O que abate pelos lados, seu abate é válido. O que faz a melicá pelos lados, sua melicá é inválida. — O abate ritual de animais (shechitá) é realizado com uma lâmina na parte frontal do pescoço; mas, na prática, cortar levemente pelos lados do pescoço, e não exatamente pela frente, ainda produz um abate válido, pois os órgãos exigidos — esôfago e traqueia — continuam sendo cortados corretamente. Já a melicá — o pinçamento com a unha do sacerdote, usado exclusivamente nas oferendas de aves, que substitui a shechitá com faca — segue uma regra bíblica própria e mais restrita: deve ser feita especificamente na nuca (מול עורפו); realizada pelos lados, é inválida.
O que abate pela nuca, seu abate é inválido. O que faz a melicá pela nuca, sua melicá é válida. — Aqui a regra se inverte por completo: a shechitá exige que se corte pela frente ou pelos lados do pescoço; feita pela nuca — cortando primeiro a coluna vertebral antes de alcançar o esôfago e a traqueia —, o animal já se torna impróprio (trefá) antes mesmo de o abate propriamente dito se completar. Já a melicá, pelo contrário, deve ser feita exatamente ali: pela nuca, como a Torá exige.
O que abate pelo pescoço, seu abate é válido. O que faz a melicá pelo pescoço, sua melicá é inválida — pois toda a nuca serve à melicá, e todo o pescoço serve ao abate. Resulta: o que é válido no abate é inválido na melicá; o que é válido na melicá é inválido no abate. — A mishná fecha com a regra geral que resume todo o parágrafo: os dois procedimentos rituais — shechitá e melicá — ocupam, no corpo do animal ou da ave, regiões exatamente opostas e mutuamente exclusivas. Tudo o que conta como “nuca” é o local próprio da melicá e o local impróprio do abate; tudo o que conta como “pescoço” é o local próprio do abate e o local impróprio da melicá. Este é o primeiro de vários pares de contrastes espelhados que percorrem o restante do capítulo.
Rambam explica que a mishná estabelece a ordem e a distinção entre melicá e shechitá, e a regra por trás de toda a disputa entre os dois procedimentos: onde há lugar para shechitá, não há lugar para melicá, e onde há lugar para melicá, não há lugar para shechitá. E resume o princípio fundamental de ambas: a melicá só pode ser feita na nuca, e a shechitá só pode ser feita no pescoço — sendo essa distinção física exata a origem de todos os pares de contrastes que a mishná enumera.
Bartenura explica que “pelos lados” significa os lados do pescoço, e que o abate ali é válido mesmo de antemão. Já a melicá pelos lados é inválida porque a Torá exige explicitamente, sobre a melicá, que seja feita “junto à nuca” — isto é, por trás da ave. Explica ainda que abater pela nuca invalida o abate, salvo se os órgãos foram devidamente atingidos antes da quebra da coluna; e que “pescoço”, na linguagem da mishná, refere-se à região abaixo da garganta, o caminho seguido pela maioria dos abates.
Rashi comenta cada cláusula desta mishná em sequência: “pelos lados” refere-se ao lado do pescoço, e o abate ali é válido mesmo de antemão; a melicá pelos lados é inválida porque a Torá escreve explicitamente, sobre a melicá, “junto à nuca”, isto é, por trás da ave. A Guemará situa “pela nuca” como sendo atrás do pescoço; e a melicá feita ali é, precisamente, o cumprimento correto e preferencial do preceito. Por fim, explica que “pescoço”, na linguagem da mishná, é a região sob a garganta, o caminho seguido pela maioria dos abates, e “toda a nuca” abrange toda a região voltada para trás.