Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Alef · Mishná 10 de 10 (última do perek)

O envio de roupas e o princípio geral

מְשַׁלְּחִין כֵּלִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fechando o Perek Alef, a mishná passa do envio de comida ao envio de roupas, e conclui com um princípio geral que resume o critério por trás de todas as permissões de envio discutidas ao longo do capítulo.

Envia-se roupas, tanto costuradas quanto não costuradas, mesmo que contenham mistura proibida [de lã e linho], desde que sejam para uso da festa; mas não uma sandália pregada, nem um sapato que não esteja costurado.Roupas prontas para vestir, ou panos ainda não costurados mas prontos para servir de cobertor, podem ser enviados mesmo quando contêm uma mistura de lã e linho proibida para uso — pois, sendo rígidos o bastante para não aquecer o corpo, seu uso como cobertor é permitido. Excetua-se a sandália de madeira revestida de couro com pregos de metal, proibida de se calçar por decreto rabínico ligado a um episódio histórico trágico, e o sapato cujo processo de fabricação ainda não terminou.

Rabi Yehudá diz: nem mesmo um sapato branco, porque necessita de um artesão.Na região de Rabi Yehudá, não se calçava sapato branco sem primeiro escurecê-lo com um processo especializado; por isso, mesmo um sapato branco já costurado é, para ele, equivalente a um sapato incompleto, e não pode ser enviado.

Esta é a regra geral: tudo que se usa [no dia comum tal como é], em dia de festa se envia.A mishná encerra com o princípio que unifica todos os casos do perek: mesmo um objeto que não se usa especificamente no próprio dia de festa — como os filactérios (tefilin), usados em dia comum mas não em Shabat ou dia de festa — pode ser enviado, desde que seja algo que, tal como está, tenha uso pronto e completo, sem necessitar de mais nenhum trabalho de preparo.

מְשַׁלְּחִין כֵּלִים, בֵּין תְּפוּרִין בֵּין שֶׁאֵינָן תְּפוּרִין, וְאַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן כִּלְאַיִם, וְהֵן לְצֹרֶךְ הַמּוֹעֵד, אֲבָל לֹא סַנְדָּל הַמְסֻמָּר וְלֹא מִנְעָל שֶׁאֵינוֹ תָפוּר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף לֹא מִנְעָל לָבָן, מִפְּנֵי שֶׁצָּרִיךְ אֻמָּן. זֶה הַכְּלָל, כֹּל שֶׁנֵּאוֹתִין בּוֹ, בְּיוֹם טוֹב מְשַׁלְּחִין אוֹתוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 16:14
וְשָׂמַחְתָּ בְּחַגֶּךָ.
E te alegrarás em tua festa.

Assim como abriu a discussão sobre o transporte de criança, lulav e rolo da Torá na Mishná 1:5, o preceito da alegria da festa também está por trás do costume de enviar presentes de roupa e do princípio geral que fecha este perek. O critério final — "tudo que se usa tal como é, em dia de festa se envia" — mostra que a alegria da festa não se limita à comida: qualquer objeto pronto para uso imediato, seja para vestir, cobrir ou mesmo para o cumprimento de um preceito como os tefilin, pode ser oferecido como presente, fortalecendo os laços entre as pessoas no dia sagrado.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam esclarece que o princípio geral inclui até os tefilin, que não se usam no próprio dia de festa mas em dia comum; Bartenura confirma esse exemplo e detalha os motivos das exceções do calçado.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 1:10
וְזֶה הַכְּלָל שֶׁזָּכַר אֲמִתִּי... וְכֵן זֶה הַכְּלָל כֹּל שֶׁנֵּאוֹתִין בּוֹ אֲפִלּוּ בְּחֹל כְּמוֹ שֶׁהוּא בְּיוֹם טוֹב מְשַׁלְּחִין אוֹתוֹ, וּלְפִיכָךְ מֻתָּר לִשְׁלֹחַ תְּפִלִּין בְּיוֹם טוֹב אַף עַל פִּי שֶׁאָסוּר לְלָבְשָׁן בְּשַׁבָּת וּבְיוֹם טוֹב.

E esta regra geral que mencionou é verdadeira... e assim esta regra geral: tudo que se usa mesmo em dia comum, tal como é, em dia de festa se envia; por isso é permitido enviar tefilin em dia de festa, ainda que seja proibido vesti-los em Shabat e em dia de festa.

Bartenura · Beitzá 1:10
סַנְדָּל מְסֻמָּר. שֶׁל עֵץ מְחֻפֶּה מַסְמְרִים, שֶׁגָּזְרוּ חֲכָמִים עָלָיו שֶׁלֹּא לְנַעֲלוֹ בְּשַׁבָּת וְיוֹם טוֹב מִשּׁוּם מַעֲשֶׂה שֶׁהָיָה שֶׁנֶּהֶרְגוּ הֲרוּגֵי מַלְכוּת עַל יָדוֹ... כָּל שֶׁנֵּאוֹתִין בּוֹ. הָכִי קָאָמַר: כָּל שֶׁנֵּאוֹתִין בּוֹ בַּחֹל כְּמוֹת שֶׁהוּא... כְּגוֹן תְּפִלִּין, שֶׁבְּחֹל לוֹבְשִׁין אוֹתָן כְּמוֹת שֶׁהֵן וּבְיוֹם טוֹב אֵין לוֹבְשִׁין אוֹתָן, מְשַׁלְּחִין אוֹתָן בְּיוֹם טוֹב.

“Sandália pregada” — de madeira revestida com pregos, que os sábios decretaram não calçar em Shabat e dia de festa por causa de um episódio em que pessoas foram mortas pelas autoridades por seu intermédio... “Tudo que se usa” — isto é: tudo que se usa em dia comum tal como é... como os tefilin, que em dia comum se vestem tal como são, e em dia de festa não se vestem, mas ainda assim podem ser enviados nesse dia.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi confirma o motivo histórico da proibição da sandália pregada e traduz o verbo final da mishná, "ne'otin", como "enfeitar-se" ou "servir-se" de algo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 14b
מְשַׁלְּחִין כֵּלִים — בְּגָדִים... אֲבָל לֹא סַנְדָּל — שֶׁל עֵץ מְצֻפֶּה עוֹר וּמַסְמְרוֹת קְבוּעִין בּוֹ, שֶׁגָּזְרוּ חֲכָמִים עָלָיו שֶׁלֹּא לְנַעֲלוֹ בְּשַׁבָּת וּבְיוֹם טוֹב מִשּׁוּם מַעֲשֶׂה שֶׁהָיָה שֶׁנֶּהֶרְגוּ הֲרוּגִים בְּשַׁבָּת עַל יָדוֹ... שֶׁנֵּאוֹתִין — מִתְקַשְּׁטִין.

“Envia-se roupas” — vestimentas... “Mas não uma sandália” — de madeira revestida de couro com pregos fixados nela, que os sábios decretaram não calçar em Shabat e dia de festa por causa de um episódio em que pessoas foram mortas em Shabat por seu intermédio... “Que se usa [ne'otin]” — enfeita-se, serve-se.