Esta primeira halachá do Perek Zayin abre um novo eixo temático: a lei do esquecimento agora aplicada às oliveiras (e não mais aos feixes de grãos). A Mishná ensina que toda oliveira que tem nome próprio no campo — como a "azeitona-que-goteja", em sua época — se foi esquecida, não é esquecimento; e isso vale quando se distingue por seu nome, por sua produção (quando produz muito) ou por seu lugar (quando está junto ao lagar ou à brecha do muro); já as demais oliveiras, duas esquecidas têm esquecimento, três não têm; e Rabi Yossei diz que não há esquecimento para oliveiras, ponto. A guemará abre com Rabi Lá derivando do versículo "esquecerás um feixe" a exclusão do que certamente se recorda depois; traz a pergunta de Rabi Jeremia sobre marcação apenas mental e sobre a oliveira que está à sombra de uma tamareira; discute, via Rabi Shimon bar Yakim, que a opinião de Rabi Yossei valia apenas quando as azeitonas eram raras, após a devastação de Adriano, mas hoje, sendo comuns, têm esquecimento; examina a etimologia de shofkani e netufá; compara o caso do lugar com o hefker de Bet Shamai; volta à posição de Rabi Yossei ligando-a à leitura de Rabi Akiva sobre "atrás de ti"; e fecha com a pergunta de Rabi Yoná sobre se, tendo já começado a colher a oliveira marcada, ela deixa de ser considerada como tal.
Mishná: Toda oliveira que tem nome próprio no campo (distinguindo-se das demais por uma característica notória) — mesmo uma chamada "azeitona-que-goteja" em sua época (nome dado a certas oliveiras que, ao final da estação, gotejam azeite mesmo ainda na árvore) — se foi esquecida, não é esquecimento (seu fruto não pertence aos pobres pela lei do esquecimento, pois, tendo nome próprio, o dono certamente se lembra dela). Quando se diz isso (quando essa regra se aplica)? Por seu nome, por sua produção e por seu lugar. Por seu nome: quando era chamada "shofkani" (a que verte muito) ou "beishani" (de Bet Shean, ou "a que envergonha as outras"). Por sua produção: quando produz muito. Por seu lugar: quando está ao lado do lagar ou ao lado da brecha no muro. E quanto a todas as demais oliveiras (sem nome, produção ou lugar que as distinga): duas esquecidas juntas têm esquecimento (pertencem aos pobres); três esquecidas juntas não têm esquecimento (pois, formando um conjunto maior, presume-se que o dono as tenha visto e deixado por outra razão, não por esquecimento). Rabi Yossei diz: não há esquecimento para oliveiras (nunca, em nenhum caso, segundo sua opinião isolada).
Disse Rabi Lá: está escrito (Deuteronômio 24:19): "e esquecerás um feixe no campo" — um feixe que tu esqueces para sempre (que jamais voltarás a lembrar, esse sim entra na regra do esquecimento); excluído fica este (a oliveira com nome, produção ou lugar próprios), que tu certamente recordas depois de algum tempo (pois, tendo característica marcante, o dono inevitavelmente se lembrará dela mais cedo ou mais tarde, e por isso não se aplica a ela a lei do esquecimento).
Rabi Jeremia perguntou: se a oliveira era marcada apenas na mente do dono (sem sinal externo visível a outros), é como se estivesse de fato marcada (dispensada, portanto, da lei do esquecimento)? E, no caso em que estava junto à sombra de uma tamareira, a tamareira a marca (serve de sinal distintivo que faz o dono lembrar dela)? E se eram ambas oliveiras "que gotejam" (netufá), esta marca aquela e aquela marca esta (cada uma serve de referência para lembrar da outra, dispensando ambas do esquecimento)? Mas e se todo o seu campo era de oliveiras "que gotejam" (sem nenhuma se distinguir das demais, por serem todas iguais)? Ouçamos isso a partir do seguinte: "Rabi Yossei diz: não há esquecimento para oliveiras (ponto, sem exceção)." Disse Rabi Shimon bar Yakim: Rabi Yossei não disse isso senão a respeito de outrora, quando as oliveiras não eram tão comuns, pois viera Adriano, o ímpio, e devastara toda a terra (na guerra de Bar Kochba, tornando as oliveiras escassas e, por isso, cada uma delas notável e memorável por si só); mas agora, que as oliveiras são comuns, têm sim esquecimento (pois, sendo abundantes, uma se confunde com a outra, e o dono pode de fato esquecer alguma).
"Shofkani" quer dizer que verte azeite (do verbo "verter"). Mas não ensinamos "netifá" (gotejante), termo que já designa isso mesmo? Deve ser, então, que ela produz muito azeite (e é essa a diferença de sentido entre os dois nomes). Mas não ensinamos na própria Mishná: "por sua produção, quando produz muito"? Isso seria redundante com "shofkani". Portanto, deve ser, antes, que "shofkani" designa a oliveira que produz muito azeite (por unidade de fruto); "netufá" designa a que verte azeite (mesmo ainda na árvore, um fenômeno distinto); "sua produção, que produz muito" refere-se, então, à que produz muitas azeitonas (em quantidade, e não em rendimento de azeite). "Beishani": há quem queira dizer que se refere a Bet Shean mesmo (o lugar de origem dessa variedade); há quem queira dizer que ela envergonha sua companheira (as demais oliveiras), até produzir quatro vezes mais que elas, tal como aquilo que ensinamos ali (Peá 6:1): "todos os feixes do campo, cada um de um kav, e um único feixe de quatro kabin, e esqueceram-no". Já que ela produz mais que sua companheira, é como se fosse marcada (distinta o bastante para dispensar a lei do esquecimento). Mas isso vale apenas se ela o faz assim todo ano e sempre. E já que ela produz essa diferença na maioria dos anos, é como se fosse marcada (bastando a maioria dos anos, e não a totalidade deles, para se firmar como característica reconhecida).
"Por seu lugar: quando está ao lado do lagar ou ao lado da brecha no muro" (nesse caso, mesmo sem nome próprio ou produção diferenciada, o simples lugar já a torna memorável, dispensando-a do esquecimento). Mas essa Mishná não seria, então, apenas a redação de Bet Shamai? Pois Bet Shamai diz (Peá 6:1): o hefker declarado apenas para os pobres já é hefker válido — e, por analogia, quem colhesse dali pensaria tratar-se de hefker, e não de esquecimento. Disse Rabi Yossei: não há problema, pois são palavras de todos (esta Mishná sobre o lugar da oliveira vale tanto para Bet Shamai quanto para Bet Hilel, sem depender daquela disputa); ali (no caso do hefker) trata-se de algo destacado (o fruto colhido) junto a algo ligado ao solo (a preocupação era se o hefker do fruto já colhido bastava, sem envolver a terra); mas aqui trata-se de algo ligado ao solo (a própria oliveira) junto a algo também ligado ao solo (o lagar ou o muro — casos diferentes, que não dependem da mesma disputa).
"Rabi Yossei diz: não há esquecimento para oliveiras" (repetido aqui da Mishná, para servir de base à próxima explicação). Disse Rabi Shimon ben Yakim: Rabi Yossei não disse isso senão a respeito de outrora, quando as oliveiras não eram tão comuns, pois viera Adriano, o ímpio, e devastara toda a terra; mas agora, que as oliveiras são comuns, têm sim esquecimento (a mesma explicação já dada acima, reafirmada aqui como conclusão fixada).
Disse Rabi Yossei (o Amorá): ninguém sujeitou as oliveiras ao esquecimento senão Rabi Akiva, pois ele expunha o sentido de "atrás de ti, atrás de ti" (Deuteronômio 24:20-21, repetido a respeito da oliveira e da vinha, do qual Rabi Akiva derivava a inclusão do esquecimento também para as oliveiras). Se assim é, então não há esquecimento para oliveiras segundo Rabi Yossei (o Taná), que não expunha o sentido de "atrás de ti" (logo, sem essa base, não haveria fundamento para sujeitar as oliveiras à lei). Objetaram: mas o feixe de grãos tem esquecimento, e contudo não está escrito a seu respeito "atrás de ti" (e ainda assim se sujeita à lei — como, então, exigir "atrás de ti" para as oliveiras)? Respondeu-se: já que está escrito a respeito do feixe (Deuteronômio 24:19) "não voltarás a tomá-lo", é como se estivesse escrito ali "atrás de ti" (a expressão "não voltarás" já implica o mesmo sentido, dispensando a menção literal).
Rabi Yoná perguntou: aquela oliveira chamada "netifá" (que goteja), uma vez que ela é marcada (distinta por seu nome próprio), na opinião de Rabi Yossei (o Taná — referindo-se à próxima Mishná, que ensina que, tendo o dono começado a colhê-la, ela passa a se sujeitar à lei do esquecimento como qualquer outra árvore), mesmo que já tenha começado a colher dela, é como se não tivesse começado (isto é, será que sua marca especial a mantém isenta do esquecimento mesmo depois de iniciada a colheita, ao contrário da regra geral que sujeitaria as demais árvores nessa mesma condição)?
Esta primeira halachá do Perek Zayin desloca o tema do esquecimento — até aqui tratado quanto aos feixes de grãos — para as oliveiras: a Mishná ensina que toda oliveira com nome próprio no campo, mesmo a chamada "azeitona-que-goteja" em sua época, não se sujeita ao esquecimento se for esquecida, e isso vale quando ela se distingue por seu nome, por sua produção abundante, ou por seu lugar junto ao lagar ou à brecha do muro; já as demais oliveiras, sem tais marcas, seguem uma regra numérica — duas esquecidas juntas têm esquecimento, três não têm —; e Rabi Yossei, em posição isolada, nega qualquer esquecimento às oliveiras.
A guemará abre com Rabi Lá derivando do versículo "esquecerás um feixe" que a lei exclui o que certamente se recorda depois — base para isentar a oliveira marcada. Em seguida, Rabi Jeremia pergunta sobre marcação puramente mental, sobre a tamareira que marca a oliveira vizinha por sua sombra, e sobre duas oliveiras "que gotejam" que se marcam mutuamente, chegando ao caso limite de um campo inteiro só de oliveiras desse tipo — resolvido pela posição de Rabi Yossei, explicada por Rabi Shimon bar Yakim como válida apenas na época de escassez pós-Adriano, e não mais hoje, quando as oliveiras são comuns. A sugia então examina a etimologia de "shofkani" e "netufá" e a diferença entre produzir muito azeite e produzir muitas azeitonas; compara o critério do "lugar" com a disputa do hefker entre Bet Shamai e Bet Hilel, concluindo que não há relação necessária entre os dois casos; volta à posição de Rabi Yossei, agora ligando-a à leitura exclusiva de Rabi Akiva sobre "atrás de ti"; e fecha com a pergunta de Rabi Yoná sobre se a oliveira marcada perde sua isenção uma vez que o dono já começou a colhê-la — questão que prepara a próxima Mishná do capítulo.