Esta terceira halachá do Perek Hei abre com uma nova Mishná: não se irriga com roda d'água (antes de o pobre ter entrado no campo ou na vinha para recolher seus dons), segundo Rabi Meir, mas os sábios permitem, porque não há outro modo de evitar o dano à plantação. A guemará traz uma baraita sobre quem rega seu campo antes de o pobre entrar, distinguindo se o prejuízo é maior para o dono ou para o pobre, com Rabi Yehudá propondo depositar sempre na cerca; aponta a aparente inversão da posição de Rabi Yehudá frente à Mishná sobre a poda da vinha; aponta a aparente inversão da posição dos sábios quanto ao critério do que é possível ou impossível evitar; e fecha com o debate entre Rabi Meir e os sábios sobre a quem se paga a estimativa do prejuízo, com as respostas de Rabi Yoná e Rabi Chiyá bar Ada.
Mishná: Não se irriga o campo ou a vinha com a roda d'água de baldes, depois da colheita, antes de o pobre ter entrado ali para recolher os seus dons, por causa do dano que a água causaria a esses dons — as palavras de Rabi Meir. Mas os sábios permitem, porque é impossível fazer de outro modo, pois a plantação secaria e se perderia por completo se não fosse irrigada a tempo.
Foi ensinado numa baraita: aquele que rega o seu campo (o encharca de água) antes de o pobre ter descido a ele (para recolher lekét, lekét, pe'á e demais dons) — se o seu prejuízo (do dono, caso não regue a tempo) é maior do que o do pobre, é permitido regar mesmo assim; e se o prejuízo do pobre (o dano aos seus dons causados pela água) é maior do que o dele (do dono), é proibido. Rabi Yehudá diz: seja de um jeito seja de outro (não importa qual prejuízo seja maior), ele (o dono) deposita os dons dos pobres já separados sobre a cerca, e o pobre vem e toma o que é seu (assim ele pode regar livremente sem esperar, contanto que primeiro reserve à parte, sobre a cerca, a porção destinada aos pobres).
O raciocínio de Rabi Yehudá está invertido (parece contradizer o que ele próprio ensina noutro lugar)! Ali (na Mishná de Peá 7:4, sobre a poda da vinha), ele diz que, assim como ele (o dono) desbasta os brotos novos do que é seu, assim também ele desbasta o que é dos pobres (tratando igualmente a parte do dono e a dos pobres, sem reservar esta última à parte); mas aqui ele fala assim (exigindo que a porção dos pobres seja separada e depositada sobre a cerca antes de regar)? Ali (no caso da poda), eles (os pobres) causaram o prejuízo a si mesmos, pois não vieram a tempo de colher os bagos isolados que já estavam maduros para eles, e por isso perdem o direito de reclamar tratamento especial; mas aqui, eis que eles vieram (já entraram no campo, ou estão prestes a entrar, e por isso têm direito a que sua porção seja preservada à parte).
O raciocínio dos sábios (que discordam de Rabi Yehudá) está invertido! Ali (na Mishná da poda da vinha, 7:5, onde os sábios, representados por Rabi Meir, restringem o dono a podar apenas o que é seu), eles dizem o critério de se o seu prejuízo é maior do que o do pobre (ou seja, ali eles aplicam o critério da comparação de prejuízos); mas aqui (na nossa Mishná, sobre a roda d'água) eles falam assim (aplicando em vez disso o critério do que é possível ou impossível fazer de outro modo, permitindo regar mesmo quando o prejuízo do pobre é maior)? A resposta é que ali (no caso da poda) é possível evitar o dano, esperando o pobre podar sua parte antes ou depois; mas aqui (no caso da irrigação) é impossível esperar, pois a plantação inteira secaria e se perderia.
Ora, Rabi Meir diz: não se irriga com a roda d'água, e se estima o prejuízo que resultaria disso ao dono da casa (e ele deve compensar os pobres por não ter irrigado, caso o prejuízo deles fosse menor). E ora, os sábios dizem: irriga-se com a roda d'água, e se estima o prejuízo causado aos pobres pela água (e o dono deve compensá-los pelo dano causado a seus dons). E a quem ele paga essa compensação, já que os pobres que sofreriam o dano ainda não estão identificados individualmente? Disse Rabi Yoná: aos pobres daquela cidade (o pagamento é feito à coletividade dos pobres do lugar, representados por seu encarregado), pois, se não fosse assim, o que mais poderíamos dizer (não haveria outra forma coerente de resolver a quem pagar)? Disse Rabi Chiyá bar Ada: essa precisão é necessária para a medida exata do direito e do julgamento (pois, sem especificar que o pagamento vai aos pobres da própria cidade, representados por seu encarregado, poder-se-ia pensar que qualquer pobre, de qualquer lugar, teria direito a reclamar, ou que ninguém teria, por falta de reclamante individual definido).
Esta terceira halachá do Perek Hei traz uma nova Mishná. A questão da roda d'água opõe Rabi Meir, para quem não se pode irrigar antes de o pobre ter entrado no campo para recolher seus dons, e os sábios, que permitem por não haver alternativa prática — pois a plantação se perderia por completo sem a irrigação a tempo. A guemará traz uma baraita paralela que resolve o mesmo dilema pela comparação direta entre o prejuízo do dono e o do pobre, com Rabi Yehudá propondo a solução intermediária de sempre depositar a porção dos pobres sobre a cerca antes de regar. Duas objeções de "raciocínio invertido" comparam essa baraita com a Mishná de Peá 7:4, sobre a poda da vinha: a posição de Rabi Yehudá parece inverter-se porque, no caso da poda, os pobres perderam o direito ao tratamento especial por não terem vindo a tempo, ao passo que aqui já vieram; e a posição dos sábios parece inverter-se porque, no caso da poda, era possível esperar o pobre agir primeiro, ao passo que na irrigação isso é impossível. A guemará fecha voltando à própria Mishná, com o debate entre Rabi Meir e os sábios sobre a quem se deve pagar a estimativa do prejuízo quando não há um pobre identificado — resolvido por Rabi Yoná e Rabi Chiyá bar Ada como sendo aos pobres da própria cidade, representados por seu encarregado.