Esta terceira halachá do Perek Zayin traz uma nova Mishná sobre a vindima: o que é peret (o bago ou cacho caído por acidente), que pertence ao dono se caiu emaranhado nas folhas ao ser colhido, mas rouba os pobres se o dono deliberadamente põe um cesto sob a videira para recolher o que cai; e o que é olelet (rebusca de uvas devida aos pobres), definida pela ausência de "ombro" e "gotejo", com o caso do bago isolado em disputa entre Rabi Yehudá e os sábios. A guemará explica que o peret se santifica como propriedade dos pobres no próprio ato de cair; discute a pergunta de Chilfai sobre a olelet; traz a baraita da Tosefta definindo "ombro" e "gotejo"; a disputa entre Rabi Aba em nome de Rav Yehudá, que exige que os bagos caibam na palma da mão, e o relato de Rabi Chiya sobre uma olelet de sete libras pesada em Tsipori; o caso do levita que recebeu dízimo não preparado contendo olelet; a razão de Rabi Yehudá, extraída de um versículo de Isaías, para o limite de bagos que ainda contam como rebusca; e, a partir da menção ao peso incomum daquela olelet, uma longa série de relatos sobre a fartura extraordinária da Terra de Israel em gerações passadas — pêssegos, alfarrobas, figos, trigo de Arbel, canela, rabanetes, couve e ervilhas — contados por Rabi Abahu, Rabi Yossei ben Chanina, Reish Lakish, Rabi Chanina, Rabi Yochanan, Rabi Chiya bar Aba, Rabi Chuna, Rabi, Rabi Yehudá, Rabi Yossei e Rabi Elazar ben Rabi Shimon.
Mishná: O que é peret (bago ou pequeno cacho caído, devido aos pobres)? O que cai por acidente no momento da vindima. Se alguém estava colhendo, arrancou o cacho, ele se emaranhou nas folhas e caiu ao chão e se desfez em bagos soltos, eis que isso pertence ao dono da casa (do vinhedo) — pois não caiu por si, mas por efeito acidental da colheita normal. Aquele que põe um cesto debaixo da videira no momento em que colhe, eis que rouba os pobres (pois recolhe deliberadamente, antes que caia ao chão, o que deveria cair e tornar-se deles). Sobre ele foi dito: "não desloques o limite eterno" (Provérbios 22:28 e 23:10 — versículo que condena quem usurpa o que pertence de direito a outro). E o que é olelet (rebusca de uvas, devida aos pobres)? Todo cacho pequeno que não tem nem "ombro" nem "gotejo" (termos técnicos que a guemará explicará). Se tem "ombro" e "gotejo", pertence ao dono da casa. Se há dúvida, pertence aos pobres. A olelet que está num ramo secundário — se pode ser destacada junto com o cacho principal, pertence ao dono da casa; e se não, eis que ela é dos pobres. Quanto ao bago isolado, Rabi Yehudá diz: é considerado como cacho (e pertence ao dono); mas os sábios dizem: é olelet (e pertence aos pobres).
Isso ensina — a partir do que a Mishná disse sobre quem põe um cesto sob a videira — que o peret se santifica (torna-se propriedade consagrada aos pobres, isenta de dízimos) no próprio ato de cair (mesmo antes de tocar o chão, pois só assim faz sentido chamar de "roubo aos pobres" o gesto de recolhê-lo no ar com o cesto). Isso não resolve facilmente a pergunta de Chilfai? Chilfai perguntou: quanto ao leket (espiga ou grão caído na colheita de cereais), no próprio ato de cair, santifica-se? Ou seja: não seria essa mesma pergunta já respondida aqui, para o peret da uva? Disse Rabi Shmuel bar Avduma: há uma diferença entre os dois casos, pois o dono, ao pôr o cesto, foi a causa de que o peret não descesse ao chão (o problema ali não é apenas o momento da santificação, mas o fato de o dono ter impedido ativamente, com sua própria mão, que o fruto chegasse a seu destino natural — o que não se compara automaticamente ao caso do leket, onde não há esse impedimento ativo).
Ensina a baraita: o que é olelet? Toda que não tem nem "ombro" nem "gotejo". Se tem "ombro" mas não "gotejo", ou "gotejo" mas não "ombro", pertence ao dono da casa. E se há dúvida, pertence aos pobres. O que é "ombro"? Bagos espalhados uns sobre os outros, como ramos que se abrem um sobre o outro (formando fileiras largas que se assemelham a ombros). O que é "gotejo"? Bagos pendurados na haste central e descendo em fila, como gotas que escorrem.
Disse Rabi Aba em nome de Rav Yehudá: e essa definição só se aplica quando todos os bagos tocam a palma da sua mão (ou seja, uma olelet legítima deve ser pequena o bastante para caber inteira na mão). Mas não disse assim Rabi Chiya? Aconteceu que pesaram certa olelet de sete libras em Tsipori (um cacho de rebusca tão grande, que jamais caberia na palma de uma mão)! Disse Rabi Chinena: isso se resolve — a exigência é que, se a puseram sobre uma tábua, todos os bagos toquem a tábua (a medida não é literalmente a palma da mão, mas uma superfície plana equivalente, o que permite conciliar as duas tradições).
Filho de Levi (um levita) a quem se designou dízimo ainda não preparado (sujeito à retirada da terumat maasser) e encontrou dentro dele olelet, eis que ele pode fazer delas terumat maasser (a porção do dízimo que o levita separa e entrega ao cohen) em outro lugar (usando essas uvas de rebusca para cumprir sua obrigação em relação a outro produto). Mas a olelet não é propriedade do pobre (como então o levita pode usá-la livremente, sem que isso constitua uso indevido do que pertence aos pobres)? Rabi Avin em nome dos rabinos de lá (da Babilônia): eu digo que isso se refere às olelet colhidas junto com os cachos (ou seja, bagos de rebusca que, por engano, foram cortados e recolhidos junto com os cachos regulares na hora da vindima, antes de serem identificados e separados — e por isso ainda não se tornaram, de fato, propriedade reconhecida dos pobres).
Disse Rabi Simon: a razão de Rabi Yehudá (que considera o bago isolado como cacho, e não como olelet) é o versículo: "e restarão nele rebuscas, como quando se sacode a oliveira, dois ou três bagos" (Isaías 17:6 — o versículo compara a rebusca da videira à da oliveira, e fala expressamente de dois ou três bagos). Conclui-se dali que apenas até três bagos isolados contam como olelet; mais do que isso já se considera cacho (e pertence ao dono — o que explica por que Rabi Yehudá exige ao menos essa quantidade mínima para que se fale em cacho, e não apenas em rebusca de bagos soltos).
Esclarecimento (levado por associação com o relato anterior sobre o grande peso pesado em Tsipori): uma vez, Rabi Abahu, Rabi Yossei ben Chanina e Rabi Shimon ben Lakish passavam pelo pomar de Doron. O feitor (o rendeiro que cuidava do pomar) trouxe-lhes um único pêssego; comeram eles e seus jumentos, e ainda sobrou. E estimaram-no em tamanho equivalente a um prato de cerâmica como os de Kefar Chananiá (vila famosa por sua olaria), que comporta uma seá de lentilhas. Depois de alguns dias, passaram novamente por ali; o feitor trouxe-lhes dois ou três pêssegos que cabiam dentro de sua mão. Disseram-lhe: é daquela árvore de antes que queremos. Disse-lhes: é dela mesma que vêm estes (a árvore continuava sendo a mesma, mas sua produção havia diminuído drasticamente em poucos dias). E aplicaram-lhe o versículo: "terra frutífera convertida em salinas, por causa da maldade dos que nela habitam" (Salmos 107:34 — citado para lamentar como o pecado humano reduz a fartura natural da terra).
Disse Rabi Chanina: quando subi para me estabelecer aqui (na Terra de Israel), tomei meu cinto, o cinto do meu filho e o cinto do meu jumento para circundar o tronco de uma jovem alfarrobeira da Terra de Israel, e não bastaram. Cortei uma única vagem de alfarroba, e escorreu dela uma mão cheia de mel (o suco doce da alfarroba, comparável ao mel).
Disse Rabi Yochanan: melhor era o fruto de segunda qualidade que comíamos em nossa juventude do que os pêssegos que comemos em nossa velhice, pois em seus dias (ao longo da vida de Rabi Yochanan) o mundo mudou (a fartura da terra foi diminuindo com o tempo).
Disse Rabi Chiya bar Aba: uma seá de trigo de Arbel (região agrícola próxima a Tiberíades) costumava render uma seá de flor de farinha, uma seá de farinha comum, uma seá de farinha grossa, uma seá de farelo grosso, uma seá de farelo fino, e uma seá de resíduos de moagem (seis medidas plenas a partir de uma só, cada uma delas aproveitável). E agora, nem sequer uma medida por uma rende igual (hoje uma seá de trigo já não rende sequer uma seá de farinha).
Rabi Chuna em nome de Rav Avin: a canela era comida de cabras (um mato comum, tão abundante que servia de forragem); e mesmo assim os filhos de Israel a cultivavam (como especiaria valiosa, apesar de sua fartura natural). Rabi Chuna em nome de Rabi Avin: os dois cordeiros do sacrifício tamid (oferenda diária permanente) que se ofereciam todos os dias costumavam ser transportados sobre um camelo, e ainda assim as patas deles tocavam o chão (tamanho era o porte dos cordeiros, criados na fartura da terra). Rabi Chuna em nome de Rabi Idi: aconteceu que alguém amarrou uma cabra a uma figueira e, ao voltar, encontrou mel e leite misturados (o suco doce escorrendo da figueira se misturara ao leite da cabra que pastava ali).
Rabi disse a Rav Periri: não me mostrarás aquele cacho especial que há dentro do teu vinhedo? Disse-lhe: sim (vem comigo). Rabi saiu com ele, querendo que Rav Periri viesse na sua frente e o guiasse. Enquanto ainda estava longe, avistou algo semelhante a um boi. Disse-lhe: não é isto um boi que destrói o vinhedo? Disse-lhe: este "boi" que pensas ser um animal é o cacho especial (o próprio cacho, de tamanho descomunal, parecia à distância um boi). E Rabi aplicou-lhe o versículo: "enquanto o rei estava em seu banquete, meu nardo exalou seu perfume" (Cântico dos Cânticos 1:12) — o Templo está destruído, e tu persistes em tua obstinação (em manter e ostentar tamanha fartura mesmo depois da destruição, como se nada tivesse mudado)? Imediatamente, procuraram o cacho de novo e não o encontraram mais.
Trouxeram diante de Rabi dois rabanetes colhidos no intervalo entre Rosh Hashaná e o Grande Jejum (Yom Kipur), e era logo a saída do ano sabático (shemitá), e havia neles o equivalente a uma carga de camelo (dois rabanetes que juntos pesavam tanto quanto a carga de um camelo). Disse-lhes Rabi: não são eles proibidos, por serem sfichin (brotos crescidos por conta própria durante o ano sabático, cujo uso comercial é vedado)? Disseram-lhe: não — foram semeados na saída de Rosh Hashaná (ou seja, já no ano seguinte, comum, e não durante o sabático). Naquela hora, Rabi permitiu, de imediato, comprar verdura logo na saída do sétimo ano (sem esperar o tempo que normalmente se aguardaria, por conta desse precedente que provava a rapidez do crescimento).
Perguntaram diante de Rabi: o que é isto que está escrito: "agora, os figos secos apodrecem debaixo de suas pás" (Joel 1:17)? Disse-lhes: em lugar de rasparmos mel, eis que agora raspamos podridão (antes, o que se raspava com as pás era mel escorrido dos figos; agora, apenas restos podres). Aconteceu que alguém tinha uma fileira de figueiras e, ao voltar, encontrou-a cercada por uma cerca de mel a rodeá-las (o mel escorrido das figueiras havia se acumulado e endurecido, formando como que uma cerca ao redor delas).
Certo homem semeava seu campo com nabos, e costumava cortá-los em pedaços e vendê-los (de tão grandes que eram). Aconteceu com uma raposa que veio e fez ninho na cabeça (na copa) de um nabo. Aconteceu em Shichin (vila próxima a Tsipori) com um único pé de mostarda que tinha três ramos: um deles se quebrou, e cobriram com ele a cabana dos oleiros (usando-o como telhado), e acharam nele três kabin (medida de volume) de sementes de mostarda. Disse Rabi Shimon ben Chalafta: um único pé de mostarda eu tinha em minha propriedade, e eu subia nele como quem sobe ao topo de uma figueira.
Aconteceu que alguém semeou uma seá de ervilhas, e a colheita produziu trezentas seá. Disseram-lhe: o Santo, bendito seja, começou a te abençoar! Disse-lhes: ide-vos (não me elogiem por isso), pois caiu sobre a plantação um orvalho ruim (prejudicial); se não fosse isso, ela teria produzido o dobro (o homem via a colheita como aquém do esperado, e não como motivo de orgulho).
Disse Rabi Shimon ben Chalafta: aconteceu que Rabi Yehudá disse a seu filho, em Sichnin: sobe e traze-nos figos secos do barril. O filho subiu, esticou a mão e a encontrou cheia de mel. Disse-lhe: pai, o barril é de mel! Disse-lhe: afunda tuas mãos, e trarás ainda assim figos secos (o mel apenas cobria a superfície; embaixo estavam os figos). Aconteceu que Rabi Yossei disse a seu filho, em Tsipori: sobe e traze-nos figos secos do sótão. O filho subiu e encontrou o sótão inteiro coberto por uma camada de mel flutuando por cima. Rabi Chananiá era vendedor de mel de abelhas, e tinha também mel obtido por torrefação (um mel de qualidade inferior, extraído aquecendo os favos já espremidos). Depois de um tempo, alguns fregueses passaram novamente por ali; disse-lhes: para que não sejais enganados, sabei que aquele mel que vos dei da última vez era de torrefação. Disseram-lhe: é justamente dele que queremos mais, pois é bom para nosso trabalho (tinha uma qualidade mais adequada ao uso que faziam dele). E ele separou o valor correspondente à diferença de preço (entre o mel comum e o de torrefação, que havia cobrado a mais por engano) e construiu com ele a Casa de Estudo de Tsipori.
Rabi Elazar ben Rabi Shimon foi a certo lugar. Trouxeram diante dele couve seca e murcha. Disse-lhes: pusestes muito mel nela! Disseram-lhe: não pusemos nela nada de fora — é dela mesma, de seu próprio suco natural, que veio esse sabor doce.
Esta terceira halachá do Perek Zayin abre com uma nova Mishná sobre a vindima: o peret, bago ou cacho caído por acidente ao ser colhido, que pertence ao dono, em contraste com o cesto posto deliberadamente sob a videira, que constitui roubo aos pobres; e a olelet, definida pela ausência de "ombro" e "gotejo", com o caso do bago isolado em disputa entre Rabi Yehudá e os sábios.
A guemará abre estabelecendo que o peret se santifica no próprio ato de cair, distinguindo esse caso da pergunta de Chilfai sobre o leket; traz a baraita da Tosefta que define "ombro" e "gotejo"; discute, através da história do peso de sete libras em Tsipori, os limites físicos da definição de olelet; examina o caso do levita que recebeu dízimo com olelet misturada; e explica, a partir de Isaías, a razão de Rabi Yehudá quanto ao número de bagos isolados. A menção ao peso extraordinário daquela olelet leva a uma longa cadeia de relatos sobre a fartura da Terra de Israel em gerações passadas: o pomar de Doron e seu pêssego enorme, a alfarrobeira jovem de Rabi Chanina, a comparação de Rabi Yochanan entre os frutos de sua juventude e velhice, o trigo de Arbel, a canela que era comida de cabras, o mel e leite misturados na figueira, o cacho de uvas do tamanho de um boi mostrado a Rabi, os rabanetes gigantes na saída do ano sabático, o versículo de Joel sobre a podridão em lugar do mel, a raposa no nabo e o pé de mostarda em que se subia como em figueira, o homem que recusou elogio pela colheita de ervilhas, os barris e sótãos cheios de mel de Rabi Yehudá e Rabi Yossei, o lucro do mel que financiou a Casa de Estudo de Tsipori, e a couve murcha e doce por si mesma diante de Rabi Elazar ben Rabi Shimon.