Bet Shamai diz: não se removem as venezianas em dia de festa. E Bet Hilel permite até recolocá-las. — Comerciantes de especiarias tinham bancas com portas móveis, que às vezes removiam para expor a mercadoria e depois recolocavam para fechar; Bet Shamai teme que a dobradiça central desse tipo de porta a faça parecer uma construção, e por isso proíbe removê-la; Bet Hilel permite, para que o comerciante não deixe de vender especiarias e se prive da alegria da festa.
Bet Shamai diz: não se toma o pilão para cortar carne sobre ele. E Bet Hilel permite. — O grande pilão de madeira, usado normalmente para triturar grãos, não tem, por seu peso e tamanho, a categoria formal de utensílio; Bet Shamai por isso proíbe movê-lo apenas para usá-lo como tábua de corte; Bet Hilel permite, novamente por causa da alegria da festa.
Bet Shamai diz: não se coloca o couro diante dos que o pisam, nem se levanta, a menos que haja com ele o tamanho de uma azeitona de carne. E Bet Hilel permite. — Depois de esfolar um animal, é comum estender o couro no chão para que seja pisado e não se estrague; Bet Shamai só permite esse manuseio quando ainda há carne aderida ao couro, já que aí o ato serve indiretamente à alimentação; Bet Hilel permite mesmo sem carne, para que o abate não seja evitado por medo de perder o couro.
Bet Shamai diz: não se leva para o domínio público nem a criança, nem o lulav, nem o rolo da Torá. E Bet Hilel permite. — Bet Shamai só permite carregar algo pelo domínio público quando isso serve diretamente à alimentação; Bet Hilel raciocina que, uma vez permitido carregar objetos para a necessidade da comida, também se permite carregar para outras necessidades legítimas — de preceito, como o lulav e o rolo da Torá, ou de conforto, como a criança.
Este preceito de alegria da festa é o fundamento explícito, segundo Bartenura, das quatro permissões de Bet Hilel nesta mishná: recolocar as venezianas, usar o pilão para carne, manusear o couro sem carne aderida, e carregar criança, lulav e rolo da Torá pelo domínio público. Em cada caso, Bet Hilel amplia o espaço do que é permitido em dia de festa — não porque o ato seja estritamente necessário à alimentação, mas porque impedi-lo prejudicaria a livre fruição da festa, seja pelo comerciante que não pode vender, pelo açougueiro que não pode cortar, pelo abatedor que teme perder o couro, ou pela família que deseja sair de casa com seus filhos e seus objetos de preceito.
O Rambam detalha o motivo prático de cada permissão de Bet Hilel — sempre evitar que o receio de uma proibição menor impeça o cumprimento de uma necessidade maior da festa; Bartenura acrescenta o princípio geral de Bet Hilel, "visto que se permitiu tirar para a necessidade de comer, permitiu-se também para o que não é necessidade de comer".
E Bet Shamai não permite carregar senão quando há necessidade de comida... e Bet Hilel diz que, visto que se permitiu carregar para a necessidade de comer, permitiu-se também o que não é necessidade de comer — e do mesmo modo disseram que, visto que se permitiu acender fogo para a necessidade, permitiu-se também sem necessidade; e este é o princípio verdadeiro.
“E Bet Hilel permite” — por causa da alegria da festa, ainda que o pilão não tenha categoria formal de utensílio... pois, se não se permitisse manusear o couro, o dono deixaria de abater para não perder o couro, privando-se assim da alegria da festa.
Rashi explica o funcionamento técnico das venezianas das lojas de especiarias, base para entender por que Bet Shamai teme que sua remoção pareça um ato de construção.
“Venezianas” — as portas de suas entradas. “Lojas” — eram como caixotes, situadas no mercado, e não fixadas ao solo.