לוֹ נַחַת רוּחַ.

Rabi Yirmiya perguntou diante de Rabi Zeira: e não é isso proibido por causa de roubo (pois o convidado, ao separar por si mesmo uma pequena porção da comida do anfitrião sem seu conhecimento explícito no momento, estaria tomando algo que pertence a outrem sem autorização direta)? Disse-lhe: o anfitrião deseja que o convidado tenha satisfação (pois, ao tê-lo convidado sabendo de sua desconfiança quanto aos dízimos, o próprio convite implica consentimento tácito a essas ações do convidado, tornando-as não um roubo, mas algo desejado pelo anfitrião).

08O episódio de Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá: a satisfação do anfitrião não elimina o receio de suspeita
Yerushalmi · Demai 7:1
מִילֵּיהוֹן דְּרַבָּנִין פְּלִיגִין דְּאָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רִבִּי יִצְחָק רִבִּי וְרִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי יְהוּדָה נִתְאָרְחוּ אֶצֶל בַּעַל הַבַּיִת אֶחָד. אֲזַל לִישְׁנָא בִישָׁא אֲמַר לֵיהּ הַב דַּעְתָּךְ דְּאִינּוּן מְחַשְׁדּוּנָךְ יְתִיב לֵיהּ מְעַיְינֵי לוֹן וַהֲווֹן עָבְדִין נַפְשִׁין מִזְרְקִין אִילֵּין לְאִילֵּין וּמְתַקְּנִין. וְאֵינוֹ רוֹצֶה הֲנָחַת רוּחַ. רוֹצֶה הוּא אֶלָּא דְלָא בְּעֵי דְחַשְׁדּוּנֵיהּ.

As palavras dos sábios parecem se contradizer, pois disse Rabi Shmuel bar Rabi Yitzchak: Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá se hospedaram certa vez junto a um certo dono de casa. Foi alguém de língua maligna e lhe disse: sabe que eles te suspeitam (de ser am ha'aretz, não confiável quanto aos dízimos)! O dono da casa sentou-se a observá-los, e os hóspedes passaram a lançar pedaços de comida, um ao outro, fingindo brincar, e com isso secretamente os arrumavam (separando o dízimo por meio desses pequenos pedaços lançados, sem que o dono da casa percebesse o que realmente faziam). Pergunta-se: e não deseja ele o dono da casa a satisfação de seus convidados, tornando lícita tal ação por seu consentimento tácito, como se ensinou acima? Resposta: ele deseja sim a satisfação deles, mas não quer ser suspeitado (isto é, ainda que consinta de bom grado com o ato em si, não deseja que seus hóspedes ajam abertamente como se ele fosse am ha'aretz não confiável — e por isso os hóspedes disfarçaram o ato como brincadeira, evitando expor sua suspeita, o que mostra que a permissão de agir com base na satisfação do anfitrião tem seus limites diante do receio de constrangê-lo publicamente).

09Rabi Yehudá proíbe a condição; comparação com quem vende tevel a um companheiro
Yerushalmi · Demai 7:1
תַּנִּי רִבִּי יוּדָה אוֹסֵר. מַה טַעְמָא דְּרִבִּי יוּדָה וְיֵשׁ אָדָם מַתְנֶה עַל דָּבָר שֶׁאֵינוֹ בִרְשׁוּתוֹ. מוֹדֶה רִבִּי יוּדָה שֶׁהוּא הוֹלֵךְ וְלוֹקֵחַ מִמָּקוֹם שֶׁלָּקַח זֶה וּמְעַשְּׂרָן. וְיֵשׁ אָדָם מַפְרִישׁ עַל דָּבָר שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ. רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן עָשׂוּ אוֹתוֹ כְּמוֹכֵר פֵּירוֹת טְבוּלִין לַחֲבֵירוֹ. כְּהָדָא דְתַנִּי הַמּוֹכֵר פֵּירוֹת טְבוּלִין לַחֲבֵירוֹ הֲרֵי זֶה רָץ אַחֲרָיו וּמְתַקְּנוֹ. לֹא מְצָאוֹ אִם יָדוּעַ שֶׁהַפֵּירוֹת קַיָימִין מְעַשֵּׂר עֲלֵיהֶן וְאִם לָאו אֵינוֹ צָרִיךְ לְעַשֵּׂר עֲלֵיהֶן. סָפֵק קַיָימִין סָפֵק אֵין קַיָימִין מְעַשֵּׂר עֲלֵיהֶן וְקוֹרֵא שֵׁם לְמַעְשְׂרוֹתֵיהֶם.

Ensina-se (baraita): Rabi Yehudá proíbe a condição descrita na Mishná, mesmo para demai. Qual é a razão de Rabi Yehudá? Ele pergunta: acaso pode a pessoa fazer condição sobre algo que não está em sua posse (pois, no momento em que se faz a condição, na véspera de Shabat, o produto que amanhã será separado ainda não foi identificado nem determinado, sendo, portanto, como algo alheio à posse presente do anfitrião)? Contudo, Rabi Yehudá concorda que o convidado, se quiser, pode ir e comprar do mesmo lugar de onde o anfitrião comprou, e dizimar esse produto por conta própria antes da refeição (solução alternativa que não depende de uma condição sobre posse futura). Pergunta-se ainda: mas acaso pode a pessoa separar dízimo sobre algo que não é seu (já que o convidado dizimaria produto pertencente a outra pessoa, o vendedor, e não a si mesmo)? Rabi Abahu, em nome de Rabi Yochanan: consideraram-no o vendedor, nesse caso, como quem vende produto de tevel (não dizimado) a seu companheiro (pois o dízimo separado pelo comprador em nome do vendedor tem validade, do mesmo modo que se validou o caso análogo abaixo). É como se ensina: quem vende produto de tevel a seu companheiro e depois se lembra de que não o dizimou, eis que corre atrás dele para arrumá-lo (dizimá-lo). Se não o encontrou, se é sabido que os frutos ainda existem intactos em posse do comprador, o vendedor dizima por eles (mesmo à distância, pois é como se ainda fossem seus); e se não é sabido que ainda existem, não precisa dizimar por eles. Se é duvidoso se existem ou não existem, dizima por eles e dá nome a seus dízimos (isto é, declara formalmente qual porção é dízimo, teruma do dízimo e segundo dízimo, ainda que, por tratar-se de dúvida, não seja obrigado à separação física completa).

Nota

Esta halachá abre o Perek Zayin de Massechet Demai com nova Mishná: quem convida um amigo que não confia nele quanto aos dízimos pode, na véspera de Shabat, fazer uma condição prospectiva sobre o que separará no dia seguinte — dízimo, teruma do dízimo e segundo dízimo, incluindo seu resgate por moedas já reservadas — de modo a evitar o ato proibido de dizimar em Shabat. A guemará discute com Rabi Yochanan se essa condição vale apenas para demai ou também para produto certamente não dizimado, com a objeção de uma baraita e sua resolução; traz os episódios de Rabi Yannai, que consultou Rabi Chiya Rabá sobre firmar em Shabat uma condição feita para produto certo, e de Rabi Hoshaya, que enviou Zavdi ben Levi para arrumar a verdura de uma mulher esquecida, com a discussão de Rabi Ba bar Mamal e Rabi Zeira sobre a necessidade de transferência de propriedade.

Segue-se a exigência de Rabi Yannai de que se esteja lembrado da condição, e de Rabi Yochanan (transmitida por Shimon bar Vava) de sussurrá-la com os lábios; as três perguntas de Rabi Yirmiya a Rabi Zeira — se o ato não constitui reparo proibido em Shabat, destruição de alimento, ou roubo — com as respectivas respostas sobre a condição prévia, o esfarelamento imediato da porção e o desejo de satisfação do anfitrião; o episódio de Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá, hospedados sob suspeita e disfarçando a separação do dízimo como brincadeira, mostrando os limites da satisfação do anfitrião diante do receio de expor sua condição de suspeito; e fecha com a posição de Rabi Yehudá, que proíbe a condição por não se poder condicionar sobre algo fora da posse presente, ainda que concorde com a alternativa de comprar e dizimar por conta própria, e com a comparação de Rabi Abahu, em nome de Rabi Yochanan, ao caso de quem vende produto de tevel a um companheiro e depois dizima por ele à distância.