Bet Shamai diz: não se leva hallá e as porções ao cohen em dia de festa, quer tenham sido separadas na véspera, quer tenham sido separadas no próprio dia. E Bet Hilel permite. — Quando se amassa pão ou se abate um animal, certas porções — a hallá da massa, e o braço, as maxilas e o abomaso do animal — pertencem por direito ao cohen. Bet Shamai proíbe levá-las até ele em dia de festa, mesmo quando já haviam sido separadas antes da festa; Bet Hilel permite.
Disseram-lhes Bet Shamai: por analogia — hallá e as porções são dádiva ao cohen, e a teruma é dádiva ao cohen; assim como não se leva a teruma, também não se levam as porções. — Bet Shamai fundamenta sua posição comparando a hallá e as porções à teruma agrícola, cujo transporte até o cohen também é proibido em dia de festa, argumentando que, sendo ambas dádivas de mesma natureza destinadas ao cohen, devem seguir a mesma regra.
Disseram-lhes Bet Hilel: não; se dissestes isso da teruma, cujo dono não tem direito de separá-la [no próprio dia de festa], podeis dizer o mesmo das porções, cujo dono tem direito de separá-las? — Bet Hilel rejeita a comparação: a teruma da eira não pode ser sequer separada em dia de festa, pois seu momento de obrigação depende de um ato — a aplainação do monte de grãos — que não se realiza nesse dia; já a hallá e as porções do abate tornam-se obrigatórias no próprio dia de festa, quando se amassa e se abate, e por isso o dono tem o direito — e mesmo o dever — de separá-las nesse dia, o que justifica também poder levá-las ao cohen.
Este versículo estabelece o direito do cohen às porções do animal abatido — o braço, as maxilas e o abomaso — as "mattanot" mencionadas na mishná, junto com a hallá da massa, cujo dízimo é ordenado em Bemidbar 15:20. Toda a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel gira em torno de saber se essas dádivas sacerdotais podem ser fisicamente entregues ao cohen no próprio dia de festa — questão que, segundo a Guemará, na verdade se resolve não na entrega, mas na separação em si, invertendo os termos como Bartenura e Rambam explicam.
O Rambam expõe a real posição da Guemará: a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel não está no transporte, mas na separação da teruma, que ambos concordam não poder ser levada; Bartenura, seguindo Rashi, também nota essa reviravolta talmúdica.
E dizer, nesta mishná, que Bet Shamai e Bet Hilel discordam sobre levar hallá e as porções e concordam que não se leva a teruma não é exato; na verdade, ambos concordam que se leva a hallá e as porções, e discordam apenas quanto à teruma.
Esta mishná é reformulada na Guemará: Bet Shamai e Bet Hilel não discordam quanto a levar a hallá e as porções — nisso concordam. Discordam apenas quanto a levar a teruma, sobre a qual Bet Shamai diz que não se leva, e Bet Hilel diz que se leva.
Rashi explica por que, apesar de a hallá e as porções não serem tecnicamente separadas por um ato de "tevel" que as torne proibidas até serem retiradas, ainda assim há necessidade de separá-las — sob pena de transgressão contínua ao comer o restante.
“A mishná: não se leva a hallá” — embora seja permitido separá-la, não lhe permitiram levá-la; permitiram-lhe apenas o reparo de sua própria massa, e não mais. “As porções” — o braço, as maxilas e o abomaso; também sua separação lhe foi permitida, pois foi ordenado a separá-las.