No difamador há o que é para leniência e o que é para rigor: como assim? Tanto aquele que difamou a mais elevada no sacerdócio quanto a mais humilde em Israel, dá cem selá. Descobre-se que aquele que fala com sua boca é mais do que aquele que age com ação. Pois assim encontramos, que não foi selada a sentença sobre nossos pais no deserto senão por causa da maledicência, como está dito: e me tentaram estas dez vezes, e não ouviram a minha voz.
— Esta última mishná do Perek Guimel trata do quinto e último caso: o “difamador” (motzi shem ra), aquele que se casa com uma mulher e, depois, alega falsamente perante o tribunal que não a encontrou virgem, imputando-lhe assim uma falta que não cometeu. Também aqui a Torá fixa uma soma única e invariável — cem selá, o dobro da multa do estuprador e do sedutor —, paga tanto no caso da mulher mais nobre da linhagem sacerdotal quanto no da mais humilde em Israel. A mishná então extrai desta soma dobrada uma conclusão moral notável: já que aquele que apenas fala — sem tocar na vítima, sem realizar qualquer ato físico — paga o dobro do que paga aquele que efetivamente estuprou ou seduziu, segue-se que a palavra maliciosa é considerada, pela própria Torá, mais grave do que a ação. E a mishná traz uma prova histórica dessa gravidade: dentre todos os pecados cometidos por Israel no deserto — a idolatria do bezerro de ouro, as múltiplas queixas, as rebeliões —, a sentença final de morte no deserto, que impediu toda aquela geração de entrar na Terra Prometida, só foi selada por causa da maledicência (lashon hara) espalhada pelos espias, que trouxeram um relatório caluniador sobre a terra de Israel. É a esse episódio que se refere o versículo citado, no qual Deus enumera as dez vezes em que o povo O testou e não obedeceu à Sua voz — e é justamente após o relato difamatório dos espias que a sentença é finalmente selada.
Rambam explica que a mishná contrasta quem, por um ato concreto — o estuprador ou o sedutor —, faz uma mulher perder a virgindade e paga cinquenta selá, com quem apenas afirma verbalmente que ela não era virgem, que paga o dobro, cem selá, além de sofrer açoites por difamação. E traz a prova bíblica: embora o povo já tivesse cometido outros pecados antes do episódio dos espias, a sentença de morte no deserto só foi selada por causa da maledicência, como está dito que trouxeram um relatório difamatório sobre a terra.
Bartenura confirma que a comparação é exata: quem apenas diz “não a encontrei virgem” paga cem selá, enquanto o estuprador, que efetivamente tirou a virgindade por meio de um ato, paga apenas cinquenta. Sobre “sentença”, esclarece que se trata do decreto de não entrar na Terra de Israel. E sobre “estas dez vezes”, observa que a expressão está escrita especificamente a respeito dos espias, o que indica que foi precisamente ali que a sentença foi selada.
Rashi explica que a mishná demonstra que quem apenas fala é mais grave do que quem age, pois paga cem selá, enquanto quem efetivamente estuprou uma virgem paga apenas cinquenta. Identifica a “sentença” mencionada como o decreto que impediu aquela geração de entrar na Terra de Israel. E confirma que a expressão “estas dez vezes” está escrita especificamente no contexto dos espias, indicando que foi ali, por causa de sua maledicência, que a sentença final foi selada.