Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Hei · Halachá 2
פֵּאָה

A espiga que alcança a seara em pé, o lekét misturado no monte, e a objeção de Rabi Eliezer

Perek Hei, Halachá 2 — segunda halachá do quinto perek de Massechet Peá no Talmud Yerushalmi

Esta segunda halachá do Perek Hei abre com uma nova Mishná, em três partes: a espiga da seara cortada cujo topo alcança o trigo ainda em pé pertence ao dono se puder ser cortada junto com ele, e aos pobres caso contrário; a espiga de lekét que se misturou a um monte já colhido recebe o dízimo de outra espiga e é entregue ao pobre; e Rabi Eliezer objeta que o pobre não pode trocar algo que nunca esteve em sua posse, propondo em vez disso transferir-lhe a posse do monte inteiro antes de separar o dízimo de uma espiga. A guemará explora, com Rabi Yochanan e Rabi Yossé, os limites exatos de quando uma espiga "salva" outra da condição de esquecida; traz o relato de Rabi Hoshaya sobre as azeitonas colhidas com Rabi Chiya, o Grande; discute, com os feixes numerados e a seá cortada e não cortada, se algo que ainda era possível salvar mas foi esquecido se torna juridicamente esquecimento; detalha, com Rabi Yoná, o procedimento das duas espigas para separar o dízimo sem tocar no próprio lekét; e fecha com o debate de Rabi Abahu em nome de Reish Lakish, Rabi Aba, Rabi Yossé e Rabi Maná sobre se a Mishná segue a opinião de Rabi Yossé quanto à posse por permuta, e a réplica de Rabi Zeirá sobre a aparente inversão da posição de Rabi Eliezer.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

שִׁיבּוֹלֶת שֶׁבְּקָצִיר וְרֹאשָׁהּ מַגִּיעַ לַקָּמָה אִם נִקְצֶרֶת עִם הַקָּמָה הֲרֵי הִיא שֶׁל בַּעַל הַבַּיִת וְאִם לָאו הֲרֵי הִיא שֶׁל עֲנִיִים. שִׁיבּוֹלֶת שֶׁל לֶקֶט שֶׁנִּתְעָרְבָה בְגָדִישׁ מְעַשֵּׂר שִׁיבּוֹלֶת וְנוֹתֵן לוֹ. אָמַר רִבִּי אֱלִיעֶזֶר וְכִי הֵיאַךְ הֶעָנִי הַזֶּה מַחֲלִיף דָּבָר שֶׁלֹּא בָּא לִרְשׁוּתוֹ אֶלָּא מְזַכֶּה אֶת הֶעָנִי בְכָל הַגָּדִישׁ וּמְעַשֵּׂר שִׁיבּוֹלֶת אַחַת וְנוֹתֵן לוֹ.

Mishná: Uma espiga que está na seara já cortada, e seu topo alcança o trigo em pé ainda não colhido — se ela pode ser cortada junto com o trigo em pé num só golpe de foice, ela pertence ao dono da casa (não é considerada esquecida); e se não pode, ela pertence aos pobres (é considerada esquecimento, pois ficou isolada e foi deixada para trás). Uma espiga de lekét que se misturou num monte de feixes já colhidos e ainda não dizimadoso dono separa o dízimo de outra espiga do monte e a entrega a ele (ao pobre, no lugar da espiga de lekét que se perdeu dentro do monte, já que o lekét, sendo do pobre, não pode ser dizimado nem ficar preso ali sem solução). Disse Rabi Eliezer: e como pode este pobre trocar algo que nunca veio à sua posse (o lekét dentro do monte nunca chegou a ser recebido por ele, logo ele não tem base legal para trocá-lo por outra espiga)? Mas, em vez disso, o dono transfere ao pobre a posse de todo o monte (por um instante, como doação condicionada à devolução), e então separa o dízimo de uma espiga e a entrega a ele.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Rabi Yochanan e Rabi Yossé: o que é a seara em pé que salva a seara em pé
Yerushalmi · Peá 5:2 (Vilna 25b)
אֵי זוּ הִיא קָמָה שֶׁהִיא מַצֶּלֶת אֶת הַקָּמָה. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן כְּהָדָא דְּתַנֵּינָן שִׁיבּוֹלֶת שֶׁל קָצִיר וְרֹאשָׁהּ מַגִּיעַ לָקָּמָה. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי וְהוּא שֶׁיְּהֵא הַקָּצִיר סוֹבְבָהּ וְהוּא שֶׁיְּהֵא רֹאשָׁהּ מַגִּיעַ לַקָּמָה וְהוּא שֶׁתְּהֵא יְכוּלָה לְהִיקָּצֵר עִם הַקָּמָה. הָיְתָה יְכוֹלָה לְהִקָּצֵר עִם הַקָּמָה וְאֵין הַקָּמָה יְכוֹלָה לְהִיקָּצֵר עִמָהּ נִיצּוֹלֶת. הָיוּ שְׁתַּיִם הַפְּנִימִית יְכוֹלָה לְהִיקָּצֵר עִם הַקָּמָה הַחִיצוֹנָה וְאֵין הַחִיצוֹנָה יְכוֹלָה לְהִיקָּצֵר עִם הַקָּמָה הַפְּנִימִית נִיצּוֹלֶת וּמַצֶּלֶת.

Qual é a seara em pé que salva outra seara em pé (da condição de esquecida, segundo a Mishná de Peá 6:7, que trata de um trecho de seara não colhido e esquecido no meio do campo)? Disse Rabi Yochanan: é como aquilo que aprendemos na nossa Mishná: a espiga que está na seara cortada, e seu topo alcança o trigo em pé (o mesmo princípio de contiguidade que salva uma única espiga também salva um trecho inteiro de seara em pé). Disse Rabi Yossé: e isso é válido somente se a parte já cortada a circunda (o trecho não colhido), e somente se seu topo alcança o trigo em pé, e somente se ela puder ser cortada junto com o trigo em pé num só golpe (três condições cumulativas). Se ela podia ser cortada junto com o trigo em pé, mas o trigo em pé não pode ser cortado junto com ela (por causa do ângulo da foice), ela é salva (não se considera esquecida, mesmo que a recíproca não valha). Se havia duas espigas isoladas, e a interna pode ser cortada junto com o trigo em pé exterior a ela, mas a exterior não pode ser cortada junto com o trigo em pé interior a ela, a interna é salva e também salva a exterior, por transitividade.

02Rabi Hoshaya e as azeitonas de Rabi Chiya, o Grande: a Mishná contradiz o critério do alcance da mão
Yerushalmi · Peá 5:2
אָמַר רִבִּי הוֹשַׁעְיָא רוֹמֵס הָיִיתִי זֵתִים עִם רִבִּי חִיָיא הַגָּדוֹל וְאָמַר לִי כָּל זַיִת שֶׁאַתְּ יָכוֹל לִפְשׁוֹט יָדְךָ וְלִיטְלוֹ אֵינוֹ שִׁכְחָה. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן מִכֵּיוָן שֶׁעָבַר עָלָיו וּשְׁכָחוֹ הֲרֵי הוּא שִׁכְחָה. מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל רִבִּי הוֹשַׁעְיָא שִׁיבּוֹלֶת שֶׁל קָצִיר וְרֹאשָׁהּ מַגִּיעַ לָקָּמָה. שִׁיבּוֹלֶת שֶׁבְּקָצִיר אֵינוֹ יָכוֹל לִפְשׁוֹט יָדוֹ וְלִיטְלָהּ. רִבִּי לָא בְשֵׁם רִבִּי הוֹשַׁעְיָא בְּאוּמָן הַשֵּׁנִי שָׁנוּ.

Disse Rabi Hoshaya: eu estava pisando (colhendo) azeitonas com Rabi Chiya, o Grande, e ele me disse: toda azeitona que tu podes esticar a mão e apanhá-la não é considerada esquecimento (mesmo que já tenhas passado adiante, contanto que ainda esteja ao alcance da mão sem mover a escada). Disse Rabi Yochanan: uma vez que o colhedor passou por ela e a esqueceu, ela é considerada esquecimento (o que importa é a intenção mental de tê-la deixado para trás, não a distância física). Uma baraita discorda de Rabi Hoshaya: a espiga que está na seara cortada, e seu topo alcança o trigo em pé é considerada esquecida se não puder ser cortada junto com ele; ora, a espiga que está na seara cortada, mesmo quando fica ao alcance da mão do colhedor, ele não pode esticar a mão e apanhá-la (pois já se afastou dela ao avançar cortando; logo o critério da Mishná é a distância e a possibilidade de um só golpe de foice, e não o alcance da mão, contradizendo Rabi Hoshaya). Rabi La em nome de Rabi Hoshaya: a resposta é que ensinaram aquilo que Rabi Chiya disse a respeito da segunda fileira (de árvores ou de seara — ali, ainda dentro da mesma passada de trabalho, o critério do alcance da mão é válido; a baraita fala de um caso já concluído e deixado para trás, que é diferente).

03O quarto feixe entre o quinto e o sexto: algo apto a ser salvo mas esquecido pode virar esquecimento
Yerushalmi · Peá 5:2
דָּבָר שֶׁהוּא רָאוּי לְהַצִּיל וּשְׁכָחוֹ מַהוּ שֶׁיֵּעָשֶׂה שִׁכְחָה. נִישְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא עִימֵּר אֶת הָרִאשׁוֹן וְאֶת הַשֵּׁנִי וְאֶת הַשְּׁלִישִׁי וְשָׁכַח אֶת הָרְבִיעִי. אִית תְּנָיֵי תַּנִּי אִם נָטַל אֶת הַחֲמִישִׁי הֲרֵי זוּ שִׁכְחָה. וְאִית תְּנָיֵי תַּנִּי אִם שָׁהָא לִיטּוֹל הַחֲמִישִׁי הֲרֵי זוּ שִׁכְחָה. אָמַר רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא מָאן דְּאָמַר נָטַל אֶת הַחֲמִישִׁי בִּשֶׁיֵּשׁ שָׁם שִׁישִׁי. מָאן דְּאָמַר אִם שָׁהָא לִיטּוֹל אֶת הַחֲמִישִׁי בִּשֶׁאֵין שָׁם שִׁישִׁי. אִם עַד שֶׁלֹּא נָטַל אֶת הַחֲמִישִׁי לֹא כְּבָר נִרְאֶה לוֹ הָרְבִיעִית לִידוֹן כְּשׁוּרָה. הָדָא אָמְרָה דָּבָר שֶׁהוּא רָאוּי לְהִצֹּיל וּשְׁכָחוֹ הֲרֵי הוּא שִׁכְחָה.

Algo que é apto a ser salvo (da condição de esquecimento por um feixe vizinho ainda por remover), mas foi esquecido antes de esse feixe vizinho ser removido — o que é a lei quanto a saber se ele se torna juridicamente esquecimento desde já, ou só depois? Ouçamos a resposta disto: se alguém removeu o primeiro, o segundo e o terceiro feixes, e esqueceu o quarto (sem removê-lo) — há sábios que ensinaram uma versão da baraita, segundo a qual, se o dono depois tomou o quinto feixe também, isso (o quarto) é considerado esquecimento; e há sábios que ensinaram outra versão: se ele demorou o suficiente para poder tomar o quinto, isso é considerado esquecimento. Disse Rabi Bun bar Chiya: aquele que diz "se tomou o quinto" fala do caso em que há ali um sexto feixe (pois enquanto houver um sexto, o quarto só vira esquecimento quando o quinto, que o salvaria, for de fato removido); aquele que diz "se demorou o suficiente para tomar o quinto" fala do caso em que não há ali um sexto (pois sem um sexto feixe formando fileira, basta que o quinto já pudesse ter sido concluído e removido). Ora, antes de ele tomar o quinto, não era já visível que o quarto seria julgado como parte de uma fileira (ainda incompleta, e portanto ainda "apto a ser salvo")? E mesmo assim, no primeiro caso, ele acaba virando esquecimento somente depois. Isso ensina que algo que é apto a ser salvo, mas foi esquecido, de fato pode vir a ser esquecimento legalmente, mesmo tendo havido, num certo momento, a possibilidade de salvá-lo.

04A seá cortada e a não cortada: Rabi Yoná explica o caso de quem colhe fileira por fileira
Yerushalmi · Peá 5:2 (Vilna 26a)
דָּבָר שֶׁהוּא רָאוּי לְהַצִּיל וּשְׁכָחוֹ מַהוּ שֶׁיֵּעָשֶׂה שִׁכְחָה. נִישְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא סְאָה תְבוּאָה עֲקוּרָה וּסְאָה שֶׁאֵינָה עֲקוּרָה וְתַצִּיל עֲקוּרָה אֶת שֶׁאֵינָה עֲקוּרָה. הָדָא אָמְרָה דָּבָר שֶׁהוּא רָאוּי לְהַצִּיל וְשָׁכַח הֲרֵי הוּא שִׁכְחָה. אָמַר רִבִּי יוֹנָה תִּיפְתָּר בְּקוֹצֵר שׁוּרָה וּמְעַמֵּר שׁוּרָה וּכְבָר שָׁכַח אֶת הַקָּמָה עַד שֶׁלֹּא יִשְׁכַּח אֶת הָעוֹמָרִים.

De novo se pergunta: algo que é apto a ser salvo, mas foi esquecido — o que é a lei quanto a saber se ele se torna esquecimento? Ouçamos a resposta disto: a Mishná fala de uma seá (medida) de grão colhido e uma seá de grão não colhido (que, juntas, ultrapassariam duas seá e por isso deixariam de ser consideradas esquecimento, segundo a regra de que um volume de duas seá não pode ser esquecimento) — e por essa lógica o grão já colhido deveria salvar o que não foi colhido (pois juntos formam mais de duas seá). Isso ensina que algo que é apto a salvar (o grão colhido, apto a se somar ao não colhido e assim salvá-lo), mas o dono já havia esquecido o não colhido antes de reunir os dois, ainda assim vira esquecimento (ou seja, mesmo que em teoria os dois volumes juntos ultrapassassem o limite de isenção, isso não impede que o esquecimento já consumado permaneça válido). Disse Rabi Yoná: explica-se isso tratando-se de alguém que colhe uma fileira e amarra em feixes essa mesma fileira antes de passar à seguinte, e ele já havia esquecido a seara ainda em pé antes de chegar a esquecer os feixes (isto é, o esquecimento da seara em pé e o dos feixes já colhidos ocorrem em momentos distintos e sem relação de contiguidade real entre os dois volumes de uma seá, de modo que este caso não prova nada sobre a questão original).

05O procedimento das duas espigas para separar o dízimo sem tocar o lekét
Yerushalmi · Peá 5:2
כֵּיצַד הוּא עוֹשֶׂה. מֵבִיא שְׁתֵּי שִׁבּוֹלִים וְאוֹמֵר אִם לֶקֶט הוּא הֲרֵי זֶה יָפֶה וְאִם לָאו הֲרֵי מַעְשְׂרוֹתֶיהָ קְבוּעִין בְּזוּ וְנוֹתֵן לוֹ אֶת הָרִאשׁוֹנָה וְחָשׁ לוֹמַר שֶׁמָּא אוֹתָהּ שֶׁקָּבַע בָּהּ מַעְשְׂרוֹת לֶקֶט הוּא. אָמַר רִבִּי יוֹנָה מֵבִיא שְׁתֵּי שִׁבּוֹלִים וְאוֹמֵר אִם לֶקֶט הוּא זֶה הֲרֵי יָפֶה וְאִם לָאו הֲרֵי מַעְשֲׂרוֹתֶיהָ קְבוּעִין בְּזוּ וְנוֹתֵן לוֹ אֶת אַחַת מֵהֶן.

Voltando ao segundo caso da Mishná — como ele (o dono) procede para separar o dízimo sem correr o risco de dizimar o próprio lekét, que é isento? Ele traz duas espigas do monte e diz: se esta (a primeira) é a própria espiga de lekét, então já está tudo bem (pois não há necessidade de dizimá-la); e se não é o lekét, então os dízimos dela (da primeira) estão fixados nesta outra (a segunda espiga, que passa a servir de dízimo para a primeira); e então ele dá a ele (ao pobre) a primeira espiga. Mas não devemos nos preocupar, e dizer: talvez aquela em que ele fixou os dízimos (a segunda espiga) seja o próprio lekét (e não deveria ter sido usada como dízimo de coisa nenhuma)? Disse Rabi Yoná: por isso, o procedimento correto é: ele traz duas espigas e diz: se esta é o lekét, está tudo bem; e se não, os dízimos dela estão fixados nesta outra — e repete a mesma fórmula trocando a referência entre as duas, cobrindo ambas as possibilidades — e só depois ele dá a ele uma delas (sem importar qual, pois ambas já foram igualmente cobertas pela dupla declaração).

06Rabi Abahu em nome de Reish Lakish: a Mishná segue Rabi Yossé — e o debate de Rabi Aba, Rabi Yossé e Rabi Maná
Yerushalmi · Peá 5:2 (Vilna 26b)
רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ דְּרִבִּי יוֹסֵי הִיא דְּתַנֵּינָן תַּמָּן שֶׁרִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר כָּל שֶׁחִילוּפָיו בְּיַד כֹהֵן פָּטוּר מִן הַמַּתָּנוֹת. וְרִבִּי מֵאִיר מְחַיֵיב. אָמַר רִבִּי בָּא דִּבְרֵי רִבִּי יוֹסֵי צָרִיךְ לְזַכּוֹתוֹ לְכֹהֵן. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי הָדָא דְּרִבִּי בָּא פְּלִיגָא עַל דְּרֵישׁ לָקִישׁ דְּתַנֵּינָן תַּמָּן אֶלָּא מְזַכֶּה אֶת הֶעָנִי בְגָדִישׁ וּמְעַשֵּׂר שִׁיבּוֹלֶת אַחַת וְנוֹתֵן לוֹ. אָמַר רִבִּי בָּא דִּבְרֵי רִבִּי יוֹסֵי צָרִיךְ לְזַכּוֹתוֹ לְכֹהֵן הוֹי לֵית הִיא דְּרִבִּי יוֹסֵי. אָמַר רִבִּי מָנָא כָּל גַּרְמָהּ אָמַר דְּהִיא דְּרִבִּי יוֹסֵי. תְּנָיָיא קוֹמָיָיא סָבְרֵי מֵימַר אֵינוֹ מְזַכֶּה אֶת הֶעָנִי בְּכָל הַגָּדִישׁ אֶלָּא שִׁבּוֹלֶת אַחַת. הַתְּנָיָיא אֲחָרָיָיא סָבְרֵי מֵימַר מְזַכֶּה אֶת הֶעָנִי בְּכָל הַגָּדִישׁ. וְהַתְּנָיָיא קַדְמִיָיא סְבַר מֵימַר בְּזַכֵּה מִימִינוֹ לִשְׂמֹאלוֹ וְאֵינָה זְכִיָיה. וְהַתְּנָיָא אֲחָָרָיָיא סְבַר מֵימַר אֵינוּ מְזַכֵּה מִימִינוֹ לִשְׂמֹאלוֹ וּזְכִיָיה הִיא.

Voltando ao terceiro caso da Mishná, a objeção de Rabi Eliezer — Rabi Abahu em nome de Rabi Shimon ben Lakish: o primeiro tanna, que permite trocar a espiga de lekét diretamente, segue Rabi Yossé, pois assim aprendemos ali (noutro tratado): que Rabi Yossé diz: tudo cuja troca (substituto) está na mão de um cohen (sacerdote) fica isento dos dons obrigatórios ao cohen; mas Rabi Meir o obriga (a dar os dons mesmo assim). Disse Rabi Aba: as palavras de Rabi Yossé implicam que ainda é necessário empoderar o cohen (transferir-lhe efetivamente a posse do substituto, não bastando apenas designá-lo). Disse Rabi Yossé (o amora posterior): essa afirmação de Rabi Aba contradiz Reish Lakish, pois aprendemos aqui (na nossa Mishná): ele transfere ao pobre a posse de todo o monte, e então separa o dízimo de uma espiga e a entrega a ele (ou seja, aqui basta a transferência de posse do monte, sem entrega física da espiga do dízimo ao cohen, o que contradiz a exigência de "empoderar" de Rabi Aba). Disse Rabi Aba: mas então, se as palavras de Rabi Yossé exigem empoderar o cohen, segue-se que isto (a opinião da nossa Mishná) não é a de Rabi Yossé afinal. Disse Rabi Maná: a própria Mishná por si só afirma que é a opinião de Rabi Yossé (pois todos concordam que é preciso uma transferência formal de posse; a única diferença é sobre o quê): os primeiros tannaim (o primeiro tanna da Mishná) pensam dizer que ele não transfere ao pobre a posse de todo o monte, mas apenas de uma espiga; os últimos tannaim (Rabi Eliezer) pensam dizer que ele transfere ao pobre a posse de todo o monte. E os primeiros tannaim pensam dizer que a transferência simbólica de todo o monte seria como transferir algo de sua mão direita para a esquerda (um mero artifício sem validade legal, pois no fim tudo volta ao dono), e isso não é verdadeira transferência de posse; e os últimos tannaim pensam dizer que isso não é como transferir de sua mão direita para a esquerda, e é verdadeira transferência de posse.

07Rabi Zeirá: a aparente inversão da posição de Rabi Eliezer, e a resposta "segundo o teu raciocínio"
Yerushalmi · Peá 5:2
וְהָתַנִּי רִבִּי זְעִירָא רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן מֻחְלְפָא שִׁיטָּתֵיהּ דְּרִבִִּי לִיעֶזֶר תַּמָּן הוּא זָכָה לוֹ. וְכֹא הוּא אָמַר הָכִין. בְּשִיטָּתָךְ הֵשִׁיבֵהוּ בְּשִׁיטָּתוֹ דְּאַתְּ אָמַר עַל יְדֵי הַחִילוּפִין. הֵיאַךְ הֶעָנִי הַזֶּה מַחֲלִיף דָּבָר שֶׁלֹּא בָּא לִרְשׁוּתוֹ אֶלָּא מְזַכֶּה אֶת הֶעָנִי בְכָל הַגְּדִישׁ וּמְעַשֵּׂר שִׁיבּוֹלֶת וְנוֹתֵן לוֹ.

E Rabi Zeirá ensinou o seguinte: Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: o raciocínio de Rabi Eliezer está invertido (parece contradizer o que ele próprio ensina noutro lugar)! Ali (em Peá 4:6, sobre quem recolhe pe'á para um pobre ausente), ele (Rabi Eliezer) faz com que este (o pobre ausente) adquira a posse diretamente, sem que o recolhedor a possua primeiro; e aqui ele fala assim (exigindo a transferência formal de todo o monte antes da troca)? Ele (Rabi Eliezer, ou quem lhe responde em seu nome) respondeu: "segundo o teu raciocínio é que exijo isso" — ou seja, segundo o teu próprio raciocínio, tu (os sábios, que discordam de Rabi Eliezer em 4:6) dizes que a posse do pobre ali se dá por meio de permuta (o recolhedor adquire e depois transfere por troca ao pobre ausente; logo, para vós, que negais a posse direta, também aqui a permuta do lekét exige que o pobre já tenha algo em mãos para trocar; por isso eu, Rabi Eliezer, apontei o problema): como pode este pobre trocar algo que nunca veio à sua posse? Mas, em vez disso, o dono transfere ao pobre a posse de todo o monte, e então separa o dízimo de uma espiga e a entrega a ele (essa é a única solução compatível com o vosso próprio raciocínio; para mim, que sustento a posse direta em 4:6, o problema nem se colocaria).

Nota

Esta segunda halachá do Perek Hei traz uma nova Mishná, dividida em três casos independentes. O primeiro retoma, num plano individual, o princípio de que uma espiga isolada só é considerada esquecida (e passa aos pobres) quando não pode ser colhida junto com a seara ainda em pé num só golpe de foice — critério que a guemará generaliza, com Rabi Yochanan e Rabi Yossé, para trechos inteiros de seara, e testa com o relato das azeitonas de Rabi Hoshaya e a discussão sobre feixes numa fileira e sobre a seá cortada e não cortada, buscando definir com precisão quando algo "apto a ser salvo" ainda assim se torna juridicamente esquecimento.

O segundo caso trata da espiga de lekét perdida dentro de um monte já colhido: como o lekét pertence aos pobres e é isento de dízimos, mas não pode permanecer indefinidamente misturado ao monte tributável, o dono deve separar outra espiga como substituto e entregá-la ao pobre — procedimento que Rabi Yoná refina com a fórmula das duas espigas, cobrindo a possibilidade de que qualquer uma das duas seja o próprio lekét. O terceiro caso registra a objeção de Rabi Eliezer: como o pobre nunca teve posse do lekét perdido, ele não pode trocá-lo; a solução proposta é transferir-lhe formalmente a posse de todo o monte antes de separar o dízimo de uma única espiga. A guemará fecha identificando essa disputa com o debate entre Rabi Yossé e Rabi Meir sobre dons sacerdotais substituídos, refinado por Rabi Aba, Rabi Yossé e Rabi Maná, e resolve a aparente contradição na posição de Rabi Eliezer frente a Peá 4:6 com a resposta de Rabi Zeirá: a exigência de transferência formal do monte inteiro vale apenas segundo o raciocínio dos sábios que negam a posse direta do pobre ausente, não segundo o próprio raciocínio de Rabi Eliezer.