Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Hei · Halachá 3
פֵּאָה

A roda d'água antes de o pobre entrar no campo

Perek Hei, Halachá 3 — terceira halachá do quinto perek de Massechet Peá no Talmud Yerushalmi

Esta terceira halachá do Perek Hei abre com uma nova Mishná: não se irriga com roda d'água (antes de o pobre ter entrado no campo ou na vinha para recolher seus dons), segundo Rabi Meir, mas os sábios permitem, porque não há outro modo de evitar o dano à plantação. A guemará traz uma baraita sobre quem rega seu campo antes de o pobre entrar, distinguindo se o prejuízo é maior para o dono ou para o pobre, com Rabi Yehudá propondo depositar sempre na cerca; aponta a aparente inversão da posição de Rabi Yehudá frente à Mishná sobre a poda da vinha; aponta a aparente inversão da posição dos sábios quanto ao critério do que é possível ou impossível evitar; e fecha com o debate entre Rabi Meir e os sábios sobre a quem se paga a estimativa do prejuízo, com as respostas de Rabi Yoná e Rabi Chiyá bar Ada.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

אֵין מְגַלְגְּלִין בְּטוֹפֵיחַ דִּבְרֵי רִבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים מַתִּירִין מִפְּנֵי שֶׁאֵיפְשָׁר.

Mishná: Não se irriga o campo ou a vinha com a roda d'água de baldes, depois da colheita, antes de o pobre ter entrado ali para recolher os seus dons, por causa do dano que a água causaria a esses dons — as palavras de Rabi Meir. Mas os sábios permitem, porque é impossível fazer de outro modo, pois a plantação secaria e se perderia por completo se não fosse irrigada a tempo.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01A baraita: o prejuízo maior decide, e a proposta de Rabi Yehudá de depositar na cerca
Yerushalmi · Peá 5:3
תַּנִּי הַמְּרַבֵּץ שָׂדֵהוּ עַד שֶׁלֹּא יָרַד עָנִי לְתוֹכָהּ אִם הֶזֵּיקוֹ מְרוּבָּה עַל שֶׁל עָנִי מוּתָּר. וְאִם הֶיזֵּק עָנִי מְרוּבָּה עַל שֶׁלּוֹ אָסוּר. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ מֵנִיחָן עַל הַגֶּדֶר וְהֶעָנִי בָּא וְנוֹטֵל אֶת שֶׁלּוֹ.

Foi ensinado numa baraita: aquele que rega o seu campo (o encharca de água) antes de o pobre ter descido a ele (para recolher lekét, lekét, pe'á e demais dons) — se o seu prejuízo (do dono, caso não regue a tempo) é maior do que o do pobre, é permitido regar mesmo assim; e se o prejuízo do pobre (o dano aos seus dons causados pela água) é maior do que o dele (do dono), é proibido. Rabi Yehudá diz: seja de um jeito seja de outro (não importa qual prejuízo seja maior), ele (o dono) deposita os dons dos pobres já separados sobre a cerca, e o pobre vem e toma o que é seu (assim ele pode regar livremente sem esperar, contanto que primeiro reserve à parte, sobre a cerca, a porção destinada aos pobres).

02A aparente inversão da posição de Rabi Yehudá, frente à Mishná da poda da vinha
Yerushalmi · Peá 5:3
מֻחְלְפָא שִׁיטָּתֵיהּ דְּרִבִּי יְהוּדָה. תַּמָּן הוּא אָמַר כְּשֵׁם שֶׁהוּא מֵידָל בְּשֶׁלּוֹ כָּךְ הוּא מֵידָל בְּשֶׁל עֲנִיִים. וְכֹא הוּא אָמַר הָכִין. תַּמָּן הֵן גָּרְמוּ לְעַצְמָן וְלֹא בָאוּ. בְּרַם הָכָא הֲרֵי בָּאוּ.

O raciocínio de Rabi Yehudá está invertido (parece contradizer o que ele próprio ensina noutro lugar)! Ali (na Mishná de Peá 7:4, sobre a poda da vinha), ele diz que, assim como ele (o dono) desbasta os brotos novos do que é seu, assim também ele desbasta o que é dos pobres (tratando igualmente a parte do dono e a dos pobres, sem reservar esta última à parte); mas aqui ele fala assim (exigindo que a porção dos pobres seja separada e depositada sobre a cerca antes de regar)? Ali (no caso da poda), eles (os pobres) causaram o prejuízo a si mesmos, pois não vieram a tempo de colher os bagos isolados que já estavam maduros para eles, e por isso perdem o direito de reclamar tratamento especial; mas aqui, eis que eles vieram (já entraram no campo, ou estão prestes a entrar, e por isso têm direito a que sua porção seja preservada à parte).

03A aparente inversão da posição dos sábios, frente à mesma Mishná
Yerushalmi · Peá 5:3
מֻחְלְפָא שִׁיטָּתִין דְּרַבָּנִין. תָּמַּן אִינּוּן אָמְרִין אִם הֶזֵּיקוֹ מְרוּבָּה עַל שֶׁל עָנִי. וְכֹא אִינּוּן אָמְרִין הָכֵין. תַּמָּן אֶפְשַּׁר בְּרַם הָכָא אֵיפְשַׁר.

O raciocínio dos sábios (que discordam de Rabi Yehudá) está invertido! Ali (na Mishná da poda da vinha, 7:5, onde os sábios, representados por Rabi Meir, restringem o dono a podar apenas o que é seu), eles dizem o critério de se o seu prejuízo é maior do que o do pobre (ou seja, ali eles aplicam o critério da comparação de prejuízos); mas aqui (na nossa Mishná, sobre a roda d'água) eles falam assim (aplicando em vez disso o critério do que é possível ou impossível fazer de outro modo, permitindo regar mesmo quando o prejuízo do pobre é maior)? A resposta é que ali (no caso da poda) é possível evitar o dano, esperando o pobre podar sua parte antes ou depois; mas aqui (no caso da irrigação) é impossível esperar, pois a plantação inteira secaria e se perderia.

04O debate final: a quem se paga a estimativa do prejuízo, segundo Rabi Yoná e Rabi Chiyá bar Ada
Yerushalmi · Peá 5:3 (Vilna 27a)
וְהָא רִבִּי מֵאִיר אָמַר אֵין מְגַלְגְּלִין וְשָׁמִין שֶׁל בַּעַל הַבַּיִת בְּהֶפְסֵידוֹ. וְהָא רַבָּנִין אָמְרִין מְגַלְגְּלִין וְשָׁמִין לָעֲנִיִים בְּהֶפְסֵידָן. וּלְמִי הוּא מְשַׁלֵּם. אָמַר רִבִּי יוֹנָה לָעֲנִיֵי אוֹתָהּ הָעִיר דְּלָא כֵן מַה נָן אָמְרִין. אָמַר רִבִּי חִיָיא בַּר אָדָא לְמִידַּת הַדִּין נִצְרְכָה.

Ora, Rabi Meir diz: não se irriga com a roda d'água, e se estima o prejuízo que resultaria disso ao dono da casa (e ele deve compensar os pobres por não ter irrigado, caso o prejuízo deles fosse menor). E ora, os sábios dizem: irriga-se com a roda d'água, e se estima o prejuízo causado aos pobres pela água (e o dono deve compensá-los pelo dano causado a seus dons). E a quem ele paga essa compensação, já que os pobres que sofreriam o dano ainda não estão identificados individualmente? Disse Rabi Yoná: aos pobres daquela cidade (o pagamento é feito à coletividade dos pobres do lugar, representados por seu encarregado), pois, se não fosse assim, o que mais poderíamos dizer (não haveria outra forma coerente de resolver a quem pagar)? Disse Rabi Chiyá bar Ada: essa precisão é necessária para a medida exata do direito e do julgamento (pois, sem especificar que o pagamento vai aos pobres da própria cidade, representados por seu encarregado, poder-se-ia pensar que qualquer pobre, de qualquer lugar, teria direito a reclamar, ou que ninguém teria, por falta de reclamante individual definido).

Nota

Esta terceira halachá do Perek Hei traz uma nova Mishná. A questão da roda d'água opõe Rabi Meir, para quem não se pode irrigar antes de o pobre ter entrado no campo para recolher seus dons, e os sábios, que permitem por não haver alternativa prática — pois a plantação se perderia por completo sem a irrigação a tempo. A guemará traz uma baraita paralela que resolve o mesmo dilema pela comparação direta entre o prejuízo do dono e o do pobre, com Rabi Yehudá propondo a solução intermediária de sempre depositar a porção dos pobres sobre a cerca antes de regar. Duas objeções de "raciocínio invertido" comparam essa baraita com a Mishná de Peá 7:4, sobre a poda da vinha: a posição de Rabi Yehudá parece inverter-se porque, no caso da poda, os pobres perderam o direito ao tratamento especial por não terem vindo a tempo, ao passo que aqui já vieram; e a posição dos sábios parece inverter-se porque, no caso da poda, era possível esperar o pobre agir primeiro, ao passo que na irrigação isso é impossível. A guemará fecha voltando à própria Mishná, com o debate entre Rabi Meir e os sábios sobre a quem se deve pagar a estimativa do prejuízo quando não há um pobre identificado — resolvido por Rabi Yoná e Rabi Chiyá bar Ada como sendo aos pobres da própria cidade, representados por seu encarregado.