Esta halachá comenta uma nova Mishná que define o que é lekét: a espiga que cai durante a colheita. Se o ceifador estava ceifando e uma espinha o feriu, fazendo-a cair ao chão, ela pertence ao dono; mas se caiu de dentro da mão ou de dentro da foice, pertence aos pobres, ao passo que a que cai de fora da mão ou da foice pertence ao dono. Quanto à ponta da mão e da foice, Rabi Ishmael a dá aos pobres e Rabi Akivá a dá ao dono; e Rabi Meir fecha com o princípio de que toda dúvida sobre lekét é lekét. A guemará distingue "o lekét de tua colheita" — feito por quem de fato ceifa, e não por quem arranca com a mão —, traz a disputa entre Rav Kahaná e Rav Tachlifá sobre o limite exato do que conta como "dentro", explica a distinção entre espigas brancas e verdes proposta por Rabi Yehudá em nome de Rabi Shemuel, relaciona o princípio de Rabi Meir à disputa entre Rabi Yehudá ben Chagra e os sábios sobre o campo de um convertido colhido em estado duvidoso, e fecha com as fontes bíblicas e homiléticas de Rabi Shemuel bar Nachman, Reish Lakish em nome de Bar Kapara e Rabi Lá sobre a obrigação de inclinar-se sempre a favor do pobre quanto aos seus benefícios.
Mishná: Qual é a definição de lekét? O que cai da espiga ou do feixe durante a colheita. Se o ceifador estava ceifando, e já ceifou o quanto cabe em suas mãos ou arrancou o quanto cabe no seu punho, e então uma espinha o feriu e a espiga caiu ao chão — eis que isso pertence ao dono (pois já havia sido reunida em mão ou punho, e portanto já se tornara posse formal do dono antes de cair). O que cai de dentro da mão ou de dentro da foice pertence aos pobres (pois ainda não havia sido reunido em quantidade que constituísse posse); o que cai de fora da mão ou de fora da foice pertence ao dono (pois nunca chegou a fazer parte do que estava sendo colhido). Quanto à ponta da mão e à ponta da foice (o limite exato entre dentro e fora), Rabi Ishmael diz que pertence aos pobres, Rabi Akivá diz que pertence ao dono. Os buracos de formigas que estão dentro da plantação em pé (ainda não colhida) pertencem ao dono (pois presume-se que as formigas os armazenaram do próprio campo do dono, sobre o qual ele ainda tem controle); mas os que estão atrás dos ceifadores (na parte já colhida), os de cima pertencem aos pobres (pois presume-se que vieram do que caiu na colheita, isto é, do lekét), e os de baixo pertencem ao dono (pois presume-se que vieram de antes da colheita, quando o campo ainda era do dono). Rabi Meir diz: tudo pertence aos pobres, pois toda dúvida sobre o que é lekét é tratada como lekét.
Foi ensinado (numa baraita): "o lekét de tua colheita" (Levítico 19:9) — a expressão exclui quem quer que colha, mas não com a própria mão (isto é, a obrigação de deixar o lekét se aplica apenas a quem ceifa segurando o instrumento e reunindo o cereal com a mão, mas não a quem arranca o cereal de outro modo, como puxando-o com um instrumento sem tocá-lo com a mão). E de modo semelhante, "o peret (as uvas caídas) da tua vinha" (Levítico 19:10) — não se aplica a quem quer que colha a uva, mas não com a própria mão (a mesma exclusão vale para as uvas soltas na colheita da vinha, quanto ao dever de deixá-las aos pobres).
Rav Kahaná e Rav Tachlifá discordaram sobre a leitura da Mishná. Um disse: a Mishná fala apenas de dentro da mão e dentro da foice (cada um dos dois limites vale separadamente, para a mão e para a foice). E o outro disse: o que a Mishná chama de dentro da mão vale mesmo até depois do limite da foice (isto é, o espaço "dentro da mão" é medido de modo mais amplo, estendendo-se além do que estaria estritamente dentro da foice).
Rabi Yehudá em nome de Rabi Shemuel: a Mishná, ao dizer que os buracos de formiga de cima atrás dos ceifadores pertencem aos pobres, fala apenas de buracos com espigas brancas (secas, sinal de que vieram de cereal já colhido há tempo, portanto do lekét); e os de baixo pertencem ao dono quando têm espigas verdes (sinal de que vieram do cereal ainda em pé antes da colheita, ainda propriedade do dono). Rabi Meir diz: tudo pertence aos pobres, pois toda dúvida sobre lekét é lekét, e aqui há sempre dúvida, pois é impossível que uma eira saia inteiramente sem espigas verdes (mesmo entre as espigas armazenadas pelas formigas antes da colheita, é de esperar encontrar algumas verdes misturadas, de modo que a distinção entre brancas e verdes nunca é totalmente confiável, e por isso Rabi Meir atribui tudo aos pobres).
Disse Rabi Yochanan: a opinião de Rabi Meir aqui é a mesma de Rabi Yehudá ben Chagra. Pois foi ensinado (numa baraita): um convertido que se converteu, e tinha uma plantação em pé sendo ceifada — o que caiu antes de ele se converter fica isento (de lekét, esquecimento e pe'á, pois o gentio não estava obrigado); o que caiu depois de ele se converter fica obrigado. E se há dúvida sobre quando exatamente caiu, em relação ao momento da conversão, fica isento (pois o padrão diante da dúvida é a isenção; assim opinam os sábios). Rabi Yehudá ben Chagra obriga mesmo no caso de dúvida. Rabi Shimon ben Lakish disse: isso é opinião consensual de todos: um israelita, cuja base de obrigação é ficar obrigado, também em caso de dúvida fica obrigado; e um gentio, cuja base é ficar isento, também em caso de dúvida fica isento (portanto a disputa entre os sábios e Rabi Yehudá ben Chagra não seria sobre esse princípio geral, mas sobre outra questão). Disse Rabi Yochanan: assim Rabi Meir respondia a Rabi Yehudá ben Chagra: não me admites tu que toda dúvida sobre lekét é lekét (isto é, que se aplica aqui o mesmo princípio da nossa Mishná, segundo o qual, uma vez que a coisa já saiu do domínio de quem certamente não deve, a dúvida se resolve a favor dos pobres)? Rabi Shimon ben Lakish assim respondia Rabi Meir aos sábios: não me admitis vós que toda dúvida sobre lekét é lekét (voltando a mesma pergunta contra eles, para mostrar que a posição de Rabi Yehudá ben Chagra, que obriga em caso de dúvida, segue exatamente esse mesmo princípio já aceito por todos na nossa Mishná)?
E de onde se aprende que toda dúvida sobre lekét é tratada como lekét? Rabi Shemuel bar Nachman em nome de Rabi Yonatan: do versículo "ao pobre e ao rico farás justiça" (Levítico 19:15) — ensina que, quanto aos seus presentes devidos ao pobre, a dúvida se resolve a favor dele, tratando-o com igual justiça diante do rico. Rabi Shimon ben Lakish em nome de Bar Kapara: do versículo "não perverterás o julgamento do teu pobre em sua disputa" (Êxodo 23:6) — em sua disputa judicial comum tu não o perverterás a favor dele, pois a lei deve ser igual para todos; mas quanto a seus presentes devidos ao pobre, sim, tu o perverterás a favor dele, isto é, resolverás a dúvida em seu benefício. Disse Rabi Yochanan: e quão excelente é o que nos ensinou o mestre chamado Rabi Ele mesmo, comentando o versículo "abandonarás (taazov)" (Levítico 19:10): deixa diante deles (dos pobres) algo do que é teu (isto é, mesmo na dúvida, ceda ao pobre algo que por direito estrito ainda seria teu). Disse Rabi Lá: não está escrito a respeito dos presentes devidos "ao converso, ao órfão e à viúva será" (Deuteronômio 24:19, sobre o feixe esquecido)? Isso ensina que, seja o que for objeto de dúvida, quer seja do que é teu por direito, quer seja do que é dele por direito, dá a ele (pois, uma vez que a Torá já declarou que "será" deles, a presunção em toda dúvida pende para o lado do pobre).
Esta sétima e última halachá do Perek Dalet traz uma nova Mishná que define o que é lekét: a espiga que cai durante a colheita. Se caiu depois de já reunida em mão ou punho, pertence ao dono; se caiu de dentro da mão ou da foice, aos pobres; se caiu de fora, ao dono. Quanto à ponta exata da mão e da foice, Rabi Ishmael favorece os pobres e Rabi Akivá o dono. A Mishná trata ainda dos buracos de formigas — dentro da plantação em pé, do dono; atrás dos ceifadores, divididos entre cima (pobres) e baixo (dono) — e fecha com o princípio de Rabi Meir de que toda dúvida sobre lekét é lekét.
A guemará abre distinguindo, a partir do versículo "o lekét de tua colheita", que a obrigação vale apenas para quem ceifa com a própria mão, e não para quem arranca a colheita de outro modo — regra estendida também ao peret da vinha. Segue-se a disputa entre Rav Kahaná e Rav Tachlifá sobre até onde se estende exatamente "dentro da mão e da foice", e a leitura de Rabi Yehudá em nome de Rabi Shemuel, que distingue espigas brancas (dos pobres) de espigas verdes (do dono) nos buracos de formiga, com a razão de Rabi Meir de que nenhuma eira sai inteiramente sem espigas verdes. Rabi Yochanan relaciona esse princípio à disputa entre Rabi Yehudá ben Chagra e os sábios sobre o campo de um convertido colhido em estado duvidoso quanto ao momento da conversão, com a leitura de Rabi Shimon ben Lakish distinguindo israelita (obrigado mesmo em dúvida) e gentio (isento mesmo em dúvida). A halachá fecha com as fontes bíblicas do princípio de que toda dúvida sobre lekét favorece o pobre — os versículos de justiça ao pobre e ao rico, de não perverter o julgamento do pobre exceto em seus presentes devidos, de "abandonarás" segundo Rabi, e de "ao converso, ao órfão e à viúva será" segundo Rabi Lá. Com 4:7 encerra-se o Perek Dalet de Massechet Peá — confirmado que a Mishná 4:8 não existe na obra, e o Perek Hei se inicia em 5:1.