Esta primeira halachá do Perek Vav abre com uma nova Mishná em dois casos: Bet Shamai diz que o hefker (bem abandonado) declarado apenas para os pobres já é hefker válido, ao passo que Bet Hilel exige que seja declarado também para os ricos, como na shemitá; e todos os feixes de um campo, de um kav cada, com um único feixe de quatro kabin esquecido entre eles — Bet Shamai diz que não é esquecimento e Bet Hilel diz que é esquecimento. A guemará deriva o fundamento de cada escola a partir de dois versículos distintos do esquecimento — "abandonarás" e "largarás" —, com Rabi Chiyá em nome de Rabi Yochanan e Reish Lakish, pergunta como cada escola sustentaria a posição da outra, discute os diferentes graus de hefker (para animal ou pessoa, gentio ou israelita, rico ou pobre) e se esse hefker é de fato válido, segundo Rabi Yochanan e Reish Lakish, traz o ensinamento de Rabi Avin bar Chiyá sobre ricos que adquirem o que foi declarado hefker para pobres, e fecha com uma longa discussão sobre o prazo do hefker e se o dono pode revogá-lo, incluindo a pergunta final de Rabi Zeirá sobre a medida exata do feixe de quatro kabin, resolvida por Rabi Yoná.
Mishná: Bet Shamai diz: o hefker (bem que o dono declara abandonado, deixando-o disponível para quem quiser tomar) declarado apenas para os pobres já é hefker válido (isentando, por exemplo, o que dali colherem os pobres da obrigação de dízimos, como qualquer outro hefker). Mas Bet Hilel diz: não é hefker válido, a menos que ele declare hefker também para os ricos, como se faz na shemitá (o ano sabático, em que os frutos ficam abandonados a todos, ricos e pobres igualmente, sem distinção).
Todos os feixes de um campo, cada um de um kav (medida pequena e uniforme), e um único feixe de quatro kabin (uma medida bem maior que os demais), e esqueceram-no (esse feixe maior, deixando-o para trás no campo, junto aos demais feixes pequenos, sem levá-lo à eira) — Bet Shamai diz: não é esquecimento (isto é, esse feixe maior não se sujeita à lei do feixe esquecido, por destoar em tamanho de todos os demais feixes do campo, não sendo comparável a eles); e Bet Hilel diz: é esquecimento (sujeitando-se, sim, à lei, e devendo ser deixado para os pobres).
Rabi Chiyá em nome de Rabi Yochanan: o fundamento de Bet Shamai vem do versículo: "para o pobre e para o estrangeiro os abandonarás (תַּעֲזֹב אֹתָם)" (Levítico 19:10, referindo-se à pe'á e ao lekét). Que necessidade havia de ensinar essa expressão: "os abandonarás"? Ela serve para ensinar que tens aqui outro tipo de abandono equiparável a este: assim como este é para os pobres e não para os ricos (pois a pe'á e o lekét, o abandono de que fala este versículo, destinam-se somente aos pobres), também o que foi dito noutro lugar (o hefker geral) vale para os pobres e não precisa valer também para os ricos (bastando que o dono o declare abandonado apenas para os pobres, para que já seja hefker válido, por analogia com este abandono da pe'á e do lekét).
Disse Rabi Shimon ben Lakish: o fundamento de Bet Hilel vem do versículo: "no sétimo ano a largarás (תִּשְׁמְטֶנָּה)" (Êxodo 23:11, sobre o ano sabático). E que necessidade havia de ensinar também: "e a deixarás (וּנְטַשְׁתָּהּ)" (mesmo versículo, aparentemente redundante)? Ela serve para ensinar que tens aqui outro tipo de abandono equiparável a este: assim como este (o abandono da shemitá) vale tanto para os pobres quanto para os ricos, também o que foi dito noutro lugar (o hefker geral) só é válido se declarado tanto para os pobres quanto para os ricos (exigindo, portanto, que o dono declare hefker também para os ricos, e não apenas para os pobres).
Como Bet Hilel sustentaria o fundamento de Bet Shamai (isto é, como explicaria o mesmo versículo de outro modo, para chegar à sua própria conclusão)? "Os abandonarás" é uma restrição que ensina que este abandono é para os pobres e não para os ricos; mas o que foi dito noutro lugar (a shemitá) vale tanto para os pobres quanto para os ricos (e o hefker geral segue, para Bet Hilel, o modelo da shemitá, e não o da pe'á). Como Bet Shamai sustentaria o fundamento de Bet Hilel? "A largarás" e "a deixarás" são, juntas, uma única expressão de deixar, e essa restrição ensina que este abandono, o da shemitá, vale tanto para os pobres quanto para os ricos; mas o que foi dito noutro lugar (o hefker geral) vale apenas para os pobres, mas não precisa valer também para os ricos (pois o hefker geral segue, para Bet Shamai, o modelo da pe'á, e não o da shemitá). Disse Rabi Avin: a redação de uma baraita apoia Rabi Shimon ben Lakish: "não é hefker válido, a menos que ele declare hefker também para os ricos, como se faz na shemitá" (confirmando que o fundamento de Bet Hilel é, de fato, o modelo da shemitá, tal como Reish Lakish havia explicado).
Se alguém declarou hefker para animais, mas não para pessoas; para gentios, mas não para o povo de Israel; para os ricos, mas não para os pobres — nesses três casos, são palavras de todos (consenso geral) que o seu hefker não é hefker válido (pois excluir justamente os pobres, ou o povo de Israel, ou as pessoas em geral, contraria o próprio sentido de um abandono verdadeiro). Mas se declarou hefker para pessoas, mas não para animais; para o povo de Israel, mas não para gentios; para os pobres daquela cidade, mas não para os pobres de outra cidade — aqui há a disputa de Rabi Yochanan e de Rabi Shimon ben Lakish. Na opinião de Rabi Yochanan, o seu hefker é hefker válido (pois essas exclusões, ao contrário das três primeiras, não retiram do abandono o seu caráter essencial); na opinião de Rabi Shimon ben Lakish, o seu hefker não é hefker válido. Disse Rabi (Rabi Lá): não é que eles disputem explicitamente (isto é, não há uma declaração direta e expressa de cada um sobre este ponto exato); mas depreende-se que Rabi Yochanan diria: o seu hefker é hefker válido; Rabi Shimon ben Lakish diria: o seu hefker não é hefker válido (a disputa é inferida de suas posições noutros contextos, e não afirmada por eles mesmos neste caso preciso).
Disse Rabi Avin bar Chiyá: isso que se disse (a questão de saber se é válido) — o caso de alguém que declarou hefker para os pobres, e vieram ricos e o adquiriram primeiro — depende da disputa de Rabi Meir e Rabi Yossei (sobre um tema análogo, transposta para este caso). Na opinião de Rabi Meir, que diz: assim que uma pessoa declara hefker algo que estava em sua posse, o seu hefker já é hefker válido (a declaração, por si só, já retira o bem da posse do dono, de modo que, se um rico o toma antes de um pobre, o rico o adquire legitimamente, já que o bem havia deixado de pertencer a alguém). Na opinião de Rabi Yossei, que diz: o hefker não sai de sob a mão dos donos senão por meio de uma aquisição (zechiyá — ou seja, o bem só efetivamente deixa de pertencer ao dono quando outra pessoa o adquire, e não apenas pela declaração), o seu hefker não é hefker válido enquanto ninguém legítimo o adquiriu (de modo que, se um rico toma o que foi declarado hefker somente para os pobres, essa aquisição pelo rico não é válida, pois o bem, tecnicamente, ainda pertencia ao dono original até ser tomado por quem tinha direito).
Até agora falamos apenas do caso em que declarou o seu campo hefker por tempo prolongado (sem prazo definido, valendo indefinidamente). Mas e se declarou hefker o seu campo por tempo curto (um prazo determinado e breve)? Ouçamos isso a partir do seguinte caso: se declarou o seu campo hefker por dois ou três dias, ele pode revogá-lo (dentro desse mesmo prazo, antes que alguém o tenha adquirido). Ensinou Rabi Shimon de Dima diante de Rabi Zeirá: mesmo depois de três dias (isto é, mesmo já vencido o prazo declarado), ele pode revogá-lo. Disse-lhe (Rabi Zeirá): uma vez que dizes "mesmo depois de três dias", então é o mesmo se for depois de três dias ou depois de quantos dias mais forem — sem limite algum (e essa consequência parece absurda: se o prazo declarado já não limita a revogação, o próprio prazo se torna sem sentido). A redação de uma baraita apoia Rabi Zeirá: a questão anterior — quando o dono pode revogar — refere-se ao caso em que ele declarou hefker de modo genérico (sem prazo); mas se disse "o meu campo está abandonado por um dia, por uma semana, por um mês, por um ano, por um período de sete anos" (ou seja, declarou um prazo definido): se a revogação ocorre antes que alguém — seja ele mesmo, seja outro — o tenha adquirido, ele pode revogá-lo; mas depois que alguém o adquiriu — seja ele mesmo, seja outro —, ele não pode mais revogá-lo (pois, uma vez adquirido por outrem, mesmo dentro do prazo, o bem já não é mais dele, e ele mesmo, se o adquire de volta, adquire-o como qualquer outra pessoa, e não por direito de dono original). Isso ensina que tanto faz ser tempo prolongado quanto tempo curto (a regra da revogação, antes da aquisição por outrem, é a mesma em ambos os casos, confirmando Rabi Zeirá contra Rabi Shimon de Dima). Isso ensina também que os sábios não se preocuparam com a astúcia (isto é, não temeram que o dono use o hefker por prazo curto apenas como um artifício, por exemplo para se isentar de dízimos e depois retomar o bem). Isso ensina que uma pessoa pode declarar hefker e depois voltar a adquirir o próprio bem de volta, tal como qualquer outra pessoa poderia fazê-lo. Isso resolve, então, de modo evidente a pergunta de Rabi Zeirá, pois Rabi Zeirá já havia dito que tanto faz ser tempo prolongado quanto tempo curto.
Voltando à questão da Mishná sobre o feixe de quatro kabin — em que situação exata estamos tratando (isto é, qual é a base para se dizer que os demais feixes eram de um kav e este, de quatro kabin, e não outra proporção qualquer)? Se a razão for por causa de se tratar de algo destacado (um único item que se distingue por si mesmo), bastariam dois feixes de um kav para servir de comparação; se a razão for por causa de formar uma fileira (que exige um número mínimo de itens alinhados), bastariam três. Um dos discípulos da academia disse: isto que Rabi Yochanan ensinou diante de Rabi Shimon ben Lakish: tudo o que se pode dividir e transformar em fileira (isto é, qualquer proporção de feixes pequenos capaz de compor uma fileira contínua, mesmo sem número mínimo fixo, já basta para a regra) segue a opinião de Bet Shamai (que não considera o feixe grande como sujeito ao esquecimento, por destoar do conjunto). Rabi Yoná, porém, exige uma medida precisa e determinada, e não uma proporção qualquer, explicando assim a Mishná: "todos os feixes do campo, cada um de um kav, e um único feixe de quatro kabin, e esqueceram-no" — isto é, a mesma regra vale, na exata proporção do dobro, para todos os feixes do campo, cada um de dois kabin, e um único feixe de oito kabin (a proporção fixa de um para quatro é que define, segundo Rabi Yoná, o limite exato da regra, e não apenas a possibilidade genérica de formar uma fileira).
Esta primeira halachá do Perek Vav abre um novo eixo temático dentro de Massechet Peá, voltando ao tema do hefker (bem abandonado) já tocado en passant no Perek Hei: a Mishná traz duas disputas paralelas entre Bet Shamai e Bet Hilel. Na primeira, Bet Shamai considera válido o hefker declarado apenas para os pobres, ao passo que Bet Hilel exige que também os ricos sejam incluídos na declaração, como ocorre na shemitá. Na segunda, referente aos feixes esquecidos no campo, Bet Shamai isenta da lei do esquecimento o único feixe grande de quatro kabin destoante entre feixes menores de um kav, ao passo que Bet Hilel o considera sujeito à mesma lei.
A guemará deriva o fundamento de cada escola de um versículo diferente sobre o esquecimento — Rabi Chiyá em nome de Rabi Yochanan extrai o de Bet Shamai de "abandonarás" (Levítico 19:10), restrito aos pobres; Reish Lakish extrai o de Bet Hilel de "largarás" e "deixarás" (Êxodo 23:11), abrangendo pobres e ricos —, e examina como cada escola poderia sustentar o fundamento da outra, com o apoio de Rabi Avin a Reish Lakish a partir da redação exata de uma baraita. Discute em seguida os diferentes graus de hefker (para animal ou pessoa, gentio ou israelita, cidade própria ou outra), com a disputa entre Rabi Yochanan e Reish Lakish sobre sua validade, esclarecida por Rabi Lá como inferida e não explícita; traz o ensinamento de Rabi Avin bar Chiyá ligando o caso de ricos que adquirem hefker declarado para pobres à disputa entre Rabi Meir e Rabi Yossei sobre o momento exato em que o hefker sai da posse do dono; e fecha com uma extensa discussão sobre o prazo do hefker e a possibilidade de revogá-lo, envolvendo Rabi Shimon de Dima e Rabi Zeirá, resolvida por uma baraita que equipara tempo prolongado e tempo curto, e com a pergunta final de Rabi Zeirá sobre a base exata da medida do feixe de quatro kabin, respondida por Rabi Yoná com a proporção fixa do dobro.