Talmud Yerushalmi · Massechet Kilayim · Perek Zayin · Halachá 3
כִּלְאַיִם

Quem faz sua videira sombrear a plantação alheia: santifica o que não é seu?

Perek Zayin, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Kilayim

Terceira halachá do Perek Zayin de Massechet Kilayim, abrindo uma Mishná totalmente nova e distinta da anterior: quem faz sua videira sombrear (por meio de treliça ou apoio) a plantação de grão do seu próximo santificou o grão (tornou-o proibido e destinado à queima) e é responsável pelo dano causado; Rabi Yossei e Rabi Shimon discordam, sustentando que ninguém santifica algo que não é seu (e portanto o dono da videira não poderia proibir um grão que não lhe pertence); e Rabi Yossei traz um caso concreto — alguém que semeou o próprio vinhedo no ano sabático, julgado por Rabi Akiva, que decidiu na mesma linha. A guemará abre derivando do versículo "não semearás teu vinhedo com kilayim" (Devarim 22:9) que a proibição se estende também ao vinhedo de outrem, e debate se toda a Mishná segue apenas Rabi Meir — por Rabi Lazar, a partir de sua posição sobre a propriedade do gentio na Terra de Israel — ou se é a opinião de todos, como propõe Rabi Yochanan, tratando-se de um gentio que semeou kilayim em seu próprio vinhedo antes de vendê-lo a um israelita; compara o caso, por Rabi Yossa em nome de Rabi La, ao do ne'evad (o animal usado para transgressão, desqualificado para uso sagrado ainda que não pertença a quem cometeu o ato); traz, por Reish Lakish, que a responsabilidade da Mishná é uma penalização instituída por Rabi Meir, ilustrada pelo próprio caso de Rabi Lazar, penalizado como um avaliador de moedas que erra; e fecha com a distinção de Rabi Yochanan entre quem causa a proibição e quem apenas a sofre, deixando sem solução, apenas com uma tentativa de prova refutada, o caso de quem faz a videira de um terceiro sombrear a plantação de outro terceiro.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמְסַכֵּךְ אֶת גַּפְנוֹ עַל גַּבֵּי תְבוּאָתוֹ שֶׁל חֲבֵירוֹ הֲרֵי זֶה קִידֵּשׁ וְחַיָּיב בְּאַחֲרָיוּתוֹ. רִבִּי יוֹסֵי וְרִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמְרִים אֵין אָדָם מַקְדִּישׁ דָּבָר שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי מַעֲשֶׂה בְּאֶחָד שֶׁזָּרַע אֶת כַּרְמוֹ בַּשְּׁבִיעִית וּבָא מַעֲשֶׂה לִפְנֵי רִבִּי עֲקִיבָה וְאָמַר אֵין אָדָם מַקְדִּישׁ דָּבָר שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ.

Mishná: Quem faz sua videira sombrear (por meio de treliça ou apoio semelhante) a plantação de grão do seu próximo — eis que ele santificou (tornou o grão proibido, destinado à queima) e é responsável pelo dano (deve indenizar o vizinho pelo grão perdido). Rabi Yossei e Rabi Shimon dizem: ninguém santifica algo que não é seu (portanto o dono da videira, ao estender sua planta sobre o grão alheio, não tem poder para tornar proibido aquilo que não lhe pertence). Disse Rabi Yossei: houve um caso de alguém que semeou seu próprio vinhedo no ano sabático (quando semear é proibido), e o caso veio perante Rabi Akiva, que disse: ninguém santifica algo que não é seu (pois a semente, plantada em transgressão do ano sabático, jamais pertenceu licitamente a quem a semeou).

A Halachá · הֲלָכָה ג

01"Não semearás teu vinhedo": também o vinhedo de outro
Yerushalmi · Kilayim 7:3
כְּתִיב לֹא תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאַיִם אֵין לִי אֶלָּא כַּרְמְךָ כֶּרֶם אַחֵר מְנַיִין תַּלְמוּד לוֹמַר כִּלְאַיִם לֹא כֶרֶם וְלֹא כִלְאַיִם. אָמַר רִבִּי לָעְזָר דְּרִבִּי מֵאִיר הִיא. דְּרִבִּי מֵאִיר אָמַר אֵין לְגוֹי קִנְיָין בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל לְפוֹטְרוֹ מִן הַמַּעְשְׂרוֹת. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא תִּיפְתָּר בְּגוֹי שֶׁזָּרַע כַּרְמוֹ כִלְאַיִם וּלְקָחוֹ מִמֶּנּוּ יִשְׂרָאֵל.

Halachá: Está escrito: "não semearás teu vinhedo com kilayim" (Devarim 22:9) — daí eu tenho apenas teu vinhedo; o vinhedo de outro, de onde se aprende que também se proíbe? O versículo ensina "kilayim" (repetindo a palavra, e não apenas "vinhedo") — não apenas vinhedo, e não apenas kilayim (a proibição vale tanto para o vinhedo próprio quanto para o alheio). Disse Rabi Lazar: isto é segundo Rabi Meir — pois Rabi Meir disse que o gentio não tem aquisição na Terra de Israel para isentá-lo dos dízimos (a terra permanece vinculada à obrigação original mesmo passando às mãos de um gentio, e por isso, do mesmo modo, quem faz sua videira sombrear o grão alheio pode santificá-lo, ainda que o grão não lhe pertença). Disse Rabi Yochanan: é a opinião de todos (não apenas de Rabi Meir) — explica-se tratando de um gentio que semeou seu vinhedo com kilayim e um israelita o comprou dele (pois, nesse caso, todos concordam que a proibição já estava fixada no vinhedo antes da compra, sem depender da disputa sobre a propriedade do gentio).

02O paralelo com o ne'evad: proibido para o Alto mesmo sem ser proibido para o comum
Yerushalmi · Kilayim 7:3
רִבִּי יוֹנָה וְרִבִּי יוֹסָה תְּרֵיהוֹן אָמְרִין דְּרִבִּי מֵאִיר הִיא. הַנֶּעֱבָד אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי בֵּין שֶׁלּוֹ בֵּין שֶׁל אֲחֵרִים אָסוּר. אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי שֶׁלּוֹ אָסוּר שֶׁל אֲחֵרִים מוּתָּר. הֲווֹן בָּעֵיי מֵימַר מָאן דְּאָמַר בֵּין שֶׁלּוֹ בֵּין שֶׁל אֲחֵרִים אָסוּר רִבִּי מֵאִיר וְרִבִּי יוּדָה. מָאן דְּאָמַר שֶׁלּוֹ אָסוּר וְשֶׁל אֲחֵרִים מוּתָּר רִבִּי יוֹסֵי וְרִבִּי שִׁמְעוֹן. רִבִּי יוֹסָה בְּשֵׁם רִבִּי לָא דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא. כַּמָּה דְתֵימַר תַּמָּן דָּבָר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ רוּחַ חַיִּים אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ נֶאֱסָר לְהֶדְיוֹט נֶאֱסָר לְגָבוֹהַּ וְדִכְוָותָהּ דָּבָר שֶׁאֵינוֹ שֶׁלָּךְ אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ נֶאֱסָר לְהֶדְיוֹט נֶאֱסָר לְגָבוֹהַּ.

Halachá: Rabi Yona e Rabi Yossa, ambos os dois, dizem que é segundo Rabi Meir. Quanto ao ne'evad (o animal usado para uma transgressão, tornando-se por isso desqualificado para o altar) — há tanaítas que ensinam: seja o seu, seja o de outros, é proibido para uso sagrado; há tanaítas que ensinam: o seu é proibido, mas o de outros é permitido. Quiseram dizer: quem diz "seja o seu, seja o de outros, é proibido" são Rabi Meir e Rabi Yudá; quem diz "o seu é proibido e o de outros é permitido" são Rabi Yossei e Rabi Shimon. Rabi Yossa em nome de Rabi La: é a opinião de todos (não há disputa real entre as duas versões, pois cada uma fala de um patamar distinto). Assim como dizes ali: algo que tem nele espírito de vida (um ser vivo), ainda que não fique proibido para o uso comum (hedyot), fica proibido para o Alto (gavoha, o uso sagrado, sobre o altar) — do mesmo modo, algo que não é teu: ainda que não fique proibido para o uso comum, fica proibido para o Alto (assim também aqui, mesmo que o dono da videira não possa proibir para uso comum um grão que não lhe pertence, pode ainda assim torná-lo destinado à queima, como algo consagrado e proibido a qualquer uso).

03Reish Lakish: a penalização de Rabi Meir, e o caso do avaliador de moedas
Yerushalmi · Kilayim 7:3
רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר קְנָסֵיהּ דְּרִבִּי מֵאִיר וַעֲבַד עוּבְדָּא דִכְוָותֵיהּ מִן הָדָא. הַמְסַכֵּךְ אֶת גַּפְנוֹ עַל גַּבֵּי תְבוּאָתוֹ שֶׁל חֲבֵירוֹ. וְכִי מַה עָשָׂה מַעֲשֶׂה. אֶלָּא כְּשֶׁהוֹסִיף לְפִי דַּעְתּוֹ הוּא מוֹסִיף. חַד בַּר נַשׁ חֲוֵי סַלְעֵיהּ לְרִבִּי לָעְזָר אֲמַר לֵיהּ טָבָא הִיא וִיפָּסְלָת. אֲתָא עוּבְדָּא קוֹמֵי רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ וּקְנָסֵיהּ מִן הָדָא. הַמַּרְאֶה דִּינָר לְשֻׁלְחָנִי וְנִמְצָא רַע חַיָּיב לְשַׁלֵּם מִפְּנֵי שֶׁהוּא נוֹשֵׂא שָׂכָר. וְרִבִּי לָעְזָר נוֹשֵׂא שָׂכָר. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא בְּשֵׁם רִבִּי אֲבוּנָא הַמַּחֲזִיק בּוֹ כְּנוֹשֵׂא שָׂכָר. רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן לֹא אָמַר כֵּן אֶלָּא רִבִּי לָעְזָר אָמַר קְנָסֵיהּ דְּרַבָּנִין. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר קְנָסָהּ דְּרִבִּי מֵאִיר. כָּךְ אֲתָא עוּבְדָּא שָׁאַל רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ לְרִבִּי לָעְזָר הַהֵן קְנָסָא דְּמָאן. אֲמַר לֵיהּ דְּרַבָּנִין. אֲמַר לֵיהּ פּוּק שְׁלִם.

Halachá: Rabi Shimon ben Lakish disse: ele (Rabi Meir) penalizou por decreto, e agiu de acordo com isso, a partir do seguinte: "quem faz sua videira sombrear a plantação de grão do seu próximo" — mas que ato ele praticou (afinal, ele nada fez diretamente ao grão do vizinho, apenas deixou sua própria videira crescer sobre ele)? Antes, quando ela cresceu, foi segundo sua própria intenção que ela cresceu (é responsabilizado porque quis e permitiu esse crescimento, e por isso trata-se de uma penalização instituída pelos sábios, não de responsabilidade civil comum). Um certo homem mostrou sua moeda a Rabi Lazar; disse-lhe: é boa — e ela foi desqualificada (revelou-se falsa depois). O caso veio perante Rabi Shimon ben Lakish, que o penalizou com base nisto: quem mostra um dinar a um trocador de moedas, e ele se revela ruim, o trocador é obrigado a pagar, porque recebe salário (é um avaliador pago, e por isso responde por seu erro). Mas Rabi Lazar recebia salário? Rabi Yaakov bar Acha em nome de Rabi Avuna: quem se dedica habitualmente a isso é como quem recebe salário. Rabi Yossei filho de Rabi Bun não disse assim, mas sim que Rabi Lazar disse: ele o penalizou por decreto dos sábios. Rabi Shimon ben Lakish disse: foi a penalização de Rabi Meir. Assim veio o caso: perguntou Rabi Shimon ben Lakish a Rabi Lazar: essa penalização, de quem é? Disse-lhe: dos sábios. Disse-lhe: vai, paga.

04Rabi Yochanan: quem proíbe e quem não proíbe — e o caso deixado em aberto
Yerushalmi · Kilayim 7:3
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן הַכֹּל מוֹדִין בָּעֲנָבִים שֶׁהֵן אֲסוּרוֹת. אָמַר לֵיהּ רִבִּי לָעְזָר הָאוֹסֵר אֵינוֹ נֶאֱסָר וְשֶׁאֵינוֹ אוֹסֵר נֶאֱסָר. מַה פְלִיגִין בִּמְסַכֵּךְ אֶת גַּפְנוֹ עַל גַּבֵּי תְבוּאָתוֹ שֶׁל חֲבֵירוֹ. אֲבָל הַמְּסַכֵּךְ אֶת גַּפְנוֹ שֶׁל חֲבֵירוֹ עַל גַּבֵּי תְבוּאָתוֹ כָּל עַמָּא מוֹדֵיי שֶׁהָאוֹסֵר נֶאֱסָר. הַמְּסַכֵּךְ גַּפְנוֹ שֶׁל חֲבֵירוֹ עַל גַּבֵּי תְבוּאָתוֹ שֶׁל חֲבֵירוֹ. נִישְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי מַעֲשֶׂה בְּאֶחָד שֶׁזָּרַע אֶת כַּרְמוֹ בַּשְּׁבִיעִית וּבָא מַעֲשֶׂה לִפְנֵי רִבִּי עֲקִיבָה וְאָמַר אֵין אָדָם מַקְדִּישׁ דָּבָר שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ. הֲרֵי אֵין הַגֶּפֶן שֶׁלּוֹ וְאֵין הַתְּבוּאָה שֶׁלּוֹ וְאִיתְתָבַת.

Halachá: Disse Rabi Yochanan: todos concordam que as uvas (da própria videira que sombreou o grão alheio) ficam proibidas. Disse-lhe Rabi Lazar: quem proíbe não fica proibido, e quem não proíbe fica proibido (a regra depende de quem causou a proibição, e não de quem é o dono das uvas) — sobre o que então discordam Rabi Yossei e Rabi Shimon dos sábios na Mishná? Sobre quem faz sua própria videira sombrear a plantação de grão do seu próximo (caso em que o causador — dono da videira — não vê sua própria uva proibida, mas proíbe o grão alheio). Mas quem faz a videira do seu próximo sombrear sua própria plantação de grão (o dono do grão é quem causa o ato) — todos concordam que quem proíbe fica proibido (o próprio grão do causador fica proibido, ainda que a videira não seja sua). E que se diga de quem faz a videira de um próximo sombrear a plantação de grão de outro próximo (quando nem a videira nem o grão pertencem a quem realiza o ato)? Ouçamos isto a partir do seguinte: disse Rabi Yossei: houve um caso de alguém que semeou seu vinhedo no ano sabático, e o caso veio perante Rabi Akiva, que disse: ninguém santifica algo que não é seu — eis que nem a videira era dele (a proibição do ano sabático já a havia desqualificado), nem o grão era dele (pela mesma razão), e ainda assim Rabi Akiva não a santificou — e isto foi refutado (a tentativa de prova não se sustentou, e a questão do terceiro que não é dono de nenhum dos dois permanece sem solução).

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Zayin de Massechet Kilayim, e abre uma Mishná totalmente nova e distinta da anterior, sem qualquer vínculo direto de continuidade temática com a halachá 7:2. A Mishná trata de quem faz sua própria videira sombrear, por meio de treliça ou apoio semelhante, a plantação de grão do seu próximo: nesse caso, ele santifica o grão alheio — torna-o proibido e destinado à queima, como ocorreria com o kilayim de um vinhedo pleno — e é responsável por indenizar o vizinho pelo dano. Rabi Yossei e Rabi Shimon discordam dessa regra geral, sustentando o princípio de que ninguém santifica algo que não é seu: se o grão pertence ao vizinho, o dono da videira não teria poder para torná-lo proibido apenas por estendê-la sobre ele. Rabi Yossei ilustra sua posição com um caso concreto, julgado por Rabi Akiva: alguém que semeou seu próprio vinhedo durante o ano sabático — quando semear é proibido — e cuja semente, por isso, nunca lhe pertenceu licitamente; Rabi Akiva decidiu que, por essa mesma razão, ninguém santifica o que não é seu.

A guemará abre derivando do versículo "não semearás teu vinhedo com kilayim" (Devarim 22:9) que a proibição, embora formulada em relação ao vinhedo do próprio dono, se estende também ao vinhedo de outrem, a partir da repetição da própria palavra "kilayim" no versículo. Discute-se então se a Mishná inteira segue apenas Rabi Meir — posição de Rabi Lazar, que a compara à visão de Rabi Meir sobre a ausência de aquisição plena do gentio na Terra de Israel para fins de dízimos — ou se é a opinião de todos, como propõe Rabi Yochanan, bastando entender que se trata de um gentio que já havia semeado seu vinhedo com kilayim antes de um israelita comprá-lo, hipótese em que a proibição preexistente não depende de nenhuma disputa sobre propriedade. Rabi Yona e Rabi Yossa reafirmam a atribuição a Rabi Meir, e a guemará traça um paralelo com a lei do ne'evad — o animal usado para uma transgressão e por isso desqualificado para uso sagrado, mesmo quando pertence a outra pessoa que não o transgressor: assim como algo que tem espírito de vida pode não ficar proibido para uso comum mas ficar proibido para uso sagrado, também algo que não é teu pode não ficar proibido para uso comum mas ficar proibido para uso sagrado — o que explica como a videira pode santificar um grão que não lhe pertence, ainda que não possa, em sentido estrito, "consagrá-lo" para todos os efeitos civis. Reish Lakish acrescenta que a responsabilidade pelo dano, imposta pela Mishná, não é consequência automática da lei, mas uma penalização instituída por Rabi Meir, pois o dono da videira não praticou nenhum ato direto sobre o grão do vizinho — apenas permitiu, por sua própria vontade, que a videira crescesse sobre ele. A guemará ilustra essa mesma lógica de penalização com um caso da vida de Rabi Lazar, que avaliou uma moeda como boa e ela se revelou falsa: comparado a um trocador de moedas pago, que responde pelo erro de sua avaliação, Rabi Lazar foi condenado a pagar por decreto dos sábios (segundo uma tradição) ou por decreto específico de Rabi Meir (segundo outra), até que, num caso posterior, o próprio Reish Lakish lhe exigiu o pagamento com base nessa mesma penalização. A guemará fecha com a distinção de Rabi Yochanan, contestada por Rabi Lazar, entre quem causa a proibição e quem apenas a sofre: a disputa da Mishná se limita ao caso em que o dono da videira faz sua própria planta sombrear o grão do vizinho — e nesse caso, todos concordam que as próprias uvas do causador nunca ficam proibidas, discordando apenas quanto ao grão alheio. Já quando é o dono do grão quem faz a videira do vizinho sombrear sua própria plantação, todos concordam que seu grão fica proibido. Permanece em aberto, porém, o caso de um terceiro que faz a videira de uma pessoa sombrear o grão de outra pessoa, sem que nenhum dos dois bens pertença a quem executa o ato: a guemará tenta resolver essa dúvida com o próprio caso de Rabi Akiva sobre o vinhedo semeado no ano sabático — em que nem a videira nem o grão pertenciam licitamente ao semeador —, mas a tentativa de prova é refutada, e a questão fica sem solução. Massechet Kilayim, por ser um "tratado menor" dentro do Seder Zeraim, não recebeu Guemará no Talmud Bavli, nem comentário tradicional de Rashi; o texto aqui é o Yerushalmi em sua integridade.