Esta sétima halachá do Perek Chet traz uma nova Mishná, que fixa em duzentos zuz o patrimônio a partir do qual o pobre não pode mais tomar lekét, shichechá, peá e maasser aní, mas que, tendo duzentos menos um dinar, ele pode tomar ainda que mil pessoas lhe deem de uma só vez, além de deduzir do cálculo os bens penhorados para a ketubá da esposa ou para um credor, sem que se o obrigue a vender sua casa ou seus utensílios de uso pessoal. A guemará narra o caso de um discípulo de Rabi cujo patrimônio foi completado por inveja dos colegas e a solução engenhosa encontrada para devolvê-lo ao limite de isenção, a história da família de Nevalat, descendente de Arauna o jebuseu, sustentada pelos sábios para não deixar Jerusalém, o cavalo e o escravo que Hilel o Velho providenciou para um pobre de boa família, e a libra de carne diária que os homens da Galileia traziam a um ancião. Trata então da hierarquia de utensílios — de ouro a prata, de prata a bronze, de bronze a vidro — conforme o costume anterior do necessitado, do caso de quem só conseguia comer da própria panela, e fecha com o ensino de Rabi Chanina sobre a obrigação de ter duas vestimentas, uma para os dias comuns e outra para o shabat, ilustrado pelo verso de Rut e pela pregação de Rabi Simlai.
Mishná: Quem tem duzentos zuz (o mesmo que duzentos dinares de prata, quantia com a qual uma pessoa poderia viver com conforto por um ano inteiro) não deve tomar lekét (as espigas caídas na colheita), shichechá (os feixes esquecidos no campo), peá (o canto do campo deixado para os pobres) nem maasser aní (o dízimo do pobre). Mas se ele tinha duzentos zuz menos um dinar, ainda que mil pessoas lhe dessem de uma só vez (um único dom coletivo, e não sucessivo), eis que ele pode tomar (os dons destinados aos pobres, pois seu patrimônio, no momento em que se qualifica, ainda estava abaixo do limite). Se os seus bens estavam penhorados para a ketubá de sua esposa (o valor devido a ela por ocasião de divórcio ou viuvez) ou para seu credor, eis que ele pode tomar (pois o valor penhorado não se conta como patrimônio disponível dele). Não se o obriga a vender sua casa nem os utensílios de seu uso (pessoal, cotidiano).
Um discípulo, dentre os de Rabi (Rabi Yehudá HaNassi), tinha duzentos zuz menos um dinar, e Rabi costumava fazê-lo merecer (receber) junto com ele (dava-lhe sua parte) uma porção a cada três anos, do maasser dos pobres (o dízimo do pobre, distribuído no terceiro e no sexto ano do ciclo sabático). Seus discípulos (colegas do estudante) lançaram sobre ele olho mau e completaram-lhe a quantia que faltava (deram-lhe, com má intenção, o dinar que faltava, para que atingisse os duzentos zuz completos e perdesse o direito ao dízimo). Quando Rabi veio para fazê-lo merecer como de costume, ele lhe disse: "Meu mestre, eu já tenho a medida completa (duzentos zuz inteiros)." Disse Rabi: "Este foi atingido pelo golpe dos perushim (um golpe de fera predatória; expressão que designa os que, cumprindo formalmente a lei, usam de artifícios para prejudicar o próximo)." Ele fez sinal a seus discípulos, e o levaram a uma loja (estabelecimento comercial), e ali o fizeram gastar um carat (moeda equivalente a um vinte e quatro avos de dinar), e assim, tendo ele novamente menos que duzentos zuz completos, Rabi voltou a fazê-lo merecer o dízimo, como costumava fazê-lo merecer antes.
A família de Nevalat estava em Jerusalém, e traçava sua linhagem a Arauna o jebuseu (o último rei dos jebuseus, que vendeu a David o local do Templo). Certa vez, os sábios decretaram para ela seiscentos talentos de ouro (uma soma enorme, para sustentá-la), para que não a fizessem sair de Jerusalém (a família estava empobrecida e prestes a deixar a cidade em busca de sustento), pois os sábios interpretavam a repetição do verso "em tuas portas, em tuas portas" (Deuteronômio 26:12, entre outros, que trata do dízimo dado ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, "para que comam em tuas portas e se fartem") como ensinamento para incluir Jerusalém (entre as "portas" onde o dízimo do pobre deve ser consumido, e daí o dever de sustentar ali mesmo, com dignidade, uma família de linhagem tão distinta).
E não foi ensinado (em uma baraita): aconteceu com Hilel o Velho que tomou, para um pobre que era filho de família de posição, um cavalo para que se exercitasse com ele e um escravo para servi-lo (pois, antes de empobrecer, esse era o padrão de vida ao qual ele estava habituado, e a caridade deve restaurar a dignidade anterior de quem a recebe). Também aconteceu com os homens da Galileia que traziam a um certo ancião uma libra de carne de Tsipori (medida ou padrão de peso da cidade de Tsipori) todos os dias. E seria isso possível (que um só ancião consumisse tanta carne)? Mas ele recebia essa quantidade porque ele não costumava comer senão em companhia de outros, e por isso precisava de porção maior para servir também aos convidados.
Foi ensinado: se o necessitado costumava usar utensílios de ouro, dão-lhe utensílios de prata; se costumava usar utensílios de prata, dão-lhe utensílios de bronze; se costumava usar utensílios de bronze, dão-lhe utensílios de vidro (a assistência pública reduz um grau o padrão de vida anterior, mas não o degrada por completo). Disse Rabi Maná: isso se refere a utensílios de prata e utensílios de vidro que tocam diretamente o corpo de quem os usa, como pentes e afins. Mas não foi ensinado também: se ele costumava usar roupas de linho fino, dão-lhe roupas de linho fino (sem reduzir o padrão)? Não há contradição: aqui, trata-se do que toca o corpo dele; ali, do que não toca o corpo dele (utensílios de mesa e afins, onde se admite a redução de padrão; mas o que toca diretamente o corpo, como vestes íntimas, não se reduz).
Um daqueles que descendiam da família dos nessiim (o Patriarcado, a família de Rabi Yehudá HaNassi e seus descendentes) desceu de sua condição, perdendo seus bens, e passaram a prover para ele a comida servida em utensílio de barro, e ele comia e vomitava (o padrão humilde da louça o repugnava a ponto de não conseguir reter o alimento). Disse-lhe o médico: "Acaso o principal do cozido não está dentro da panela mesma? Come da própria panela (diretamente da panela de cozinhar, evitando assim a louça de barro que o perturbava)!"
Até agora ficou estabelecido apenas quanto a um credor que pressiona pelo pagamento (a dívida deduzida do cálculo dos duzentos zuz). Mas isso vale também quanto a um credor que não pressiona pelo pagamento? Ouçamo-lo desta Mishná: "Se os bens estavam penhorados para a ketubá de sua esposa ou para seu credor (o texto une as duas hipóteses em um só caso)." E não é esta, a esposa, como um credor que não pressiona pelo pagamento, já que a ketubá só se cobra em caso de divórcio ou viuvez? Ainda assim a Mishná ensina: "não se o obriga a vender" (logo, também o penhor a um credor que não pressiona é deduzido do cálculo dos duzentos zuz).
Disse Rabi Chanina: precisa a pessoa ter duas vestimentas externas (mantos ou capas), uma para os dias comuns e outra para o shabat (e essa provisão deve ser garantida pela caridade pública, mesmo ao pobre). Qual é a razão disso? "Lava-te, unge-te e põe tuas vestes sobre ti" (Rute 3:3). Acaso ela (Rute) estava nua antes disso, para que precisasse "pôr suas vestes"? Mas estas são as vestes de shabat dela (o verso implica que ela tinha vestes diferentes, reservadas, e por isso "pôs" essas vestes especiais). Quando Rabi Simlai pregou isso em público, os companheiros (discípulos de sua academia) choraram diante dele (lamentaram sua própria pobreza). Disseram-lhe: "Rabi, como é nossa vestimenta nos dias comuns, assim é nossa vestimenta no shabat (não temos como ter duas vestes diferentes)." Disse-lhes: "Ainda assim, precisais mudar algo, ainda que pequeno, para distinguir o shabat, a partir disto: 'lava-te, unge-te e põe tuas vestes sobre ti, e desce à eira' (Rute 3:3-4, o verso completo)." E quanto ao que se segue no mesmo relato, "e descerei" está escrito (no versículo, referindo-se a Noemi que dissera que desceria com Rute; mas o verso está em primeira pessoa, disse-lhe Noemi a Rute: "Meu mérito descerá contigo." E estaria ela (Rute) nua ali, que precisasse vestir-se para descer à eira? Mas ela (Noemi) lhe disse: "Veste tuas roupas de repouso (as vestes reservadas para ocasiões especiais, como o próprio shabat)."
Esta sétima halachá do Perek Chet abre uma nova Mishná, que fixa em duzentos zuz o limite de patrimônio para tomar lekét, shichechá, peá e maasser aní, deduzindo do cálculo os bens penhorados para a ketubá da esposa ou para um credor, e isentando da obrigação de vender casa e utensílios pessoais.
A guemará ilustra a regra com o episódio do discípulo de Rabi cujos colegas, por inveja, o levaram a duzentos zuz completos, e a solução de fazê-lo gastar um carat em uma loja para restituí-lo à condição de necessitado; narra o caso da família de Nevalat, descendente de Arauna o jebuseu, sustentada com seiscentos talentos de ouro para não deixar Jerusalém; traz os exemplos de Hilel o Velho, que providenciou cavalo e escravo para um pobre de família nobre, e dos homens da Galileia, que traziam carne diária a um ancião acostumado a comer em companhia. Discute então a hierarquia de utensílios que a caridade deve fornecer — de ouro a prata, de prata a bronze, de bronze a vidro — conforme o padrão anterior do necessitado, distinguindo o que toca o corpo do que não toca; narra o caso do descendente da família patriarcal que só conseguia comer diretamente da panela; estende a dedução do cálculo dos duzentos zuz também ao credor que não pressiona por pagamento; e fecha com o ensino de Rabi Chanina sobre a obrigação de ter duas vestimentas, uma para os dias comuns e outra para o shabat, e a reação emocionada dos discípulos de Rabi Simlai diante de sua própria pobreza.