Esta halachá comenta uma nova Mishná, que estabelece regras práticas sobre a colheita da pe'á: não se colhe com foices nem se arranca com machados, para que os pobres não se firam uns aos outros na disputa; há três momentos de obaiot (inspeção) durante o dia — de manhã, ao meio-dia e à tarde; Rabán Gamliel e Rabi Akivá discordam sobre se esses três momentos são um mínimo ou um máximo; e o costume da Casa de Námer, que colhia ao longo de uma corda e dava pe'á de cada faixa do campo. A guemará explica a palavra obaiot a partir de um versículo de Obadias, dá a razão de cada um dos três momentos — as amamentadoras, as crianças e os idosos —, discute os limites das posições de Rabán Gamliel e Rabi Akivá, relata o louvor e a crítica que Abba Shaul fazia ao costume da Casa de Námer, e fecha com as cinco razões de Rabi Shimon para que a pe'á seja dada apenas no final do campo.
Mishná: A pe'á não se colhe com foices, e não se arranca com machados, para que não se firam um ao outro (os pobres que disputam a pe'á, se usassem ferramentas cortantes na correria da colheita, poderiam se ferir mutuamente; por isso a pe'á é sempre arrancada à mão). Há três obaiot (momentos de inspeção) no dia: de manhã, ao meio-dia e à tarde (são os horários em que o dono do campo deve declarar e separar a pe'á, para que os pobres saibam quando se apresentar). Rabán Gamliel diz: não disseram isso senão para que não se faça menos (os três momentos são um mínimo obrigatório; o dono do campo pode declarar a pe'á com mais frequência do que isso, se quiser). E Rabi Akivá diz: não disseram isso senão para que não se faça mais (os três momentos são um máximo; o dono do campo não pode declarar a pe'á com mais frequência do que isso). Os da Casa de Námer costumavam colher ao longo da corda (esticavam uma corda ao longo do campo e colhiam em faixas guiadas por ela), e davam pe'á de cada faixa e de cada faixa (deixando uma pequena pe'á ao final de cada faixa colhida, em vez de uma única pe'á ao final de todo o campo).
O que significa obaiot? Disse Rabi Bun (Rabi Abun): é como se diz (Obadias 1:6): "Como foi revistado (nechpessu) Esaú, como foram investigados (nib'u) os seus tesouros escondidos" (a raiz do verbo "investigar" nesse versículo, ba'á, é a mesma raiz de obaiot — daí se entende que obaiot são os momentos de "investigação" ou inspeção em que os pobres vasculham o campo para ver onde e quando a pe'á será dada).
"De manhã, ao meio-dia e à tarde": de manhã, por causa das amamentadoras (as mulheres que amamentam precisam vir cedo, pois não podem se demorar fora de casa); ao meio-dia, por causa das crianças (que só podem sair para colher depois de acordarem e serem alimentadas pela manhã); e à tarde, por causa dos nemushot (os idosos e debilitados, que se movem devagar, cambaleando — do radical mashash, "tatear" ou "vacilar" — e por isso só conseguem chegar ao campo mais tarde).
"Rabán Gamliel diz: não disseram isso senão para que não se faça menos": e se o dono do campo quiser acrescentar mais momentos de inspeção, ele acrescenta (os três momentos são apenas o piso mínimo exigido). "Rabi Akivá diz: não disseram isso senão para que não se faça mais": eis que, se o dono do campo quiser diminuir o número de momentos, ele não pode diminuir (para Rabi Akivá, os três momentos são também um mínimo fixo, e não apenas um teto — de modo que a única diferença prática entre as duas posições estaria em saber se é permitido acrescentar mais do que três momentos).
"Os da Casa de Námer colhiam a pe'á ao longo da corda, e davam pe'á de cada faixa e de cada faixa." Ensinaram: Abba Shaul diz: mencionam-nos tanto para desonra quanto os mencionam para louvor. Mencionam-nos para desonra, porque davam pe'á na proporção de um de cada cem (apenas um por cento da colheita, e não o um sexta parte adicional — um e dois terços por cento — exigido pela ordenança rabínica). E mencionam-nos para louvor, porque colhiam ao longo da corda e davam pe'á de cada faixa e de cada faixa (o método de colher em faixas guiadas por corda garantia que toda a extremidade do campo, em todas as suas partes, recebesse pe'á distribuída ao longo da colheita, e não apenas numa única ponta).
Ensinaram em nome de Rabi Shimon: por cinco motivos, uma pessoa não deve dar pe'á senão no final do seu campo: por causa do roubo dos pobres; por causa da inutilização do tempo dos pobres; por causa dos trapaceiros; por causa da aparência aos olhos (dos que passam); e porque a Torá disse: "Não acabes completamente o canto do teu campo" (Levítico 19:9 — se a pe'á fosse dada em qualquer ponto do campo, e não só ao final, o próprio versículo, que fala em "não acabar o canto", perderia o sentido). Por causa do roubo dos pobres, como assim? Para que uma pessoa não veja a hora vazia (um momento em que não há pobres por perto observando) e diga ao seu parente pobre: vem, e toma para ti a pe'á (dando a pe'á de antemão, escondida, a um parente, roubando assim dos demais pobres o que lhes seria devido). Por causa da inutilização do tempo dos pobres, como assim? Para que os pobres não fiquem sentados vigiando o dia inteiro, dizendo: agora ele dá a pe'á, agora ele dá a pe'á — mas, ao contrário, que vão colher em outro campo, e venham na hora do término (se a pe'á pudesse ser dada a qualquer momento, os pobres perderiam o dia todo esperando, em vez de aproveitar o tempo colhendo em outro lugar até a hora certa). Por causa dos trapaceiros, como assim? Para que o dono do campo não diga: já dei a pe'á — e depois escolha o grão bom e retire o grão ruim (dando aos pobres apenas as espigas piores, sob pretexto de já ter cumprido a obrigação anteriormente; determinando a pe'á só ao final, evita-se essa manipulação). Por causa da aparência aos olhos, como assim? Para que os que passam e os que voltam não digam: vejam como fulano colheu o seu campo e não deixou pe'á para os pobres (se a pe'á fosse dada espalhada pelo meio do campo, um observador que visse apenas uma parte colhida sem pe'á visível poderia pensar, erradamente, que o dono não a deu). E porque a Torá disse: "Não acabes completamente o canto do teu campo."
Esta terceira halachá do Perek Dalet abre um novo assunto dentro da Mishná: as regras práticas da colheita da pe'á. A Mishná estabelece que ela não se colhe com foices nem se arranca com machados, para que os pobres não se firam na disputa; que há três momentos diários de obaiot (inspeção) — de manhã, ao meio-dia e à tarde; que Rabán Gamliel e Rabi Akivá discordam sobre se esse número é um mínimo ou um máximo; e que os da Casa de Námer tinham o costume de colher ao longo de uma corda, dando pe'á de cada faixa do campo.
A guemará primeiro deriva a palavra obaiot do verbo "investigar" em Obadias, por meio de Rabi Abun. Em seguida, explica a razão de cada um dos três momentos: de manhã por causa das amamentadoras, ao meio-dia por causa das crianças, e à tarde por causa dos idosos debilitados (nemushot). Analisa depois os limites exatos das posições de Rabán Gamliel e Rabi Akivá, mostrando que ambos concordam que os três momentos são um mínimo obrigatório, discordando apenas sobre a possibilidade de acrescentar mais. Relata a dupla avaliação de Abba Shaul sobre o costume da Casa de Námer — criticado por dar pouca pe'á, mas louvado por distribuí-la ao longo de todo o campo. E fecha com o ensinamento de Rabi Shimon, que enumera cinco razões pelas quais a pe'á deve ser dada apenas no final do campo: para não permitir o roubo disfarçado a favor de parentes, para não fazer os pobres perderem tempo esperando, para impedir a trapaça de quem já colheu escondendo a pe'á até separar o grão bom do ruim, para evitar a má impressão de quem vê o campo sem pe'á aparente, e porque assim exige o próprio versículo da Torá.