Talmud Yerushalmi · Massechet Sheviit · Perek Chet · Halachá 4
הָאוֹמֵר לַפּוֹעֵל

O trabalhador contratado para colher verdura, e as leis da obscuridade

Perek Chet, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Sheviit

Quarta halachá do Perek Chet de Massechet Sheviit. A Mishná ensina que, se alguém diz ao trabalhador contratado: "toma este issar e colhe para mim verdura hoje", seu salário é permitido; mas se diz "colhe para mim, com ele, verdura hoje", seu salário é proibido — e trata de quem compra do padeiro um pão prometendo pagar com a verdura que colherá no campo, permitido, em contraste com quem compra silenciosamente, que não pode pagar com o dinheiro do sétimo ano, pois não se paga dívida com ele. A guemará explora a diferença entre as duas fórmulas do trabalhador como uma das leis da obscuridade (עִימְעוּם), comparando-a com dois casos paralelos: levar frutos a Jerusalém "para repartir" ou para "comer e beber" ali, e pedir emprestadas jarras de vinho e azeite sem usar o verbo formal de empréstimo; discute o pão e os cozidos dos gentios, cuja permissão contraria a lógica esperada e por isso também se explica pela obscuridade, sendo finalmente justificada pela necessidade vital; traz a disputa entre Rabi Shimon ben Lakish, para quem mostrar ao trabalhador o lugar da colheita reduz o pagamento a mero salário de deslocamento, e Rabi Yochanan, para quem mesmo sem mostrar já se considera como mostrado, com duas baraitot que desafiam cada uma dessas opiniões — incluindo o caso do levita que recebe o dízimo — resolvidas pela leniência peculiar ao sétimo ano, por ser este de instituição rabínica; e fecha com a disputa entre Rabi Yehuda e Rabi Nechemia, que proíbem pagar o padeiro com verdura ainda não colhida por ela não ser abundante no campo, e os sábios, que permitem por ser abundante.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הָאוֹמֵר לַפּוֹעֵל הֵילָךְ אִיסוּר זֶה וְלַקֵּט לִי יֶרֶק הַיּוֹם שְׂכָרוֹ מוּתָּר. לַקֵּט לִי בּוֹ יֶרֶק הַיּוֹם שְׂכָרוֹ אָסוּר. לָקַח מִן הַנַּחְתּוֹם כִּכָּר בְּפוֹנְדִיּוֹן כְּשֶׁאֶלְקוֹט יַרְקוֹת שָׂדֶה אָבִיא לָךְ מוּתָּר. לָקַח מִמֶּנּוּ סְתָם לֹא יְשַׁלֵּם מִדְּמֵי שְׁבִיעִית שֶׁאֵין פּוֹרְעִין חוֹב מִדְּמֵי שְׁבִיעִית.

Mishná: Se alguém diz ao trabalhador contratado: "toma este issar (pequena moeda) e colhe para mim verdura hoje" — seu salário é permitido (fica profano, não santificado pelo sétimo ano). "Colhe para mim, com ele, verdura hoje" — seu salário é proibido (adquire a santidade do produto do sétimo ano). Se alguém comprou do padeiro um pão por um pondion (moeda de valor intermediário), dizendo: "quando eu colher verduras do campo, trarei a ti" — isso é permitido. Se comprou dele silenciosamente (sem especificar a forma de pagamento), não deve pagar com o dinheiro do sétimo ano, pois não se paga dívida com o dinheiro do sétimo ano.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01A diferença entre "colhe para mim" e "colhe para mim com ele": três leis da obscuridade
Yerushalmi · Sheviit 8:4
מַה בֵּין הָאוֹמֵר לַקֵּט לִי מַה בֵּין הָאוֹמֵר לַקֵּט לִי בּוֹ. רִבִּי אָבִין בְשֵׁם רִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָה מֵהִלְכוֹת שֶׁל עִימְעוּם הִיא. תַּמָּן תַּנִּינָן לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵירוֹ הַעַל אֶת הַפֵּירוֹת הָאֵלֶּה לִירוּשָׁלֵם לְחַלֵּק. אֶלָּא אוֹמֵר לוֹ הַעֲלֵם שֶׁנֹּאכְלֵם וְנִשְׁתֵּם בִּירוּשָׁלֵם. מַה בֵּין הָאוֹמֵר לְחַלֵּק מַה בֵּין הָאוֹמֵר הַעֲלֵם שֶׁנֹּאכַל וְנִשְׁתֶּה בִּירוּשָׁלֵם. רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן מֵהִלְכוֹת שֶׁל עִימְעוּם הוּא. תַּמָּן תַּנִּינָן שׁוֹאֵל אָדָם מֵחֲבֵירוֹ כַדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן. וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֹאמַר לוֹ הַלְוֵנִי. מַה בֵּין הָאוֹמֵר הַלְוֵינִי מַה בֵּין הָאוֹמֵר הַשְׁאִילֵינִי. אָמַר רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן מֵהִלְכוֹת שֶׁל עִימְעוּם הִיא.

Halachá: Qual é a diferença entre aquele que diz "colhe para mim" e aquele que diz "colhe para mim, com ele"? Rabi Avin, em nome de Rabi Yosei ben Chanina: é uma das leis da obscuridade (עִימְעוּם — fórmula deliberadamente ambígua que os sábios toleraram por necessidade prática, ainda que sua lógica interna não seja transparente). Lá ensinamos: não diga um homem a seu companheiro "leva estes frutos a Jerusalém para repartir", mas diga-lhe "leva-os para que os comamos e bebamos em Jerusalém". Qual é a diferença entre aquele que diz "para repartir" e aquele que diz "leva-os para que comamos e bebamos em Jerusalém"? Rabi Zeira, em nome de Rabi Yonatan: é uma das leis da obscuridade. Lá ensinamos: pode um homem pedir emprestadas ao companheiro jarras de vinho e jarras de azeite, contanto que não lhe diga "empresta-me (halveni, verbo formal de empréstimo com juros implícitos de reciprocidade)". Qual é a diferença entre aquele que diz "empresta-me" e aquele que diz "dá-me emprestado (hashilени, verbo alternativo)"? Disse Rabi Zeira em nome de Rabi Yonatan: é uma das leis da obscuridade.

02O pão e os cozidos dos gentios, permitidos por necessidade vital
Yerushalmi · Sheviit 8:4
פִּיתָּן רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן עוֹד הִיא מֵהִלְכוֹת שֶׁל עִימְעוּם. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי קַשְׁיָיתָהּ קוֹמֵי רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא. מַהוּ מֵהִלְכוֹת שֶׁל עִמְעוּם הוּא כָּךְ אֲנִי אוֹמֵר בְּמָקוֹם שֶׁאֵין פַּת יִשְׂרָאֵל מְצוּיָה בְּדִין הָיָה שֶׁתְּהֵא פַּת גּוֹי מוּתֶּרֶת וְעִימְעַמּוּ עָלֵיהָ וְאָסְרוּהָ. אָמַר רִבִּי מָנָא וְיֵשּׁ עִימְעוּם לְאִיסּוּר. וּפַת לֹא כְתַבְשִׁילֵי גוֹיִם הִיא. כָּךְ אָנוּ אוֹמְרִים בְּמָקוֹם שֶׁתַּבְשִׁילֵי יִשְׂרָאֵל אֵינָן מְצוּיִין שָׁם בְּדִין הָיָה שֶׁיְּהוּ תַבְשִׁילֵי גּוֹיִם מוּתָּרִין וְעִימְעַמּוּ עָלֵיהֶן וְאָסְרוּם. אֶלָּא כֵן הָיָה בְּמָקוֹם שֶׁאֵין פַּת יִשְׂרָאֵל מְצוּיָה בְּדִין הוּא שֶׁתְּהֵא פַּת גּוֹיִם אֲסוּרָה וְעִימְעַמּוּ עָלֵיהָ וְהִתִּירוּהָ מִפְּנֵי חַיֵּי נֶפֶשׁ. רַבָּנִין דְּקֵיסָרִין בְּשֵׁם רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא כְדִבְרֵי מִי שֶׁהוּא מַתִּיר וּבִלְבַד מִן הַפְּלָטֵר. וְלָא עָבְדִין כֵּן.

Halachá: O pão deles (dos gentios)Rabi Yaakov bar Acha em nome de Rabi Yonatan: também esta é uma das leis da obscuridade. Disse Rabi Yosei: levantei esta objeção diante de Rabi Yaakov bar Acha: por que haveria de ser uma das leis da obscuridade? Assim eu digo: no lugar onde não se encontra pão de judeu, seria lógico que o pão do gentio fosse permitido, mas obscureceram o assunto e o proibiram. Disse Rabi Mana: existe obscuridade para proibir? E o pão não é como os cozidos dos gentios? Assim dizemos: no lugar onde não se encontram os cozidos de judeu, seria lógico que os cozidos do gentio fossem permitidos, mas obscureceram o assunto e os proibiram. Mas assim foi: no lugar onde não se encontra pão de judeu, era lógico que o pão dos gentios fosse proibido, mas obscureceram o assunto e o permitiram por causa da sobrevivência (חַיֵּי נֶפֶשׁ — necessidade vital). Os rabinos de Cesareia, em nome de Rabi Yaakov bar Acha, seguem as palavras de quem permite, mas apenas o pão do padeiro comercial; e não se costuma agir assim (na prática, a permissão foi estendida além desse limite).

03Mostrar ao trabalhador o lugar da colheita: Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yochanan
Yerushalmi · Sheviit 8:4
רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר בְּמַרְאֶה לוֹ אֶת הַקּוֹלֵחַ שֶׁאֵינוֹ אֶלָּא כְּנוֹתֵן לוֹ שְׂכַר רַגְלוֹ. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר אֲפִילוּ לֹא הֶרְאָה לוֹ כְּמִי שֶׁהֶרְאָה לוֹ. מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל [רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן] לָקִישׁ. דְּתַנֵּי הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפּוֹעֵל לְהָבִיא יַיִן לְחוֹלֶה אוֹ תַפּוּחַ לְחוֹלֶה אִם הֵבִיא חַיָיב לִיתֵּן לוֹ וְאִם לָאו אֵינוֹ חַיָיב לִיתֵּן לוֹ. אֲבָל אִם אָמַר לוֹ יַיִן לְחוֹלֶה מִמָּקוֹם פְּלוֹנִי תַּפּוּחַ לְחוֹלֶה מִמָּקוֹם פְּלוֹנִי בֵּין שֶׁהֵבִיא בֵּין שֶׁלֹּא הֵבִיא חַיָיב לִיתֵּן לוֹ שְׂכַר רַגְלָיו הוּא נוֹתֵן לוֹ. מַה עֲבִד לָהּ רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ פָּתַר לָהּ בְּמַרְאֶה לוֹ. מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל רִבִּי יוֹחָנָן. דְּתַנֵּי לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵירוֹ הָא לָךְ דֵּינָר זֶה וַהֲבֵא לִי לֶקֶט הַיּוֹם. הֲבֵא לִי פֵּיאָה הַיּוֹם אֶלָּא אוֹמֵר לוֹ בְּלֶקֶט שֶׁתָּבִיא לִי הַיּוֹם בְּפֵיאָה שֶׁתָּבִיא לִי הַיּוֹם. וְכֵן אַתְּ מוֹצֵא בְּבֶן לֵוִי. וַהֲרֵי לֹא הֶרְאָה לוֹ וְאַתְּ אָמַר כְּמִי שֶׁהֶרְאָה לוֹ. מַה עֲבַד לָהּ רִבִּי יוֹחָנָן קַל הֵיקִלוּ בַּשְּׁבִיעִית שֶׁהִיא מִדְּרַבָּנָן.

Halachá: Rabi Shimon ben Lakish disse: quando lhe mostra o local de onde brota (o campo ou a vertente da qual o trabalhador há de colher), isso é apenas como dar-lhe o salário de seu deslocamento (pagamento pelo ir e vir, não pelo produto do sétimo ano em si). Rabi Yochanan disse: mesmo que não lhe tenha mostrado, é como se lhe tivesse mostrado. Uma baraita discorda de Rabi Shimon ben Lakish, pois foi ensinado: aquele que contrata um trabalhador para trazer vinho a um doente, ou uma maçã a um doente — se trouxe, deve pagar-lhe; se não trouxe, não deve pagar-lhe. Mas se lhe disse "vinho para um doente de tal lugar", "maçã para um doente de tal lugar", quer tenha trazido, quer não tenha trazido, deve pagar-lhe, pois lhe dá o salário de seus pés. O que faz Rabi Shimon ben Lakish com isso? Ele o resolve dizendo que se trata de quando lhe mostrou o lugar. Uma baraita discorda de Rabi Yochanan, pois foi ensinado: não diga um homem a seu companheiro "toma este dinar e traze-me espigas caídas hoje", "traze-me peá hoje", mas diga-lhe "pelas espigas caídas que me trouxeres hoje", "pela peá que me trouxeres hoje". E assim encontras também quanto ao levita (e o dízimo que lhe é devido). Ora, ali não lhe mostrou o lugar, e dizes que é como se lhe tivesse mostrado? O que faz Rabi Yochanan com isso? Foram leniente quanto ao sétimo ano, por ser ele de instituição rabínica.

04Rabi Yehuda e Rabi Nechemia proíbem, os sábios permitem
Yerushalmi · Sheviit 8:4
לָקַח מִן הַנַּחְתּוֹם כִּכָּר בְּפוֹנְדִיּוֹן כְּשֶׁאֶלְקוֹט יַרְקוֹת שָׂדֶה אָבִיא לָךְ מוּתָּר. תַּנֵּי רִבִּי יוּדָה וְרִבִּי נְחֶמְיֵה אוֹסְרִין. מַה נָן קַיָימִין כְּהַהוּא דְאָמַר הַב לִי וּבָרִי לִי אֲנָא יְהַב לָךְ רִבִּי יוּדָה וְרִבִּי נְחֶמְיָה אוֹסְרִין שֶׁאֵין יַרְקוֹת שָׂדֶה מְצוּיִין. וַחֲכָמִים מַתִּירִין מִפְּנֵי שֶׁיַּרְקוֹת שָׂדֶה מְצוּיִין.

Halachá: "Se alguém comprou do padeiro um pão por um pondion, dizendo: quando eu colher verduras do campo, trarei a ti — isso é permitido" (repetição da fórmula da Mishná). Foi ensinado: Rabi Yehuda e Rabi Nechemia proíbem. Do que estamos tratando? Daquele que diz: "dá-me, e quando estiver certo para mim eu te darei" (fórmula vaga, sem indicar onde ou quando encontrará a verdura)Rabi Yehuda e Rabi Nechemia proíbem, porque as verduras do campo não são abundantes. Mas os sábios permitem, porque as verduras do campo são abundantes.

Nota

Esta é a quarta halachá do Perek Chet de Massechet Sheviit. A Mishná ensina que, se alguém diz ao trabalhador contratado "toma este issar e colhe para mim verdura hoje", seu salário é permitido, mas se diz "colhe para mim com ele", seu salário é proibido; e trata de quem compra do padeiro um pão prometendo pagar com verdura ainda por colher.

A guemará explora a diferença entre as duas fórmulas do trabalhador como uma das leis da obscuridade, comparando-a com os casos paralelos de levar frutos a Jerusalém para repartir ou para comer e beber ali, e de emprestar jarras de vinho e azeite sem o termo formal de empréstimo; discute o pão e os cozidos dos gentios, permitidos por necessidade vital; traz a disputa entre Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yochanan sobre mostrar ao trabalhador o lugar da colheita, com duas baraitot que desafiam cada opinião; e fecha com a disputa entre Rabi Yehuda e Rabi Nechemia, que proíbem pagar o padeiro com verdura ainda não colhida por não ser ela abundante, e os sábios, que permitem por ser abundante.