Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Alef · Mishná 5 de 10

Venezianas, pilão, couro e o domínio público

אֵין מְסַלְּקִין אֶת הַתְּרִיסִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná reúne quatro disputas distintas, todas giradas em torno de um mesmo princípio: até onde vai a permissão de realizar, em dia de festa, atos que não são estritamente necessários à preparação de alimento, mas que servem à alegria geral do dia.

Bet Shamai diz: não se removem as venezianas em dia de festa. E Bet Hilel permite até recolocá-las.Comerciantes de especiarias tinham bancas com portas móveis, que às vezes removiam para expor a mercadoria e depois recolocavam para fechar; Bet Shamai teme que a dobradiça central desse tipo de porta a faça parecer uma construção, e por isso proíbe removê-la; Bet Hilel permite, para que o comerciante não deixe de vender especiarias e se prive da alegria da festa.

Bet Shamai diz: não se toma o pilão para cortar carne sobre ele. E Bet Hilel permite.O grande pilão de madeira, usado normalmente para triturar grãos, não tem, por seu peso e tamanho, a categoria formal de utensílio; Bet Shamai por isso proíbe movê-lo apenas para usá-lo como tábua de corte; Bet Hilel permite, novamente por causa da alegria da festa.

Bet Shamai diz: não se coloca o couro diante dos que o pisam, nem se levanta, a menos que haja com ele o tamanho de uma azeitona de carne. E Bet Hilel permite.Depois de esfolar um animal, é comum estender o couro no chão para que seja pisado e não se estrague; Bet Shamai só permite esse manuseio quando ainda há carne aderida ao couro, já que aí o ato serve indiretamente à alimentação; Bet Hilel permite mesmo sem carne, para que o abate não seja evitado por medo de perder o couro.

Bet Shamai diz: não se leva para o domínio público nem a criança, nem o lulav, nem o rolo da Torá. E Bet Hilel permite.Bet Shamai só permite carregar algo pelo domínio público quando isso serve diretamente à alimentação; Bet Hilel raciocina que, uma vez permitido carregar objetos para a necessidade da comida, também se permite carregar para outras necessidades legítimas — de preceito, como o lulav e o rolo da Torá, ou de conforto, como a criança.

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵין מְסַלְּקִין אֶת הַתְּרִיסִין בְּיוֹם טוֹב. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין אַף לְהַחֲזִיר. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵין נוֹטְלִין אֶת הָעֱלִי לְקַצֵּב עָלָיו בָּשָׂר. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵין נוֹתְנִין אֶת הָעוֹר לִפְנֵי הַדּוֹרְסָן וְלֹא יַגְבִּיהֶנּוּ, אֶלָּא אִם כֵּן יֵשׁ עִמּוֹ כַזַּיִת בָּשָׂר. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵין מוֹצִיאִין לֹא אֶת הַקָּטָן וְלֹא אֶת הַלּוּלָב וְלֹא אֶת סֵפֶר תּוֹרָה לִרְשׁוּת הָרַבִּים. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 16:14
וְשָׂמַחְתָּ בְּחַגֶּךָ.
E te alegrarás em tua festa.

Este preceito de alegria da festa é o fundamento explícito, segundo Bartenura, das quatro permissões de Bet Hilel nesta mishná: recolocar as venezianas, usar o pilão para carne, manusear o couro sem carne aderida, e carregar criança, lulav e rolo da Torá pelo domínio público. Em cada caso, Bet Hilel amplia o espaço do que é permitido em dia de festa — não porque o ato seja estritamente necessário à alimentação, mas porque impedi-lo prejudicaria a livre fruição da festa, seja pelo comerciante que não pode vender, pelo açougueiro que não pode cortar, pelo abatedor que teme perder o couro, ou pela família que deseja sair de casa com seus filhos e seus objetos de preceito.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam detalha o motivo prático de cada permissão de Bet Hilel — sempre evitar que o receio de uma proibição menor impeça o cumprimento de uma necessidade maior da festa; Bartenura acrescenta o princípio geral de Bet Hilel, "visto que se permitiu tirar para a necessidade de comer, permitiu-se também para o que não é necessidade de comer".

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 1:5
וּבֵית שַׁמַּאי אֵין מַתִּירִין הוֹצָאָה אֶלָּא אִם יֵשׁ בָּהּ צֹרֶךְ אֲכִילָה... וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים שֶׁמִּתּוֹךְ שֶׁהֻתְּרָה הוֹצָאָה לְצֹרֶךְ אֲכִילָה הֻתְּרָה שֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ, וְכֵן אָמְרוּ מִתּוֹךְ שֶׁהֻתְּרָה הַבְעָרָה לְצֹרֶךְ הֻתְּרָה שֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ, וְזֶהוּ עִקָּר אֲמִתִּי.

E Bet Shamai não permite carregar senão quando há necessidade de comida... e Bet Hilel diz que, visto que se permitiu carregar para a necessidade de comer, permitiu-se também o que não é necessidade de comer — e do mesmo modo disseram que, visto que se permitiu acender fogo para a necessidade, permitiu-se também sem necessidade; e este é o princípio verdadeiro.

Bartenura · Beitzá 1:5
וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. מִשּׁוּם שִׂמְחַת יוֹם טוֹב, וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵין עָלָיו תּוֹרַת כְּלִי... דְּאִי לֹא שָׁרֵית לֵיהּ לֹא שָׁחֵיט כְּדֵי שֶׁלֹּא לְהַפְסִיד הָעוֹר, וּמִמְנַע מִשִּׂמְחַת יוֹם טוֹב.

“E Bet Hilel permite” — por causa da alegria da festa, ainda que o pilão não tenha categoria formal de utensílio... pois, se não se permitisse manusear o couro, o dono deixaria de abater para não perder o couro, privando-se assim da alegria da festa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o funcionamento técnico das venezianas das lojas de especiarias, base para entender por que Bet Shamai teme que sua remoção pareça um ato de construção.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 11b
תְּרִיסִין — דְּלָתוֹת פִּתְחֵיהֶן. חֲנֻיּוֹת — כְּמוֹ תֵּיבוֹת הֵן, וְעוֹמְדוֹת בַּשּׁוּק, וְאֵינָן מְחֻבָּרוֹת לַקַּרְקַע.

“Venezianas” — as portas de suas entradas. “Lojas” — eram como caixotes, situadas no mercado, e não fixadas ao solo.