Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Hei · Mishná 4 de 7

Quem toma emprestado um utensílio na véspera, e a mulher que toma temperos

הַשּׁוֹאֵל כְּלִי מֵחֲבֵרוֹ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná determina, para utensílios emprestados, qual dos limites de Shabat prevalece — o de quem pediu emprestado ou o de quem emprestou —, conforme o momento em que o empréstimo se realizou, e trata do caso paralelo da massa de pão preparada com ingredientes emprestados.

Quem toma emprestado um utensílio do amigo na véspera de dia de festa, segue os pés de quem tomou emprestado. Em dia de festa, segue os pés de quem emprestou.Um utensílio emprestado antes da entrada do dia de festa já adquire, no crepúsculo, a mesma designação de limites que seu novo possuidor temporário — pois já se encontra em poder dele quando o dia sagrado começa. Mas se o empréstimo só se realiza depois de o dia de festa já ter começado, o utensílio permanece ligado aos limites de seu verdadeiro dono, que já os havia fixado antes de o utensílio sair de seu domínio.

A mulher que toma emprestado da amiga temperos, água e sal para sua massa, estes seguem os pés de ambas. Rabi Yehudá isenta quanto à água, porque não há nela substância.Quando um pouco de tempero ou de sal emprestado se mistura à massa da mulher, a massa inteira passa a seguir os limites de ambas as mulheres — a que emprestou e a que pediu emprestado —, pois o pequeno elemento emprestado permanece perceptível e relevante dentro da mistura. Rabi Yehudá, porém, isenta a água desse princípio, considerando que ela, ao se dissolver por completo na massa, deixa de ter substância própria identificável e por isso não impõe sua designação sobre o todo.

הַשּׁוֹאֵל כְּלִי מֵחֲבֵרוֹ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב, כְּרַגְלֵי הַשּׁוֹאֵל. בְּיוֹם טוֹב, כְּרַגְלֵי הַמַּשְׁאִיל. הָאִשָּׁה שֶׁשָּׁאֲלָה מֵחֲבֶרְתָּהּ תְּבָלִין וּמַיִם וּמֶלַח לְעִסָּתָהּ, הֲרֵי אֵלּוּ כְרַגְלֵי שְׁתֵּיהֶן. רַבִּי יְהוּדָה פוֹטֵר בְּמַיִם, מִפְּנֵי שֶׁאֵין בָּהֶן מַמָּשׁ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 16:29
שְׁבוּ אִישׁ תַּחְתָּיו אַל־יֵצֵא אִישׁ מִמְּקֹמוֹ בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי.
Ficai cada um em seu lugar; ninguém saia do seu lugar no sétimo dia.

Continuando o tema da mishná anterior, este caso mostra que o momento exato da aquisição — antes ou depois da entrada do dia sagrado — é o que determina qual designação de limites prevalece sobre um objeto. Um utensílio ou ingrediente entra no domínio de seu novo possuidor no instante do empréstimo; se esse instante precede o crepúsculo, o objeto já "fica em seu lugar" junto com o novo dono quando o dia começa, e passa a seguir sua designação. Se o instante é posterior, o objeto já havia "ficado em seu lugar" junto ao dono original, e essa designação permanece — daí a regra de que o empréstimo em dia de festa deixa o utensílio atado aos limites de quem emprestou.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica que mesmo a entrega física em dia de festa, quando precedida de um pedido de véspera, mantém o utensílio junto aos limites de quem tomou emprestado; Bartenura detalha a disputa sobre trigo misturado a trigo, paralela à disputa sobre a água.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 5:4
הַשּׁוֹאֵל כְּלִי מֵחֲבֵרוֹ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב כוּ': אָמְרָם ״כְּרַגְלֵי הַשּׁוֹאֵל״ אֲפִלּוּ לֹא נָתַן לוֹ אוֹתוֹ הַבֶּגֶד אֶלָּא בְּיוֹם טוֹב, כֵּיוָן שֶׁקָּדַם שְׁאֵלָתוֹ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב, הֲרֵי הִיא כְּרַגְלֵי הַשּׁוֹאֵל. וְאָמְרָם ״כְּרַגְלֵי הַמַּשְׁאִיל״ וַאֲפִלּוּ הָיָה רָגִיל לִשְׁאֹל מִמֶּנּוּ אוֹתוֹ חָלוּק בְּכָל יוֹם טוֹב, לֹא נֹאמַר שֶׁיִּהְיֶה עִקָּר לְאוֹתָהּ רְגִילוּת, אֶלָּא כֵּיוָן שֶׁלֹּא שְׁאָלוֹ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב, הֲרֵי הוּא כְּרַגְלֵי בְעָלָיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. וְאָמְרָם ״כְּרַגְלֵי שְׁתֵּיהֶן״ עִנְיָנוֹ שֶׁבְּאוֹתָהּ הָעִסָּה הָוֵי בָהּ שֻׁתָּפוּת, כְּדֵי שֶׁלֹּא תֵלֵךְ אוֹתָהּ הָעִסָּה אֶלָּא עַד מָקוֹם שֶׁשְּׁתֵּיהֶן יְכוֹלִין לֵילֵךְ.

"Quem toma emprestado um utensílio do amigo na véspera de dia de festa etc." — o que disseram "segue os pés de quem tomou emprestado" vale mesmo que a roupa só lhe tenha sido entregue em dia de festa, pois, uma vez que seu pedido precedeu a véspera de dia de festa, ela segue os pés de quem tomou emprestado. E o que disseram "segue os pés de quem emprestou" vale mesmo que costumasse pedir emprestada aquela túnica todo dia de festa — não dizemos que esse costume se torne o princípio determinante, mas, uma vez que não a pediu na véspera, ela segue os pés de seu dono. E a halachá não segue Rabi Yehudá. E o que disseram "segue os pés de ambas" significa que naquela massa há uma espécie de sociedade, de modo que a massa não pode ir senão até onde ambas podem ir.

Bartenura · Beitzá 5:4
כְּרַגְלֵי הַשּׁוֹאֵל. שֶׁהֲרֵי קָנָה שְׁבִיתָתוֹ אֶצְלוֹ בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, דְּבֵין הַשְּׁמָשׁוֹת שֶׁהוּא כְּנִיסַת הַיּוֹם קוֹנֶה שְׁבִיתָה, וַאֲפִלּוּ לֹא בָא לְיַד הַשּׁוֹאֵל אֶלָּא בְּיוֹם טוֹב, דְּלָאו בִּרְשׁוּתֵיהּ קַיָּמִין בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, הֲרֵי אֵלּוּ כְּרַגְלָיו שֶׁל שׁוֹאֵל. וְאִם שְׁאָלוֹ בְּיוֹם טוֹב מִשֶּׁחָשְׁכָה, הֲרֵי הֵן כְּרַגְלֵי הַמַּשְׁאִיל, לְפִי שֶׁקָּנָה שְׁבִיתָה אֵצֶל בְּעָלָיו, וַאֲפִלּוּ הָיָה רָגִיל לְהַשְׁאִיל בְּכָל יוֹם טוֹב. הָאִשָּׁה שֶׁשָּׁאֲלָה מֵחֲבֶרְתָּהּ תְּבָלִין. לִקְדֵרָתָהּ. וּמַיִם וּמֶלַח. לְעִסָּתָהּ. הֲרֵי אֵלּוּ. הַקְּדֵרָה וְהָעִסָּה. כְּרַגְלֵי שְׁתֵּיהֶן. אֵין מוֹלִיכִין אוֹתָן אֶלָּא בְּמָקוֹם שֶׁשְּׁתֵּיהֶן יְכוֹלוֹת לֵילֵךְ, דְּכֵיוָן דִּבְיוֹם טוֹב שָׁאֲלָה, קָנוּ הַתַּבְלִין אוֹ הַמַּיִם וְהַמֶּלַח שְׁבִיתָה אֵצֶל בַּעֲלֵיהֶן. שֶׁאֵין בָּהֶם מַמָּשׁ. אֵין נִכָּרוֹת לֹא בַקְּדֵרָה וְלֹא בָעִסָּה, כְּגוֹן שֶׁהַתַּבְשִׁיל עָבֶה וְאֵין הַמַּיִם נִכָּרִים בָּהּ, הִלְכָּךְ אֵין מְעַכְּבוֹת הוֹלָכָתָן, וּבְמֶלַח לֹא פָלִיג רַבִּי יְהוּדָה, דְּמַיְרֵי בְעִסָּה שֶׁנִּלּוֹשָׁה בְמֶלַח שֶׁהִיא גַסָּה וְעָבָה, שֶׁהִיא נִכֶּרֶת וְיֵשׁ בָּהּ מַמָּשׁ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"Segue os pés de quem tomou emprestado" — pois já adquiriu sua habitação junto a ele no crepúsculo, já que o crepúsculo, sendo a entrada do dia, adquire habitação; e mesmo que o utensílio só tenha chegado às mãos de quem tomou emprestado em dia de festa, uma vez que não estava em seu domínio no crepúsculo, ele segue os pés de quem tomou emprestado. E se o pediu emprestado em dia de festa, depois de escurecer, ele segue os pés de quem emprestou, pois este adquiriu habitação junto a seus donos, mesmo que costumasse emprestá-lo todo dia de festa. "A mulher que toma emprestado da amiga temperos" — para sua panela. "Água e sal" — para sua massa. "Estes" — a panela e a massa. "Seguem os pés de ambas" — não se levam senão a um lugar aonde ambas podem ir, pois, tendo pedido emprestado em dia de festa, os temperos ou a água e o sal adquiriram habitação junto a seus donos. "Porque não há neles substância" — não são perceptíveis nem na panela nem na massa, como quando o guisado é espesso e a água não é perceptível nele; por isso não impedem sua movimentação. E quanto ao sal, Rabi Yehudá não discorda, pois trata-se de uma massa amassada com sal grosso e espesso, que é perceptível e tem substância. E a halachá não segue Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o fundamento da habitação adquirida no crepúsculo e por que a mishná precisou ensinar o caso, aparentemente óbvio, de quem toma emprestado antes da entrada do dia.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 38a
הַשּׁוֹאֵל כְּלִי מֵחֲבֵרוֹ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא, שֶׁלֹּא מְסָרוֹ לוֹ אֶלָּא בְדִבּוּר בְּעָלְמָא. מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הַשּׁוֹאֵל כְּלִי מֵחֲבֵרוֹ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב.

"Quem toma emprestado um utensílio do amigo na véspera de dia de festa" — parece óbvio! Não é necessário, senão para o caso em que não lhe entregou o utensílio, mas apenas combinou verbalmente emprestá-lo — ensinando que mesmo essa mera palavra, dita antes da entrada do dia, basta para fixar a habitação junto a quem tomou emprestado; isso apoia a opinião de Rabi Yohanan, que disse a mesma regra sobre quem toma emprestado um utensílio do amigo na véspera de dia de festa.