Quem compra um animal do gentio, e não se sabe se ela já pariu ou se não pariu — Rabi Yishmael diz: uma cabra em seu primeiro ano, certamente para o sacerdote; daqui em diante, é dúvida. Uma ovelha em seu segundo ano, certamente para o sacerdote; daqui em diante, é dúvida. Uma vaca e uma jumenta em seu terceiro ano, certamente para o sacerdote; daqui em diante, é dúvida.
— A mishná abre o Perek Guimel com o caso de quem adquire de um gentio um animal fêmea sem qualquer informação sobre seu histórico reprodutivo. Se o macho que ela vier a parir for, de fato, o primeiro filhote de sua vida, ele é peter rechem — primogênito, pertencente ao sacerdote; se a fêmea já pariu antes, esse macho não tem qualquer santidade. Rabi Yishmael propõe um critério objetivo baseado na idade: como cada espécie tem uma idade mínima de gestação, um animal jovem o bastante simplesmente não teve tempo de parir antes — e por isso o filhote é certamente do sacerdote. Passada essa idade-limite (um ano para a cabra, dois para a ovelha, três para a vaca e a jumenta), já não há certeza, pois o animal pode ou não ter parido nesse intervalo, e o caso vira dúvida.
Rabi Akiva lhe disse: se apenas pelo nascimento de um filhote um animal se isentasse, seria como dizes; mas disseram: o sinal do parto, num animal miúdo, é a secreção; e num graúdo, a placenta; e numa mulher, o saco fetal e a placenta. Esta é a regra: todo o que se sabe que já pariu, não há aqui nada para o sacerdote; e todo o que não pariu, eis que este é para o sacerdote. Se há dúvida, será comido, com sua mácula, pelos donos.
— Rabi Akiva rejeita o critério puramente etário de Rabi Yishmael: mesmo dentro da idade que este considera “certamente” sem parto anterior, o animal pode ter expelido um sinal físico de gestação interrompida — nos animais miúdos (ovelha, cabra), uma secreção turva; nos graúdos (vaca, jumenta), a placenta; e, por analogia, na mulher, o saco fetal ou a placenta. Qualquer um desses sinais prova que já houve parto (ainda que de um feto que não sobreviveu), esvaziando a certeza etária de Rabi Yishmael. Por isso Rabi Akiva propõe uma regra mais rigorosa e objetiva: o que importa não é a idade, mas o conhecimento real sobre o histórico da fêmea. Se se sabe com certeza que já pariu, o filhote atual não é primogênito e nada cabe ao sacerdote; se se sabe com certeza que nunca pariu, o filhote é do sacerdote; e se há dúvida genuína, aplica-se a solução intermediária já conhecida do capítulo anterior: o animal pasta até desenvolver uma mácula permanente, e só então é abatido e comido pelos próprios donos.
Rabi Eliezer ben Yaakov diz: um animal graúdo que expeliu uma massa de sangue coagulado, esta deve ser sepultada, e ele fica isento da primogenitura.
— Encerrando a mishná, Rabi Eliezer ben Yaakov trata de mais um sinal de gestação interrompida em animais graúdos: a massa de sangue coagulado (chararat dam) que a fêmea às vezes expele, sem forma reconhecível de feto. Ainda que essa massa não tenha, em si, qualquer santidade ou impureza, ela é sinal suficiente de que houve gravidez — e por isso o animal fica isento de que seu próximo filhote seja tratado como primogênito. A determinação de sepultá-la, e não simplesmente descartá-la, serve para tornar pública essa isenção: quem vir o dono enterrando essa massa de sangue saberá que o próximo nascimento dessa fêmea não terá santidade de bechor.
Rambam esclarece o que é o tinuf (a secreção): é conhecido dos pastores como um sinal de que houve gravidez que se perdeu, ainda que sem qualquer forma reconhecível de feto — e ensina que não se considera secreção o que ocorre em menos de trinta dias [de gestação]. Esse sinal deve ser mostrado a um pastor experiente, e só então o animal fica isento da primogenitura. Explica ainda que a shilyá (placenta) é como uma cobertura sobre o feto, dentro da membrana que a envolve; e que o shafir (saco fetal) é a membrana acima da placenta, que tem aparência de sangue coagulado. Quanto à “massa de sangue coagulado”, esclarece que se trata de um pedaço de sangue expelido pela fêmea — sem qualquer impureza, por não ter substância própria — mas que deve ser sepultado justamente para tornar pública a isenção da primogenitura. Conclui que a lei segue Rabi Eliezer ben Yaakov e Rabi Akiva.
Bartenura explica cada termo: “cabra em seu primeiro ano” é a que pariu ainda dentro do primeiro ano de vida; “certamente” significa que esse filhote é do sacerdote, pois antes disso ela não tinha ainda parido; “dúvida” significa que o animal pastará até cair nele uma mácula, e será então comido, com sua mácula, pelos donos — e que, se for caso de dúvida sobre primogenitura de jumento, separa-se um cordeiro em seu lugar, que fica com o próprio dono. O tinuf são bolhas de sangue que o animal expele, mostradas a um pastor experiente, que reconhece se vieram de uma gravidez perdida; e como isso pode ocorrer mesmo dentro do primeiro ano, até a cabra dentro do primeiro ano vira caso de dúvida. A shilyá é a cobertura em que o feto está deitado; o shafir é a membrana acima da placenta, com sangue coagulado. “Que expeliu massa de sangue coagulado” é a fêmea que expeliu um pedaço de sangue; e “esta deve ser sepultada” serve para tornar pública a isenção da primogenitura, pois quem vê que a sepultam sabe que o que vier depois não é sagrado como primogênito. E a lei segue Rabi Akiva e Rabi Eliezer ben Yaakov.
Rashi comenta, palavra por palavra, os termos técnicos da mishná: “cabra em seu primeiro ano” é a que pariu dentro de seu primeiro ano; “certamente” significa que aquele filhote é do sacerdote, pois antes ela não tinha parido; sobre “dúvida”, explica que o animal pasta e é comido, com sua mácula, pelos donos, e que no caso de dúvida sobre primogenitura de jumento separa-se um cordeiro, que fica para o próprio dono. Sobre o tinuf, remete à explicação da própria Guemará: talvez o animal tenha expelido essa secreção ainda dentro do primeiro ano, o que já seria sinal de parto e isentaria a fêmea da primogenitura — por isso, mesmo a cabra dentro do primeiro ano vira caso de dúvida. E define o shafir simplesmente como a “pele com a forma do feto”.