Seder Nezikin · Massechet Bava Kamma · Perek Yud · Mishná 4 de 10

Este veio com seu barril de vinho, e aquele com sua jarra de mel

זֶה בָּא בְחָבִיתוֹ שֶׁל יַיִן וְזֶה בָּא בְכַדּוֹ שֶׁל דְּבַשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do resgate espontâneo de bens alheios em perigo, à custa de sacrificar os próprios bens: em dois cenários paralelos — o barril de mel que racha e o rio que arrasta dois jumentos —, quem salva o bem mais valioso do próximo, sacrificando o próprio, recebe apenas o pagamento por seu trabalho; mas se houve acordo prévio explícito de compensação pelo bem sacrificado, o dono do bem salvo deve pagar o valor integral.

Este veio com seu barril de vinho, e aquele veio com sua jarra de mel. Rachou o barril de mel, e este derramou seu vinho e salvou o mel para dentro dele — não tem senão seu salário.Quando dois viajantes se encontram e o recipiente de mel de um deles racha, se o dono do vinho espontaneamente esvazia seu próprio vinho — de menor valor — para usar o barril vazio como recipiente e salvar o mel — de maior valor —, ele age por iniciativa própria, sem pedido explícito. Por isso, embora tenha prestado um serviço real, ele só tem direito ao pagamento pelo trabalho de resgate, não ao valor do vinho que sacrificou, pois ninguém lhe pediu para arruinar sua própria mercadoria.

Mas se disse "salvarei o que é teu, e tu me dás o valor do que é meu" — é obrigado a lhe dar.Quando há um acordo explícito prévio — o dono do vinho propõe salvar o mel em troca do reembolso integral do vinho perdido, e o dono do mel aceita —, a relação deixa de ser um gesto espontâneo e se torna um contrato vinculante: o dono do mel salvo deve pagar o valor total do vinho sacrificado, não apenas o salário do trabalho.

Um rio arrastou seu jumento e o jumento do próximo — o dele valia cem dinares e o do próximo duzentos; este abandonou o seu e salvou o do próximo — não tem senão seu salário.O mesmo princípio se aplica a um segundo cenário: quando um rio arrasta dois jumentos de valores diferentes, e o dono do jumento mais barato o abandona à própria sorte para salvar o jumento mais valioso do próximo, ele age espontaneamente — e por isso só recebe o pagamento pelo esforço de resgate, não o valor de seu próprio jumento perdido.

Mas se lhe disse: "salvarei o teu, e tu me dás o meu" — é obrigado a lhe dar.Assim como no caso do mel e do vinho, um acordo explícito prévio transforma a operação em compromisso vinculante: se houve proposta clara de resgate em troca de compensação integral, o dono do jumento mais valioso deve pagar ao resgatador o valor completo do jumento que este sacrificou.

זֶה בָּא בְחָבִיתוֹ שֶׁל יַיִן וְזֶה בָּא בְכַדּוֹ שֶׁל דְּבַשׁ. נִסְדְּקָה חָבִית שֶׁל דְּבַשׁ, וְשָׁפַךְ זֶה אֶת יֵינוֹ וְהִצִּיל אֶת הַדְּבַשׁ לְתוֹכוֹ, אֵין לוֹ אֶלָּא שְׂכָרוֹ. וְאִם אָמַר, אַצִּיל אֶת שֶׁלְּךָ וְאַתָּה נוֹתֵן לִי דְּמֵי שֶׁלִּי, חַיָּב לִתֵּן לוֹ. שָׁטַף נָהָר חֲמוֹרוֹ וַחֲמוֹר חֲבֵרוֹ, שֶׁלּוֹ יָפֶה מָנֶה וְשֶׁל חֲבֵרוֹ מָאתַיִם, הִנִּיחַ זֶה אֶת שֶׁלּוֹ וְהִצִּיל אֶת שֶׁל חֲבֵרוֹ, אֵין לוֹ אֶלָּא שְׂכָרוֹ. וְאִם אָמַר לוֹ, אֲנִי אַצִּיל אֶת שֶׁלְּךָ וְאַתָּה נוֹתֵן לִי אֶת שֶׁלִּי, חַיָּב לִתֵּן לוֹ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a mishná precisou ensinar os dois casos paralelos, e não apenas um; Bartenura resume o princípio do "salário" como composto de aluguel do utensílio e pagamento pelo esforço.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Kamma 10:4
אִלּוּ הִשְׁמִיעָנוּ הַדִּין בְּחָבִית שֶׁל יַיִן בִּלְבַד הָיִינוּ אוֹמְרִים כְּגוֹן זֶה הוּא שֶׁכְּשֶׁפֵּירֵשׁ עָלָיו נוֹתֵן לוֹ דְּמֵי יֵינוֹ, אֲבָל חֲמוֹרוֹ וַחֲמוֹר חֲבֵרוֹ שֶׁאֵינוֹ עוֹשֶׂה מַעֲשֶׂה בְּיָדוֹ לֹא... לְפִיכָךְ הוֹדִיעָנוּ שֶׁהַדִּין בִּשְׁנֵי הַמַּעֲשִׂים אֶחָד, וְשֶׁלֹּא נֹאמַר בָּזֶה מְשַׂטֶּה אֲנִי בְךָ, לְפִי שֶׁבִּשְׁבִילוֹ הִנִּיחַ מָמוֹנוֹ וְנִתְעַסֵּק בְּשֶׁלּוֹ לֶאֱסוֹף מַה שֶּׁאָבַד

Rambam explica a necessidade pedagógica de ensinar os dois casos separadamente: se a mishná tivesse ensinado apenas o caso do vinho e do mel, poderíamos pensar que só ali, onde houve ação ativa e direta (derramar o próprio vinho com as próprias mãos), o acordo prévio obriga o pagamento integral — mas no caso dos jumentos, onde a "ação" é apenas abandonar passivamente o próprio animal, talvez não se aplicasse a mesma regra. E se a mishná tivesse ensinado apenas o caso dos jumentos, poderíamos pensar o oposto — que só ali, onde a perda ocorre "por si mesma" (o rio simplesmente leva o animal abandonado), vale a regra de que sem acordo prévio só se recebe o salário; mas no caso do vinho, onde há destruição ativa com as próprias mãos, talvez se devesse pagar o valor total mesmo sem acordo prévio. Por isso a mishná ensina ambos os casos: a regra é a mesma nos dois — e não se pode alegar que o acordo prévio foi apenas brincadeira, pois foi exatamente por causa do dono do bem mais valioso que o resgatador sacrificou o seu próprio patrimônio.

Bartenura · Bava Kamma 10:4
אֵין לוֹ אֶלָּא שְׂכָרוֹ. שְׂכַר כְּלִי וּשְׂכַר פְּעֻלָּה

Bartenura resume de forma concisa o que compõe o "salário" a que o resgatador espontâneo tem direito, na ausência de acordo prévio: o aluguel pelo uso do próprio recipiente (o barril que serviu para recolher o mel) somado ao pagamento pelo esforço físico do trabalho de resgate — mas nunca o valor do bem sacrificado em si.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 115b), comentando diretamente a expressão central da mishná sobre o salário do resgatador.

Rashi · · רש״י
Bava Kamma 115b, s.v. אין לו אלא שכרו
אֵין לוֹ אֶלָּא שְׂכָרוֹ - שְׂכַר כְּלִי וּשְׂכַר פְּעֻלָּה

Rashi glosa a expressão central da mishná exatamente como Bartenura a resumiria mais tarde: o "salário" a que o resgatador espontâneo tem direito compreende dois componentes — o aluguel do próprio utensílio usado no resgate, e o pagamento pelo trabalho físico realizado — mas em nenhuma hipótese o valor do bem que ele próprio decidiu sacrificar por iniciativa unilateral.