Esta quarta halachá do Perek Zayin traz uma nova Mishná sobre o desbaste das vinhas: aquele que desbasta (rareia os cachos ainda verdes para que os restantes cresçam maiores) deve desbastar a parte dos pobres do mesmo modo que desbasta a sua própria, segundo Rabi Yehudá; mas Rabi Meir diz que ele está autorizado a fazê-lo em sua própria parte, mas não está autorizado a fazê-lo na parte dos pobres. A guemará estabelece que todos concordam que quem vende dez cachos a outrem já não pode mais tocá-los, e que, numa sociedade, cada sócio desbasta a parte do outro do mesmo modo que a sua própria; explica que Rabi Yehudá trata o pobre como um sócio do dono da vinha, enquanto Rabi Meir o trata como um comprador; traz a objeção de Rabi Immi, que pergunta o que aconteceria se um animal selvagem comesse os cachos, caso em que, sendo o pobre um sócio, o dono seria obrigado a lhe pagar sua parte; e fecha com a pergunta de Rabi Yochanan, que aponta uma aparente contradição na posição de Rabi Yehudá ao comparar este caso com o do dono que aduba o campo antes que os pobres tenham colhido a rebusca, resolvida pela diferença entre a vinha, que é perene, e o campo, sujeito à rotação de cultivo.
Mishná: Aquele que desbasta (rareia, tirando cachos verdes ainda pequenos para que os que ficam cresçam mais) as vinhas — do mesmo modo que ele desbasta dentro da sua própria (parte), assim ele desbasta na parte dos pobres (deve tratar a peá/olelet ainda pendente do mesmo modo que trata seus próprios cachos, desbastando-a também) — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Meir diz: em sua própria (parte) ele está autorizado a desbastar, mas não está autorizado a fazê-lo na parte dos pobres.
Todos (tanto Rabi Yehudá quanto Rabi Meir) concordam quanto a quem vende a seu próximo dez cachos (de uma vinha, ainda pendentes): que o vendedor fica proibido de tocar neles (depois da venda, o vendedor perde todo direito de desbastá-los ou manuseá-los, pois já não lhe pertencem).
Todos concordam quanto ao sócio (num vinhedo em condomínio): do mesmo modo que ele desbasta dentro da sua própria (parte), assim ele desbasta dentro da parte do seu companheiro (o sócio) (pois cuidar da vinha, incluindo desbastá-la, é parte necessária da administração conjunta, e cada sócio age também em nome do outro).
Rabi Yehudá trata-o (o pobre, quanto à parte da olelet ainda pendente na vinha) como se fosse um sócio (por isso permite ao dono desbastar também a parte dos pobres, tal como um sócio desbasta a parte do outro), e Rabi Meir trata-o como se fosse um comprador (e por isso proíbe ao dono tocar na parte dos pobres, tal como o vendedor não pode mais tocar nos cachos já vendidos).
Disse-lhe Rabi Immi: imagina o seguinte caso: que um animal selvagem viesse e comesse os cachos destinados aos pobres. Se tu o tratas (o pobre) como se fosse um sócio, o dono da vinha ficaria obrigado a pagar-lhe (ao pobre, a parte perdida — pois entre sócios, o prejuízo se reparte, e o dono teria de compensar a perda daquilo que cabia ao pobre; conclusão que soa estranha, e por isso serve de objeção contra tratar o pobre simplesmente como sócio)!
Disse Rabi Yochanan: parece contraditório o método de Rabi Yehudá (entre esta halachá e outra, adiante, sobre o campo). Ali (na halachá seguinte, sobre quem quer adubar ou irrigar o campo antes que os pobres tenham colhido a rebusca) ele diz: de um modo ou de outro (quer o dono já tenha ou não retirado a peá), o dono as (as espigas ou plantas da peá) toma e as deposita sobre a cerca, e o pobre vem e toma o que é seu (ou seja, ali Rabi Yehudá exige que o dono retire e reserve a parte dos pobres antes de adubar ou irrigar o campo, sem tratá-la como própria). Mas aqui (nesta halachá, sobre o desbaste da vinha) ele diz assim (que o dono pode desbastar a parte dos pobres junto com a sua)! E o argumento ali seria: visto que ele (o dono) as espreme (refere-se ao ato de adubar/pisar o solo), elas (as plantas) produzirão mais no ano seguinte (o benefício futuro justificaria a intervenção mesmo na parte dos pobres). E eu diria: também aqui (na vinha), visto que ele a fertiliza (desbastando-a), ela produzirá mais no ano seguinte (argumento idêntico, que tornaria as duas posições de Rabi Yehudá incoerentes entre si)! Disse-lhe (a resposta que resolve a contradição): é comum que o dono do campo, de um ano para o outro, venha a semeá-lo de verdura e com isso afastá-la (a colheita) dos pobres (pois o campo, ao contrário da vinha perene, está sujeito à rotação de cultivo, e no ano seguinte pode ser plantado com hortaliça, que não gera obrigação de peá; por isso, quanto ao campo, Rabi Yehudá protege desde já o interesse imediato dos pobres na colheita presente, sem contar com um benefício futuro incerto — o que não se aplica à vinha, que continuará produzindo uvas ano após ano, tornando legítimo levar em conta o ganho da safra seguinte).
Esta quarta halachá do Perek Zayin abre com uma nova Mishná sobre o desbaste das vinhas: segundo Rabi Yehudá, quem desbasta os próprios cachos deve desbastar igualmente a parte dos pobres; segundo Rabi Meir, ele está autorizado a fazê-lo apenas na própria parte, não na dos pobres.
A guemará estabelece dois consensos — que quem vende dez cachos não pode mais tocá-los, e que, numa sociedade, cada sócio desbasta a parte do outro como a própria — e explica a disputa central: Rabi Yehudá trata o pobre como sócio do dono da vinha, enquanto Rabi Meir o trata como comprador. Rabi Immi objeta com o caso do animal selvagem que comesse os cachos, o que obrigaria o dono a pagar ao pobre caso este fosse tratado como sócio. Por fim, Rabi Yochanan aponta uma aparente contradição entre esta posição de Rabi Yehudá e a que ele sustenta a respeito do campo adubado antes da colheita da rebusca pelos pobres, resolvida pela diferença entre a vinha perene e o campo sujeito à rotação de cultivo.