Talmud Yerushalmi · Massechet Sheviit · Perek Guimel · Halachá 2
שְׁבִיעִית

Até que profundidade ou altura se fazem os monturos, e o esterco guardado como depósito

Perek Guimel, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Sheviit

Segunda halachá do Perek Guimel de Massechet Sheviit: a Mishná fixa que um homem faz em seu campo três monturos por bet-se'á (medida de área) — mais do que isso é proibido, segundo Rabi Shimon —, enquanto os sábios preferem o critério de profundidade ou altura: até que aprofunde ou eleve três (palmos). Trata ainda de quando um homem guarda o próprio esterco como um depósito, com o mesmo critério de Rabi Meir, e do caso de quem tinha pouca quantidade de esterco e vai acrescentando a ela aos poucos, com Rabi Elazar ben Azariá proibindo isso desde que cessem os que trabalham a terra, exceto sobre a rocha. A guemará explica, com Rabi Yirmeya, por que a mesma medida foi ensinada duas vezes — uma vez quanto a reduzir o número de cestas, outra quanto a fazer pela medida padrão —, examina a opinião dos sábios sobre fazer mais do que essa medida, oferece duas explicações para o caso de pouca quantidade de esterco, seja já dentro do campo, seja ainda dentro de casa na véspera do ano sabático, discute o receio de que falte esterco e se acabe adubando às escondidas o mesmo lugar, fixa em dez cestas de uma só vez a medida contra a aparência, e fecha comparando essa razão com a de Rabi Elazar ben Azariá sobre não abrir pela primeira vez um canal de irrigação no meio-festival ou no ano sabático, concluindo que cal, seixos, pedras ou gesso são sempre permitidos.

A Mishná · מַתְנִיתִין

עוֹשֶׂה אָדָם אֶת שָׂדֵהוּ שָׁלֹשׁ שָׁלֹשׁ אַשְׁפָּתוֹת לְבֵית סְאָה יוֹתֵר מִיכֵּן אָסוּר דִּבְרֵי רִבִּי שִׁמְעוֹן וַחֲכָמִים אוֹמְרִים עַד שֶׁיַּעֲמִיק שְׁלֹשָׁה אוֹ עַד שֶׁיַּגְבִּיהַּ שְׁלֹֹשָׁה. עוֹשֶׂה אָדָם אֶת זְבָלוֹ אוֹצָר רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר עַד שֶׁיַּעֲמִיק שְׁלֹשָׁה אוֹ עַד שֶׁיַּגְבִּיהַּ שְׁלֹשָׁה. הָיָה לוֹ דָבָר מוּעָט מוֹסִיף עָלָיו וְהוֹלֵךְ רִבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹסֵר עַד שֶׁיַּעֲמִיקוֹ אוֹ עַד שֶׁיַּגְבִּיהַּ שְׁלֹשָׁה אוֹ עַד שֶׁיִּתֵּן עַל הַסֶּלַע.

Mishná: Um homem faz em seu campo três monturos por bet-se'á (medida de área de terra); mais do que isso é proibido — palavras de Rabi Shimon. E os sábios dizem: até que aprofunde três (palmos, escavando o solo) ou até que eleve três (palmos, acima do solo). Um homem faz de seu esterco um depósito (guardando-o empilhado, sem o critério dos três monturos)Rabi Meir diz: até que aprofunde três ou até que eleve três. Se tinha ele pouca quantidade (de esterco), vai acrescentando a ela aos poucos — Rabi Elazar ben Azariá proíbe (fazer isso depois de certo momento), até que a aprofunde ou até que a eleve três, ou até que a ponha sobre a rocha (onde não há receio de adubar a terra).

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Por que a mesma medida foi ensinada duas vezes
Yerushalmi · Sheviit 3:2
וְלָמָּה תַנִּיתָהּ תְּרֵיין זִימְנִין. אָמַר רִבִּי יִרְמְיָה כָּאן בְּפּוֹחֵת מִן הַמַּשְׁפֵּלוֹת. בְּרַם הָכָא בְּעוֹשֶׂה בִּכְשִׁיעוּר. וְתַנֵּי כֵן עַל דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִפְחוֹת לְאַישְׁפָּה מִשָּׁלֹשׁ מַשְׁפֵּלוֹת. וַחֲכָמִים אוֹסְרִין בְּעוֹשֶׂה יוֹתֵר מִכְּשִׁיעוּר. אֲבָל בִּכְשִׁיעוּר בִּשְׁלֹשָׁה מְקוֹמוֹת מוּתָּר בְּמָקוֹם אֶחָד לֹא כָּל שֶׁכֵּן.

Halachá: E por que se ensinou isso (a medida de três monturos por bet-se'á) duas vezes (aqui e já na Mishná anterior)? Disse Rabi Yirmeya: ali (em 3:1) trata-se de quem reduz do número de cestas (por monturo); mas aqui trata-se de quem faz pela medida padrão. E assim se ensinou quanto à opinião de Rabi Shimon: contanto que não reduza o monturo a menos de três cestas. E os sábios proíbem quando se faz mais do que a medida padrão; mas, na medida padrão, em três lugares (três monturos separados) é permitido — em um só lugar, não é isso ainda mais evidente (que seria permitido)?

02As duas explicações do caso de pouca quantidade, e a medida contra a aparência
Yerushalmi · Sheviit 3:2
פָּתַר לָהּ תְּרֵין פְּתָרִין. בְּשֶׁהָיָה לֹו דָבָר מוּעָט בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ בִשְׁבִיעִית הֲרֵי זֶה מוֹסִיף עָלָיו וְהוֹלֵךְ. מִשֶּׁפָּסְקוּ עוֹבְדֵי עֲבוֹדָה רִבִּי לָעְזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹסֵר. מַה טַעְמָא דְרִבִּי לָעֶזֶר בֶּן עֲזַרְיָה. שֶׁמָּא לֹא יִמָּצֵא לוֹ זֶבֶל וְנִמְצָא מֲזַבֵּל אֶת אוֹתוֹ מָקוֹם. פָּתַר לָהּ פָּתָר חוֹרָן בְּשֶׁהָיָה לוֹ דָבָר מוּעָט בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ עֶרֶב שְׁבִיעִית וְהוּא מְבַקֵּשׁ לְהוֹצִיאוֹ לְתוֹךְ שָׂדֵהוּ בִשְׁבִיעִית הֲרֵי זֶה מוֹסִיף עָלָיו וְהוֹלֵךְ. מִשֶּׁפָּסְקוּ עוֹבְדֵי עֲבוֹדָה רִבִּי לָעְזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹסֵר. מַה טַעְמָא דְרִבִּי לָעְזָר בֶּן עֲזַרְיָה. שֶׁמָּא לֹא יִמָּצֵא לֹו זֶבֶל וְנִמְצָא מֲזַבֵּל אֶת אוֹתוֹ מָקוֹם. וְלֹא כְבָר הוּא מְזוּבָּל מֵעֶרֶב שְׁבִיעִית. רִבִּי בָּא רִבִּי יִרְמְיָה רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיה בְשֵׁם רִבִּי בָּא בַּר מָמָל. מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן עַד שֶׁיּוֹצִיא עֶשֶׂר מַשְׁפֵּלוֹת כְּאַחַת. וְלֵית לְרַבָּנִין מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן. אָמַר רִבִּי אִידִי דְּחוּטְרָא סַלּוֹ וּמַגְרֵיפוֹ מוֹכִיחִין עָלָיו שֶׁהוּא עוֹשֶׂה אַשְׁפָּה.

Halachá: Explicou-a (a Mishná, quanto ao caso de pouca quantidade) com duas explicações. Quando tinha ele pouca quantidade dentro do seu campo já durante o ano sabático, eis que vai acrescentando a ela aos poucos; desde que cessarem os que trabalham a terra, Rabi Elazar ben Azariá proíbe. Qual é o fundamento de Rabi Elazar ben Azariá? Para que não aconteça de não se encontrar mais esterco para ele, e venha a adubar aquele mesmo lugar (escondendo a adubação sob a aparência de um monte já existente). Explicou-a com outra explicação: quando tinha ele pouca quantidade dentro de sua casa na véspera do ano sabático, e deseja retirá-la para dentro do seu campo já durante o ano sabático, eis que vai acrescentando a ela aos poucos; desde que cessarem os que trabalham a terra, Rabi Elazar ben Azariá proíbe. Qual é o fundamento de Rabi Elazar ben Azariá? Para que não aconteça de não se encontrar mais esterco para ele, e venha a adubar aquele mesmo lugar. (Objetou-se:) Mas não está ele já adubado desde a véspera do ano sabático? Rabi Ba, Rabi Yirmeya, Rabi Bun bar Chiya, em nome de Rabi Ba bar Mamal (responderam): por causa da aparência, até que retire dez cestas de uma só vez. E não têm os sábios (essa mesma preocupação) por causa da aparência? Disse Rabi Idi: seu bastão, seu cesto e sua enxada o comprovam, que ele está fazendo um monturo (e não adubando às escondidas).

03O canal de irrigação e a comparação entre as duas razões da aparência
Yerushalmi · Sheviit 3:2
רִבִי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי בּוּן אָמַר אִילֵּין שְׁמוּעָתָא דְּהָכָא דְּתַנִּינָן. רִבִּי לָעְזָר בֶּן עֲזַרְיָה אָמַר אֵין עוֹשִׂין אֶת הָאַמָּה בַתְּחִילָּה בְּמוֹעֵד וּבַשְּׁבִיעִית. אָמַר רִבִּי זְעִירָא מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַכְשִׁיר אֶת צְדָדֵיהָ לִזְרִיעָה. רִבִּי יִרְמְיָה רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיה בְשֵׁם רִבִּי בָּא בַּר מָמָל מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן. הֲווֹן בָּעֵי מֵימַר מָאן דְּאָמַר תַּמָּן מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן וְהָכָא מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן. מָאן דְּאָמַר מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַכְשִׁיר אֶת צְדָדֵיהָ לִזְרִיעָה הָכָא מַאי אִית לָךְ לְמֵימַר. לֵית לָךְ אֶלָּא כְּהָדָא שֶׁמָּא לֹא יִמָּצֵא לוֹ זֶבֶל וְנִמְצָא מֲזַבֵּל אֶת אוֹתוֹ מָקוֹם. מַה נְפַק מִבֵּינֵיהוֹן. חָפַר לַעֲשׂוֹת אַמָּה שֶׁל בִּנְיַין. הֲווֹן בָּעֵי מֵימַר מָאן דְּאָמַר תַּמָּן מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן וְהָכָא מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן. וּמָאן דְּאָמַר תַּמָּן מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַכְשִׁיר צְדָדֵיהָ לִזְרִיעָה הֲרֵי אֵינוֹ מַכְשִׁיר צְדָדֶיהֵ לִזְרִיעָה. הַכֹּל מוֹדִין שֶׁאִם הָיָה לוֹ שָׁם סִיד אוֹ צְרוֹרוֹת אוֹ אֲבָנִים אוֹ גִיפְּסוֹס מוּתָּר.

Halachá: Disse Rabi Yossei bei Rabi Bun: estas tradições que ensinamos aqui (sobre a aparência, cabe compará-las com outro caso): Rabi Elazar ben Azariá disse: não se abre o canal de irrigação pela primeira vez nem no meio-festival (Chol HaMoed) nem no ano sabático. Disse Rabi Ze'ira: porque isso torna aptos os seus lados para a semeadura (ao escavar o canal, prepara-se involuntariamente a terra ao redor para o plantio, o que é proibido). Rabi Yirmeya, Rabi Bun bar Chiya, em nome de Rabi Ba bar Mamal (deram outro motivo): por causa da aparência. Quiseram dizer: aquele que diz ali (sobre os monturos) "por causa da aparência" e aqui (sobre o canal) "por causa da aparência" — referem-se ao mesmo motivo; mas aquele que diz "porque isso torna aptos os seus lados para a semeadura" — aqui (no caso dos monturos), o que tens tu a dizer? Não tens senão isto: para que não aconteça de não se encontrar mais esterco para ele, e venha a adubar aquele mesmo lugar. Qual a diferença prática entre as duas razões? Quando (o homem) cavou para fazer um canal de construção (não de irrigação, cujos lados não ficam aptos para semeadura). Quiseram dizer: aquele que diz ali "por causa da aparência" e aqui "por causa da aparência" (concordam neste caso); mas aquele que diz ali "porque isso torna aptos os seus lados para a semeadura" — eis que este (canal de construção) não torna aptos os seus lados para a semeadura (e deveria ser permitido, segundo essa razão). Todos concordam que, se havia ali cal, seixos, pedras ou gesso, é permitido (pois nada disso serve de adubo, e não há razão para suspeita).

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Guimel de Massechet Sheviit, que continua o tema aberto em 3:1. A Mishná fixa que um homem faz em seu campo três monturos por bet-se'á — mais do que isso é proibido, segundo Rabi Shimon —, enquanto os sábios preferem o critério de profundidade ou altura: até que aprofunde ou eleve três palmos. O mesmo critério vale para quando o homem guarda o próprio esterco como depósito, segundo Rabi Meir, e para o caso de quem tinha pouca quantidade de esterco e vai acrescentando a ela aos poucos, com Rabi Elazar ben Azariá proibindo isso desde que cessem os trabalhadores da terra, salvo sobre a rocha.

A guemará explica, com Rabi Yirmeya, por que a mesma medida de três monturos foi ensinada duas vezes — uma vez quanto a reduzir o número de cestas por monturo, outra quanto a fazer pela medida padrão —, e discute a opinião dos sábios sobre fazer mais do que essa medida. Em seguida, oferece duas explicações para o caso de pouca quantidade de esterco — seja já dentro do campo, seja ainda dentro de casa na véspera do ano sabático —, ambas apoiadas no receio de Rabi Elazar ben Azariá de que falte esterco e se acabe adubando às escondidas o mesmo lugar; a essa preocupação responde-se fixando em dez cestas de uma só vez a medida contra a aparência, com Rabi Idi notando que as ferramentas do trabalhador já denunciam que ele está fazendo um monturo. Fecha comparando essa razão da aparência com a de Rabi Elazar ben Azariá sobre não abrir pela primeira vez um canal de irrigação no meio-festival ou no ano sabático — por tornar aptos os seus lados para a semeadura —, distinguindo os dois motivos no caso de um canal de mera construção, e concluindo que cal, seixos, pedras ou gesso são sempre permitidos, por não servirem de adubo.