Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Zayin · Mishná 3 de 5

Quem resgatou o campo por último: as quatro cadeias de posse até o Jubileu

הִקְדִּישָׁהּ וּגְאָלָהּ, אֵינָהּ יוֹצְאָה מִיָּדוֹ בַּיּוֹבֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quatro cenários de resgate do sde achuzá e seu destino no Jubileu: o dono e seu filho mantêm o campo; um terceiro ou parente que o resgatou, seguido pelo resgate do próprio dono, também o mantém; mas um sacerdote que o resgatou não pode reivindicá-lo só para si — sai igualmente para todos os seus irmãos sacerdotes

Consagrou-a e a resgatou: ela não sai de sua mão no Jubileu. Se seu filho a resgatou, ela sai para seu pai no Jubileu. Se outro ou um dos parentes a resgatou, e ele a resgatou da mão dele: ela não sai de sua mão no Jubileu. Se um dos sacerdotes a resgatou, e eis que ela está sob sua mão, não diga: já que ela sai para os sacerdotes no Jubileu, e eis que está sob minha mão — eis que é minha; mas sai para todos os seus irmãos sacerdotes.

— Esta mishná trata do destino do sde achuzá no momento do Jubileu, conforme a cadeia de quem o resgatou do Templo. A regra bíblica de base é que um campo consagrado e não resgatado sai, no Jubileu, para os sacerdotes; mas se alguém o resgatou antes disso, ele permanece nas mãos de quem o resgatou, sem retornar ao sacerdócio. A mishná examina quatro cenários. No primeiro, o próprio dono consagra e depois resgata seu campo: como ele nunca perdeu o vínculo original com a terra herdada, o campo simplesmente permanece seu, sem qualquer efeito do Jubileu. No segundo, é o filho quem resgata o campo consagrado pelo pai: como o filho está em posição jurídica equivalente à do próprio pai quanto a esse campo, ele sai para o pai no Jubileu — e não para os sacerdotes, pois um filho não é considerado “outra pessoa” para este efeito. No terceiro, um estranho ou parente resgata o campo do Templo, e depois o próprio dono original o resgata desse resgatador: o campo permanece com o dono, pois a cadeia de resgate, ainda que passando por mãos intermediárias, terminou nele. O quarto cenário é o mais delicado: se um sacerdote resgatou o campo do Templo — como qualquer outra pessoa poderia fazer — ele não pode argumentar que, já que o campo estava destinado a ir para os sacerdotes de qualquer forma, e agora está em sua posse, ele o mantenha só para si. Ao contrário: precisamente porque o campo sairia para todos os sacerdotes coletivamente, ele deve, no Jubileu, ser dividido entre todos os seus irmãos sacerdotes, e não ficar retido por aquele que por acaso o resgatou primeiro.

הִקְדִּישָׁהּ וּגְאָלָהּ, אֵינָהּ יוֹצְאָה מִיָּדוֹ בַּיּוֹבֵל. גְּאָלָהּ בְּנוֹ, יוֹצְאָה לְאָבִיו בַּיּוֹבֵל. גְּאָלָהּ אַחֵר אוֹ אֶחָד מִן הַקְּרוֹבִים וּגְאָלָהּ מִיָּדוֹ, אֵינָהּ יוֹצְאָה מִיָּדוֹ בַּיּוֹבֵל. גְּאָלָהּ אֶחָד מִן הַכֹּהֲנִים וַהֲרֵי הִיא תַּחַת יָדוֹ, לֹא יֹאמַר הוֹאִיל וְהִיא יוֹצְאָה לַכֹּהֲנִים בַּיּוֹבֵל וַהֲרֵי הִיא תַּחַת יָדִי, הֲרֵי הִיא שֶׁלִּי, אֶלָּא יוֹצְאָה לְכָל אֶחָיו הַכֹּהֲנִים:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 27:20–21
וְאִם לֹא יִגְאַל אֶת הַשָּׂדֶה, וְאִם מָכַר אֶת הַשָּׂדֶה לְאִישׁ אַחֵר, לֹא יִגָּאֵל עוֹד. וְהָיָה הַשָּׂדֶה בְּצֵאתוֹ בַיֹּבֵל קֹדֶשׁ לַיהֹוָה, כִּשְׂדֵה הַחֵרֶם, לַכֹּהֵן תִּהְיֶה אֲחֻזָּתוֹ.
“E se não resgatar o campo, ou se vender o campo a outro homem, não se resgatará mais. E o campo, quando sair no Jubileu, será santo ao Eterno, como campo consagrado por herem; ao sacerdote pertencerá sua posse.”
A Guemará interpreta a expressão “a outro homem” (le’ish acher) como excluindo especificamente o filho: quem vende ou perde o campo consagrado “a outro homem” não pode mais resgatá-lo, mas se é o filho quem o resgata do Templo, ele está em posição equiparada à do próprio pai — não sendo “outro” para este efeito — de modo que o campo retorna ao pai no Jubileu, e não sai para os sacerdotes. Já a frase “ao sacerdote pertencerá sua posse” (la’kohen tihyeh achuzato) é lida como “a posse que já é dele por herança” — e não um campo que ele adquiriu por resgate — fundamentando a regra de que o sacerdote que resgata o campo do Templo não pode reivindicá-lo como propriedade pessoal, devendo dividi-lo com todos os seus irmãos sacerdotes quando chegar o Jubileu.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 7:3
הקדישה וגאלה, אינה יוצאה מידו ביובל כו': ביאור הדין הזה דרך קצרה, שהמקדיש שדה אחוזה, אם רצה גואל אותה הוא או בנו; ואם גאל אותה אחר או שאר קרובים מיד ההקדש, וחזר הוא וגאל אותה מיד הקרוב ההוא או הזר — הרי זו תתקיים בידו קרקע שלו בכל אלו הד' פנים. ואם לא פדה אותו לא הוא ולא בנו, אלא עמדה בלא פדיון עד שהגיע היובל, או גאל אותה זר או שאר קרובים ולא גאל אותה הוא מידם אלא עמדה תחת יד הזר ההוא או הקרוב עד שהגיע היובל — הרי זו אינה חוזרת לבעליה, ואינה מתחלטת ביד הזר ההוא או הקרוב ההוא, אלא תצא להקדש.

Rambam resume o princípio de forma sucinta: quem consagra um sde achuzá pode resgatá-lo, ele mesmo ou seu filho; e se um estranho ou parente o resgatou primeiro do Templo, e depois o próprio dono o resgatou desse intermediário, o campo se mantém como propriedade sua nesses quatro cenários. Mas se nem ele nem seu filho o resgataram — permanecendo consagrado até o Jubileu, ou resgatado por um estranho ou parente sem que o dono o resgatasse de volta deles — o campo não retorna ao dono original, nem se torna propriedade definitiva de quem o resgatou por último; ele sai para o Templo (e daí para os sacerdotes), conforme a Torá determina.

Bartenura · Arachin 7:3
אֵינָהּ יוֹצְאָה מִיָּדוֹ בַּיּוֹבֵל. לִהְיוֹת מִתְחַלֶּקֶת לַכֹּהֲנִים, כִּי הֵיכִי דְּאִי הֲוָה פָרִיק לַהּ אֱינַשׁ אַחֲרִינָא דַּהֲוָה נַפְקָא בַּיּוֹבֵל וּמִתְחַלֶּקֶת לַכֹּהֲנִים: גְּאָלָהּ בְּנוֹ יוֹצְאָה לְאָבִיו בַּיּוֹבֵל. וְלֹא לַכֹּהֲנִים, דִּכְתִיב "וְאִם מָכַר אֶת הַשָּׂדֶה לְאִישׁ אַחֵר לֹא יִגָּאֵל עוֹד" — לְאִישׁ אַחֵר, וְלֹא לַבֵּן: גְּאָלָהּ אֶחָד מִקְּרוֹבָיו. שֶׁל מַקְדִּישׁ מִיַּד הַגִּזְבָּר, וּבָא הַמַּקְדִּישׁ וּגְאָלָהּ מִיַּד קְרוֹבוֹ, אֵינָהּ יוֹצְאָה מִיַּד הַמַּקְדִּישׁ בַּיּוֹבֵל: גְּאָלָהּ כֹּהֵן. מִיַּד גִּזְבָּר: לֹא יֹאמַר הוֹאִיל. וְאִם גְּאָלָהּ יִשְׂרָאֵל יוֹצְאָה לִי וְלַחֲבֵרַי בַּיּוֹבֵל, עַכְשָׁיו שֶׁהִיא תַּחַת יָדִי שֶׁגְּאַלְתִּיהָ אֵין לְךָ כֹהֵן רָאוּי לָהּ יוֹתֵר מִמֶּנִּי:

Bartenura explica que o campo não sai da mão do dono no Jubileu para ser dividido entre os sacerdotes, exatamente como aconteceria se outra pessoa o resgatasse: assim como aquele resgate faria o campo sair no Jubileu para se dividir entre os sacerdotes, o resgate do próprio dono cumpre esse papel e encerra o processo. Sobre o filho, esclarece que o campo sai para o pai, e não para os sacerdotes, porque o verso “a outro homem” exclui expressamente o filho. Sobre o parente, explica que se um parente do consagrante resgatou o campo do tesoureiro do Templo, e depois o próprio consagrante o resgatou de seu parente, o campo não sai da mão do consagrante no Jubileu. E sobre o sacerdote que resgata, explica a lógica que a mishná rejeita: ele não pode dizer que, se um israelita comum tivesse resgatado o campo, este sairia no Jubileu para ele e para seus colegas sacerdotes de qualquer forma — e que, agora que está sob sua própria posse por tê-lo resgatado, não há sacerdote mais apto a recebê-lo do que ele mesmo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 25a–25b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' אינה יוצאה מידו ביובל — להיות מתחלקת לכהנים, כי היכי דהוה אי פריק לה איניש אחרינא דהוה נפקא ביובל ומתחלקת לכהנים, כדכתיב "והיה השדה בצאתו ביובל" וגו': גאלה בנו יוצאה לאביו ביובל — ולא לכהנים, כדיליף בברייתא בגמרא: גאלה אחד מקרוביו — מיד גזבר, ובא המקדיש וגאלה מיד קרובו, יוצאה ביובל ומתחלקת לכהנים כי היכי דהוה נפיק מידיה דההוא קרוב דאתי האי מחמתיה: גאלה כהן — מיד גזבר, לא יאמר הואיל ואם גאלה ישראל היתה יוצאה לי ולחביריי ביובל, ועכשיו שהרי היא תחת ידי שגאלתיה, אין לך כהן גדול ממני.

Rashi explica, cláusula por cláusula, o mecanismo de cada cenário. Sobre o dono que resgata seu próprio campo, esclarece que o motivo de o campo não sair é que, se outra pessoa o tivesse resgatado, ele sairia no Jubileu para se dividir entre os sacerdotes — e o resgate do dono simplesmente evita essa saída. Sobre o filho, remete à derivação da baraita na Guemará, que exclui o filho da categoria de “outro homem”. Quanto ao parente, Rashi nota algo sutil: se um parente resgatou o campo do tesoureiro, mas o próprio consagrante não o resgatou de volta desse parente, o campo sai no Jubileu e se divide entre os sacerdotes — exatamente como sairia da mão daquele parente, já que este chegou à posse do campo por causa do consagrante original. E sobre o sacerdote que resgata, Rashi expõe o raciocínio que a mishná rejeita como ilegítimo: o sacerdote não pode argumentar que, já que o campo sairia para ele e seus colegas de qualquer forma se um israelita o tivesse resgatado, e agora está sob sua própria mão porque ele mesmo o resgatou, não há sacerdote mais apto que ele para ficar com o campo inteiro.