Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Zayin · Halachá 4
פֵּאָה

Quem desbasta as vinhas: a disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Meir, e a objeção de Rabi Yochanan

Perek Zayin, Halachá 4 — quarta halachá do sétimo perek de Massechet Peá no Talmud Yerushalmi

Esta quarta halachá do Perek Zayin traz uma nova Mishná sobre o desbaste das vinhas: aquele que desbasta (rareia os cachos ainda verdes para que os restantes cresçam maiores) deve desbastar a parte dos pobres do mesmo modo que desbasta a sua própria, segundo Rabi Yehudá; mas Rabi Meir diz que ele está autorizado a fazê-lo em sua própria parte, mas não está autorizado a fazê-lo na parte dos pobres. A guemará estabelece que todos concordam que quem vende dez cachos a outrem já não pode mais tocá-los, e que, numa sociedade, cada sócio desbasta a parte do outro do mesmo modo que a sua própria; explica que Rabi Yehudá trata o pobre como um sócio do dono da vinha, enquanto Rabi Meir o trata como um comprador; traz a objeção de Rabi Immi, que pergunta o que aconteceria se um animal selvagem comesse os cachos, caso em que, sendo o pobre um sócio, o dono seria obrigado a lhe pagar sua parte; e fecha com a pergunta de Rabi Yochanan, que aponta uma aparente contradição na posição de Rabi Yehudá ao comparar este caso com o do dono que aduba o campo antes que os pobres tenham colhido a rebusca, resolvida pela diferença entre a vinha, que é perene, e o campo, sujeito à rotação de cultivo.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

הַמֵּידַל בַּגְּפָנִים כְּשֵׁם שֶׁהוּא מֵידַל בְּתוֹךְ שֶׁלּוֹ כָּךְ הוּא מֵידַל בְּשֶׁל עֲנִיִים דִּבְרֵי רִבִּי יְהוּדָה. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר בְּשֶׁלּוֹ הוּא רְשַׁאי וְאֵינוֹ רְשַׁאי בְשֶׁל עֲנִיִים.

Mishná: Aquele que desbasta (rareia, tirando cachos verdes ainda pequenos para que os que ficam cresçam mais) as vinhas — do mesmo modo que ele desbasta dentro da sua própria (parte), assim ele desbasta na parte dos pobres (deve tratar a peá/olelet ainda pendente do mesmo modo que trata seus próprios cachos, desbastando-a também) — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Meir diz: em sua própria (parte) ele está autorizado a desbastar, mas não está autorizado a fazê-lo na parte dos pobres.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Todos concordam: quem vende dez cachos não pode mais tocá-los
Yerushalmi · Peá 7:4
הַכֹּל מוֹדִין בְּמוֹכֵר לַחֲבֵירוֹ עֲשָׂרָה אֶשְׁכּוֹלוֹת שֶׁיְּהֵא אָסוּר לִיגַּע בָּהֶן.

Todos (tanto Rabi Yehudá quanto Rabi Meir) concordam quanto a quem vende a seu próximo dez cachos (de uma vinha, ainda pendentes): que o vendedor fica proibido de tocar neles (depois da venda, o vendedor perde todo direito de desbastá-los ou manuseá-los, pois já não lhe pertencem).

02Todos concordam: na sociedade, cada sócio desbasta a parte do outro como a própria
Yerushalmi · Peá 7:4
הַכֹּל מוֹדִין בְּשׁוּתָף כְּשֵׁם שֶׁהוּא מֵידַל בְּתוֹךְ שֶׁלּוֹ כָּךְ הוּא מֵידַל בְּתוֹךְ שֶׁל חֲבֵירוֹ.

Todos concordam quanto ao sócio (num vinhedo em condomínio): do mesmo modo que ele desbasta dentro da sua própria (parte), assim ele desbasta dentro da parte do seu companheiro (o sócio) (pois cuidar da vinha, incluindo desbastá-la, é parte necessária da administração conjunta, e cada sócio age também em nome do outro).

03A explicação da disputa: Rabi Yehudá trata o pobre como sócio, Rabi Meir como comprador
Yerushalmi · Peá 7:4
רִבִּי יְהוּדָה עֲבַד לֵיהּ כְּשׁוּתָף [וְרִבִּי מֵאִיר עֲבַד לֵיהּ כְּמוֹכֵר].

Rabi Yehudá trata-o (o pobre, quanto à parte da olelet ainda pendente na vinha) como se fosse um sócio (por isso permite ao dono desbastar também a parte dos pobres, tal como um sócio desbasta a parte do outro), e Rabi Meir trata-o como se fosse um comprador (e por isso proíbe ao dono tocar na parte dos pobres, tal como o vendedor não pode mais tocar nos cachos já vendidos).

04A objeção de Rabi Immi: e se um animal selvagem comesse os cachos?
Yerushalmi · Peá 7:4
אָמַר לֵיהּ רִבִי אִימִּי הַגַּע עַצְמָךְ שֶׁאֲכָלָתָן חַיָּה. אִין תְּעַבְדִּינֵיהּ כְּשׁוּתָף יְהֵא חַיָיב לְשַׁלֵּם לוֹ.

Disse-lhe Rabi Immi: imagina o seguinte caso: que um animal selvagem viesse e comesse os cachos destinados aos pobres. Se tu o tratas (o pobre) como se fosse um sócio, o dono da vinha ficaria obrigado a pagar-lhe (ao pobre, a parte perdida — pois entre sócios, o prejuízo se reparte, e o dono teria de compensar a perda daquilo que cabia ao pobre; conclusão que soa estranha, e por isso serve de objeção contra tratar o pobre simplesmente como sócio)!

05Rabi Yochanan: a aparente contradição na posição de Rabi Yehudá, entre a vinha e o campo adubado
Yerushalmi · Peá 7:4
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן נִרְאֵית מוּחְלֶפֶת שִׁיטָּתוֹ שֶׁל רִבִּי יְהוּדָה. תַּמָּן הוּא אוֹמֵר בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ נוֹטְלָן וּמֵנִיחָן עַל הַגֶּדֶר וְהֶעָנִי בָּא וְנוֹטֵל אֶת שֶׁלּוֹ. וְכֹא הוּא אוֹמֵר הָכֵן. מִתּוֹךְ שֶׁהוּא מְעַכָּן הֵן עוֹשׂוֹת יוֹתֵר לַשָּׁנָה הַבָּאָה. וְאָמַר אוּף הָכָא מִכֵּיוָן שֶׁהוּא מַרְבְּעָהּ הִיא עוֹשָׂה יוֹתֵר לַֹשָּנָה הַבָּאָה. אָמַר לֵיהּ מָצוּי הוּא לְזוֹרְעָהּ יֶרֶק וּלְהַבְרִיחָהּ מִן הָעֲנִיִים.

Disse Rabi Yochanan: parece contraditório o método de Rabi Yehudá (entre esta halachá e outra, adiante, sobre o campo). Ali (na halachá seguinte, sobre quem quer adubar ou irrigar o campo antes que os pobres tenham colhido a rebusca) ele diz: de um modo ou de outro (quer o dono já tenha ou não retirado a peá), o dono as (as espigas ou plantas da peá) toma e as deposita sobre a cerca, e o pobre vem e toma o que é seu (ou seja, ali Rabi Yehudá exige que o dono retire e reserve a parte dos pobres antes de adubar ou irrigar o campo, sem tratá-la como própria). Mas aqui (nesta halachá, sobre o desbaste da vinha) ele diz assim (que o dono pode desbastar a parte dos pobres junto com a sua)! E o argumento ali seria: visto que ele (o dono) as espreme (refere-se ao ato de adubar/pisar o solo), elas (as plantas) produzirão mais no ano seguinte (o benefício futuro justificaria a intervenção mesmo na parte dos pobres). E eu diria: também aqui (na vinha), visto que ele a fertiliza (desbastando-a), ela produzirá mais no ano seguinte (argumento idêntico, que tornaria as duas posições de Rabi Yehudá incoerentes entre si)! Disse-lhe (a resposta que resolve a contradição): é comum que o dono do campo, de um ano para o outro, venha a semeá-lo de verdura e com isso afastá-la (a colheita) dos pobres (pois o campo, ao contrário da vinha perene, está sujeito à rotação de cultivo, e no ano seguinte pode ser plantado com hortaliça, que não gera obrigação de peá; por isso, quanto ao campo, Rabi Yehudá protege desde já o interesse imediato dos pobres na colheita presente, sem contar com um benefício futuro incerto — o que não se aplica à vinha, que continuará produzindo uvas ano após ano, tornando legítimo levar em conta o ganho da safra seguinte).

Nota

Esta quarta halachá do Perek Zayin abre com uma nova Mishná sobre o desbaste das vinhas: segundo Rabi Yehudá, quem desbasta os próprios cachos deve desbastar igualmente a parte dos pobres; segundo Rabi Meir, ele está autorizado a fazê-lo apenas na própria parte, não na dos pobres.

A guemará estabelece dois consensos — que quem vende dez cachos não pode mais tocá-los, e que, numa sociedade, cada sócio desbasta a parte do outro como a própria — e explica a disputa central: Rabi Yehudá trata o pobre como sócio do dono da vinha, enquanto Rabi Meir o trata como comprador. Rabi Immi objeta com o caso do animal selvagem que comesse os cachos, o que obrigaria o dono a pagar ao pobre caso este fosse tratado como sócio. Por fim, Rabi Yochanan aponta uma aparente contradição entre esta posição de Rabi Yehudá e a que ele sustenta a respeito do campo adubado antes da colheita da rebusca pelos pobres, resolvida pela diferença entre a vinha perene e o campo sujeito à rotação de cultivo.