Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Alef · Mishná 6 de 10

Levar hallá e as porções ao cohen

אֵין מוֹלִיכִין חַלָּה וּמַתָּנוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná discute se é permitido, em dia de festa, levar até o cohen a porção de massa separada (hallá) e as porções do abate a que ele tem direito, apresentando o raciocínio por analogia de Bet Shamai e a distinção com que Bet Hilel o rebate.

Bet Shamai diz: não se leva hallá e as porções ao cohen em dia de festa, quer tenham sido separadas na véspera, quer tenham sido separadas no próprio dia. E Bet Hilel permite.Quando se amassa pão ou se abate um animal, certas porções — a hallá da massa, e o braço, as maxilas e o abomaso do animal — pertencem por direito ao cohen. Bet Shamai proíbe levá-las até ele em dia de festa, mesmo quando já haviam sido separadas antes da festa; Bet Hilel permite.

Disseram-lhes Bet Shamai: por analogia — hallá e as porções são dádiva ao cohen, e a teruma é dádiva ao cohen; assim como não se leva a teruma, também não se levam as porções.Bet Shamai fundamenta sua posição comparando a hallá e as porções à teruma agrícola, cujo transporte até o cohen também é proibido em dia de festa, argumentando que, sendo ambas dádivas de mesma natureza destinadas ao cohen, devem seguir a mesma regra.

Disseram-lhes Bet Hilel: não; se dissestes isso da teruma, cujo dono não tem direito de separá-la [no próprio dia de festa], podeis dizer o mesmo das porções, cujo dono tem direito de separá-las?Bet Hilel rejeita a comparação: a teruma da eira não pode ser sequer separada em dia de festa, pois seu momento de obrigação depende de um ato — a aplainação do monte de grãos — que não se realiza nesse dia; já a hallá e as porções do abate tornam-se obrigatórias no próprio dia de festa, quando se amassa e se abate, e por isso o dono tem o direito — e mesmo o dever — de separá-las nesse dia, o que justifica também poder levá-las ao cohen.

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אֵין מוֹלִיכִין חַלָּה וּמַתָּנוֹת לַכֹּהֵן בְּיוֹם טוֹב, בֵּין שֶׁהוּרְמוּ מֵאֶמֶשׁ, בֵּין שֶׁהוּרְמוּ מֵהַיּוֹם. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית שַׁמַּאי, גְּזֵרָה שָׁוָה, חַלָּה וּמַתָּנוֹת מַתָּנָה לַכֹּהֵן, וּתְרוּמָה מַתָּנָה לַכֹּהֵן, כְּשֵׁם שֶׁאֵין מוֹלִיכִין אֶת הַתְּרוּמָה, כָּךְ אֵין מוֹלִיכִין אֶת הַמַּתָּנוֹת. אָמְרוּ לָהֶם בֵּית הִלֵּל, לֹא, אִם אֲמַרְתֶּם בַּתְּרוּמָה, שֶׁאֵינוֹ זַכַּאי בַּהֲרָמָתָהּ, תֹּאמְרוּ בַמַּתָּנוֹת, שֶׁזַּכַּאי בַּהֲרָמָתָן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 18:3
וְזֶה יִהְיֶה מִשְׁפַּט הַכֹּהֲנִים מֵאֵת הָעָם... וְנָתַן לַכֹּהֵן הַזְּרֹעַ וְהַלְּחָיַיִם וְהַקֵּבָה.
E este será o direito dos cohanim, da parte do povo... e dará ao cohen o braço, as maxilas e o abomaso.

Este versículo estabelece o direito do cohen às porções do animal abatido — o braço, as maxilas e o abomaso — as "mattanot" mencionadas na mishná, junto com a hallá da massa, cujo dízimo é ordenado em Bemidbar 15:20. Toda a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel gira em torno de saber se essas dádivas sacerdotais podem ser fisicamente entregues ao cohen no próprio dia de festa — questão que, segundo a Guemará, na verdade se resolve não na entrega, mas na separação em si, invertendo os termos como Bartenura e Rambam explicam.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam expõe a real posição da Guemará: a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel não está no transporte, mas na separação da teruma, que ambos concordam não poder ser levada; Bartenura, seguindo Rashi, também nota essa reviravolta talmúdica.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 1:6
וְאָמְרָם בְּזוֹ הַמִּשְׁנָה כִּי בֵּית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל חוֹלְקִין בְּהוֹלָכַת חַלָּה וּמַתָּנוֹת וּמוֹדִים שֶׁאֵין מוֹלִיכִין תְּרוּמָה, אֵינוֹ אֱמֶת, אֲבָל הֵן מוֹדִים שֶׁמּוֹלִיכִין חַלָּה וּמַתָּנוֹת וְחוֹלְקִין בַּתְּרוּמָה.

E dizer, nesta mishná, que Bet Shamai e Bet Hilel discordam sobre levar hallá e as porções e concordam que não se leva a teruma não é exato; na verdade, ambos concordam que se leva a hallá e as porções, e discordam apenas quanto à teruma.

Bartenura · Beitzá 1:6
הַךְ מַתְנִיתִין אִדַּחְיָא לַהּ בַּגְּמָרָא, דְּלֹא נֶחְלְקוּ בֵּית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל שֶׁמּוֹלִיכִין חַלָּה וּמַתָּנוֹת. לֹא נֶחְלְקוּ אֶלָּא בְּהוֹלָכַת תְּרוּמָה, שֶׁבֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אֵין מוֹלִיכִין, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים מוֹלִיכִין.

Esta mishná é reformulada na Guemará: Bet Shamai e Bet Hilel não discordam quanto a levar a hallá e as porções — nisso concordam. Discordam apenas quanto a levar a teruma, sobre a qual Bet Shamai diz que não se leva, e Bet Hilel diz que se leva.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica por que, apesar de a hallá e as porções não serem tecnicamente separadas por um ato de "tevel" que as torne proibidas até serem retiradas, ainda assim há necessidade de separá-las — sob pena de transgressão contínua ao comer o restante.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 12b
מַתְנִי׳ אֵין מוֹלִיכִין חַלָּה — אַף עַל פִּי שֶׁמֻּתָּר בְּהַפְרָשָׁתָהּ, לֹא שָׁרוּ לֵיהּ הוֹלָכָתָהּ, אֶלָּא תִּקּוּן עִסָּתוֹ הִתִּירוּ לוֹ וְלֹא יוֹתֵר. מַתָּנוֹת — הַזְּרוֹעַ וְהַלְּחָיַיִם וְהַקֵּבָה, אַף הֵן הֲרָמָתָן הֻתְּרָה לוֹ שֶׁהֲרֵי נִצְטַוָּה לַהֲרִימָן.

“A mishná: não se leva a hallá” — embora seja permitido separá-la, não lhe permitiram levá-la; permitiram-lhe apenas o reparo de sua própria massa, e não mais. “As porções” — o braço, as maxilas e o abomaso; também sua separação lhe foi permitida, pois foi ordenado a separá-las.