Continuando o tema do Perek Zayin — a condição (tenai) prospectiva que permite dizimar mentalmente em Shabat sem realizar o ato proibido —, esta nova Mishná desloca o caso para a bebida: misturaram-lhe o copo de vinho (com água, como era costume), e ele pode dizer que aquilo que estiver destinado a deixar de sobra no fundo do copo será dízimo, com o restante do dízimo junto a ele, o que já fez dízimo estando feito, a teruma do dízimo recaindo sobre ele, e o segundo dízimo declarado em sua boca (por não haver, no líquido misturado dentro de um só copo, um "norte" ou "sul" espacialmente distinguível como no caso do alimento sólido da Mishná anterior), resgatado pelas moedas. A guemará discute exatamente em que momento e sob qual formulação essa condição funciona — se dita depois que a bebida já está misturada, ou apenas de modo retroativo ao momento futuro de beber —, o receio de se encontrar carregando teruma impura em Shabat, a posição de Rabi Lazar sobre deixar de sobra uma porção de chulin comum, a comparação com a permissão de transportar teruma pura junto à impura, a frase de Rabi Yossei bei Rabi Bun sobre a santificação do vinho no momento em que sai do copo, e fecha com o caso de comprar vinho dos cutim, a proibição de Rabi Yossei e Rabi Shimon por receio de que o odre se rompa e o comprador acabe bebendo tevel retroativamente, e a posição de Rabi Yaakov bar Idi de que todos concordam quanto ao copo bebido no próprio lugar.
Mishná: Misturaram-lhe o copo (de vinho com água, no Shabat, para o convidado que não confia no anfitrião quanto aos dízimos) — o anfitrião diz: "aquilo que estou destinado a deixar de sobra no fundo do copo (a porção que, ao terminar de beber, restará no fundo, não consumida) seja dízimo, e o restante do dízimo (as nove partes que sobram, não entregues ao levita) esteja próximo a ele; isto que fiz dízimo está feito; a teruma do dízimo recaia sobre ele; e o segundo dízimo esteja declarado em sua boca (isto é, apenas verbalmente designado, sem localização espacial definida, já que no líquido misturado dentro do copo não há como apontar um "norte" ou um "sul" como se faz no alimento sólido), e esteja resgatado pelas moedas (previamente reservadas para esse fim)."
Assim se deve entender a Mishná: ela trata especificamente do momento de misturar o copo (isto é, a condição é dita bem no instante em que o vinho é misturado com água, antes de o convidado começar a beber, e não em qualquer outro momento).
Do que estamos tratando exatamente, isto é, em qual formulação precisa da condição? Se ele fizer a condição dizendo "já desde agora, o que sobrar é dízimo", o problema é que a bebida já está misturada (vinho com água formam uma mistura só, sem uma parte fisicamente distinta que possa ser "o fundo do copo" no momento presente — a condição não teria sobre o que recair de imediato). E se ele disser "quando eu beber é que valerá", de modo retroativo, o problema é que, enquanto bebe antes de chegar ao fundo, ele estaria bebendo tevel retroativamente (pois toda a bebida no copo, até o momento em que a condição se realizasse, ainda não teria seu dízimo separado, sendo proibida como tevel). Mas a solução é que tratamos do caso em que ele diz, já desde agora: "quando eu beber (chegando ao fundo, aquilo que ali restar será dízimo, dito de antemão)" — e assim não se encontra carregando teruma impura em Shabat (pois a declaração é feita de uma só vez, antes de começar a beber, evitando tanto o problema do tevel bebido durante o processo quanto o de ter de manusear fisicamente, no Shabat, uma porção já designada como teruma, que poderia estar impura). Disse Rabi Lazar: ele deixa de sobra uma quantidade qualquer de chulin comum (isto é, além da porção do fundo destinada a dízimo e teruma, deve restar fisicamente ainda alguma bebida comum, não sagrada, para que a porção sagrada não fique isolada e seja possível seu manuseio dentro da mistura), como aquilo que ensinamos ali noutro lugar: transporta-se teruma pura junto com a impura, desde que também junto com o chulin comum (regra que permite carregar teruma pura em conjunto com teruma impura, contanto que ambas estejam misturadas com uma porção de produto comum, que serve de intermediário) — mas os dois casos não são semelhantes de fato: ali naquele caso da Mishná paralela, o produto impuro é transportado por causa do puro (a teruma impura beneficia-se do transporte permitido por estar junto à pura, que é o elemento principal a se preservar); aqui, porém, é o chulin comum que é deixado por causa do impuro (isto é, aqui a lógica se inverte: reserva-se a porção de chulin não por seu próprio valor, mas apenas para servir de veículo à porção potencialmente impura de teruma, tornando seu manuseio permitido). Disse Rabi Yossei bei Rabi Bun: com sua saída do copo (no momento em que a bebida sai do copo para a boca do bebedor, sendo consumida), a porção declarada se santifica (torna-se efetivamente dízimo e teruma apenas nesse instante final, e não antes).
Ali noutro lugar ensinamos: "quem compra vinho dentre os cutim (samaritanos, e faz sobre ele uma condição semelhante de dizimar retroativamente conforme for bebendo, odre por odre)". Ensina-se (baraita): Rabi Yossei e Rabi Shimon proíbem tal condição sobre o odre inteiro, por receio de que o odre se rompa (antes que todo o vinho seja consumido), e assim se encontre este que comprou bebendo o que já bebeu como tevel retroativamente (pois, rompendo-se o odre antes de terminar de beber, toda a condição feita sobre o odre inteiro se desfaz, e descobre-se que o vinho já consumido nunca chegou a ser validamente dizimado). E esta nossa Mishná, sobre o copo, não é como a visão de Rabi Yossei e Rabi Shimon (pois nossa Mishná permite a condição mesmo assim, sem esse receio, por tratar-se de um copo, e não de um odre inteiro). Disse Rabi Yaakov bar Idi: todos — tanto Rabi Yossei e Rabi Shimon quanto os que discordam deles — concordam quanto ao copo que é bebido no próprio lugar (isto é, consumido de imediato, ali mesmo, sem risco de interrupção prolongada como o odre guardado por dias — nesse caso a condição vale para todos, e a proibição de Rabi Yossei e Rabi Shimon refere-se apenas ao odre grande, sujeito ao risco real de se romper antes do fim).
Esta halachá dá continuidade ao Perek Zayin com uma nova Mishná: misturaram-lhe o copo de vinho, e o anfitrião pode dizer que aquilo que estiver destinado a deixar de sobra no fundo do copo será dízimo, com a teruma do dízimo recaindo sobre essa porção e o segundo dízimo declarado apenas verbalmente — "em sua boca" —, por não haver, no líquido misturado, uma localização espacial distinguível como no alimento sólido da halachá anterior. A guemará abre confirmando que a Mishná trata do preciso momento de misturar o copo, examina minuciosamente a formulação exata da condição — mostrando que dizer "já" torna a bebida uma mistura indistinguível, e dizer apenas "quando eu beber" faria beber tevel retroativamente durante o processo —, e resolve que a fórmula correta combina ambos os elementos, evitando também o problema de carregar teruma impura em Shabat.
Segue-se a posição de Rabi Lazar, de que se deve sempre deixar de sobra alguma quantidade de chulin comum para servir de veículo à porção sagrada, comparada e distinguida da regra de transportar teruma pura junto com a impura; a frase de Rabi Yossei bei Rabi Bun, de que a santificação da porção declarada só se completa no momento em que o vinho sai do copo; e fecha com o caso de comprar vinho dos cutim odre a odre, a proibição de Rabi Yossei e Rabi Shimon por receio de que o odre se rompa antes do fim, fazendo com que o comprador descubra ter bebido tevel retroativamente, e a posição conciliadora de Rabi Yaakov bar Idi, de que todos concordam quanto ao copo bebido de imediato no próprio lugar, sem o risco que motiva a proibição sobre o odre.