Pode-se dizer ao amigo: encha-me este utensílio — mas não com a medida. Rabi Yehudá diz: se era um utensílio de medida, não o encha. — Pedir a um vizinho que encha um recipiente qualquer com azeite ou vinho é um favor entre amigos, permitido em dia de festa; mas se esse recipiente é um utensílio próprio de medir — usado normalmente para vender por medida —, seu uso se assemelha demais a uma transação comercial e por isso o primeiro sábio o proíbe apenas quando efetivamente medido; Rabi Yehudá é mais estrito e proíbe enchê-lo mesmo sem medir, apenas por sua condição de utensílio de medida.
Episódio com Abba Shaul ben Botnit, que enchia suas medidas na véspera da festa e as dava aos compradores no dia de festa. Abba Shaul diz: também no chol hamoed fazia assim, por causa da clareza das medidas. E os sábios dizem: também em dia comum fazia assim, por causa do escorrimento das medidas. — Abba Shaul ben Botnit tinha o cuidado de encher suas medidas de véspera para não precisar medir no próprio dia de festa; quanto ao motivo de fazer o mesmo mesmo no chol hamoed e em dias comuns, há duas explicações: ele mesmo explicava que era para manter suas medidas sempre exatas e verificadas, enquanto os sábios explicavam que era para deixar o azeite escorrer completamente durante a noite até o fundo do recipiente, evitando roubar os compradores com o que ficasse grudado nas paredes da medida.
Vai a pessoa ao lojista com quem tem costume, e diz-lhe: dá-me ovos e nozes por contagem — pois esse é o costume do dono de casa, de contar dentro de sua própria casa. — Comprar por contagem simples, sem pesar nem medir, não se assemelha a uma transação comercial formal, mas ao modo natural como qualquer dono de casa organiza seus próprios mantimentos; por isso, mesmo de um lojista, é permitido pedir itens por contagem em dia de festa.
Este versículo estabelece a exatidão da medida como valor central na vida comercial de Israel — mas é justamente por isso que medir formalmente, mesmo com exatidão, é reconhecido como um ato de comércio, incompatível com o dia de festa. A mishná distingue: encher um utensílio comum é apenas um favor entre vizinhos; encher um utensílio de medida, usado para o comércio regular, se aproxima demais do ato de "medir com justiça" que a Torá associa ao mercado, e por isso permanece proibido — ao passo que contar ovos e nozes, um gesto doméstico e não técnico, escapa dessa categoria e permanece permitido.
O Rambam explica a distinção entre um utensílio já fixado como medida e outro apenas destinado a isso, e fixa a halachá contra Rabi Yehudá; Bartenura detalha o motivo de Abba Shaul encher suas medidas até de noite em dias comuns.
“Mas não com a medida” — quer dizer, não com um utensílio destinado especificamente para medida; mas se era um utensílio apto a se tornar medida e ainda não fora exatamente fixado nem estabelecido como medida, é permitido enchê-lo com ele. E Rabi Yehudá proíbe, por ser um utensílio conhecido como de medida. E Abba Shaul ben Botnit fazia o que dele contaram por causa da interrupção da Casa de Estudo, para não se atrapalhar no momento de pesar. E a halachá não segue Rabi Yehudá.
“Por causa do escorrimento das medidas” — quando vendia azeite, tinha muitas medidas, e os compradores traziam seus recipientes, e ele media para cada um com uma medida própria, e o azeite escorria pouco a pouco para dentro de seus recipientes durante toda a noite, para que não sobrasse azeite grudado no fundo e nas paredes da medida — o que resultaria em roubar os compradores.
Rashi esclarece que a Guemará mesma discute se a razão dada por Abba Shaul consta ou não do texto da mishná, e localiza o costume da compra por contagem no encerramento do Perek Guimel.
“A mishná: mas não com a medida” — na Guemará se explica isso, e qual é a disputa entre eles. “Que enchia suas medidas etc.” — pois não se mede em dia de festa. “Também no chol hamoed fazia assim” — na Guemará se explica a razão; e não lemos na mishná “por causa da clareza das medidas”, embora haja quem assim o leia — e trata-se da elevação das espumas, como se explica na Guemará.