Primogênito que se misturou com cem: quando cem abatem todos eles, isentam-nos a todos; um abate todos eles, isentam-lhe um.
— Trata-se de um primogênito que já havia chegado às mãos do sacerdote, adquiriu defeito em poder dele e foi vendido, com seu defeito, a um israelita, misturando-se então com outros cem animais comuns. Como o primogênito, uma vez consagrado e resgatável apenas por seu valor, não deve mais as dádivas — não há santidade que recaia sobre outra santidade — cada um dos donos pode alegar perante o sacerdote: “o meu é o primogênito”, isentando-se assim das dádivas. Se cem pessoas diferentes abatem cada uma seu animal, todas ficam isentas, pois nenhuma pode ser desmentida. Mas se uma só pessoa abate todos os cem animais, ela só pode reivindicar essa isenção para um deles — certamente um entre eles é de fato o primogênito — e deve as dádivas dos demais noventa e nove.
Quem abate para sacerdote e para gentio é isento das dádivas. E quem se associa com eles precisa marcar. E se disse “exceto as dádivas”, é isento das dádivas.
— Quando alguém abate um animal pertencente a um sacerdote, para o próprio sacerdote, ou um animal de um gentio, para o próprio gentio, não há obrigação de separar dádivas: elas seriam do dono e voltariam a ele mesmo, e um gentio de todo modo não está sujeito a essa mitzva. Um israelita que entra em sociedade com um sacerdote ou um gentio na compra de um animal precisa marcá-lo, para que todos saibam que há ali uma parte pertencente a quem está isento, evitando confusão sobre a obrigação das dádivas. E se um sacerdote vende sua vaca a um israelita dizendo explicitamente “exceto as dádivas que há nela”, o comprador fica isento de entregá-las, pois elas nunca foram vendidas a ele — permanecem propriedade do próprio sacerdote.
Disse: “Vende-me as entranhas desta vaca” — e havia entre elas dádivas: dá-as ao sacerdote, e não desconta a ele do preço. Comprou dele por peso: dá-as ao sacerdote e desconta a ele do preço.
— Se o comprador adquiriu “as entranhas da vaca” como um todo, por um preço fixo e não por peso, e entre elas estava o estômago — uma das dádivas — ele deve entregá-lo ao sacerdote, sem direito a desconto do vendedor: sabia, ao comprar, que ali havia uma dádiva não incluída na venda, pois o estômago nunca pertenceu ao vendedor para que este o vendesse. Mas se comprou por peso — pagando por cada unidade de peso, incluindo, sem perceber, o peso do estômago — ele também deve entregá-lo ao sacerdote, porém agora tem direito a descontar seu valor do preço pago ao vendedor, que efetivamente lhe vendeu algo que não lhe pertencia.
Rambam explica que este primogênito é aquele que chegou às mãos do sacerdote — pois o primogênito pertence ao sacerdote, como se explicou na introdução desta ordem — adquiriu defeito ainda em poder do sacerdote e foi vendido por ele a um israelita; depois se misturou, junto ao israelita, com outros animais, e sua lei é como a mishná descreve. E quando diz “é isento das dádivas”, refere-se ao abatedor, pois o princípio que temos é que a responsabilidade recai sobre o abatedor, que é quem fica encarregado das dádivas — e mesmo que ele próprio fosse sacerdote, as dádivas seriam retiradas de sua mão e dadas a outro. E “precisa marcar” significa que deve marcar sua porção e sua parte, deixando as dádivas em seu devido lugar; mas se, ao formar a sociedade, já estipulou que não participa com eles nas dádivas, sendo estas mantidas à parte, não precisa marcar.
Bartenura esclarece que a mishná trata de um primogênito que já havia chegado às mãos do sacerdote e nele caiu um defeito enquanto estava em poder do sacerdote, que o vendeu a um israelita com seu defeito; misturando-se então com cem outros animais, todos ficam isentos das dádivas sacerdotais, pois cada um pode se eximir e dizer ao sacerdote: “o meu é o primogênito”. Se um só abate todos, isenta-se apenas um, pois é impossível que o primogênito não esteja entre eles, e ele pode dizer “este é”. “Precisa marcar” significa fazer um sinal para que todos entendam que há ali sociedade de um sacerdote ou gentio. E se o sacerdote disse ao israelita “vendo-te esta vaca, exceto as dádivas que há nela”, o israelita fica isento das dádivas. “E havia entre elas dádivas” refere-se ao estômago, uma das dádivas; e o vendedor não desconta do preço, pois o comprador já sabia que havia dádivas ali, e o vendedor não lhe vendeu o estômago. Se comprou por peso, pesando-lhe o estômago junto, o comprador entrega-o ao sacerdote, pois ali havia algo roubado que precisa devolver, e o açougueiro lhe desconta do preço, já que vendeu algo que não era seu.
Rashi explica que o “primogênito” da mishná é o de um israelita, que se misturou com cem outros animais. Quando cem pessoas abatem as cem cabeças, todas ficam isentas das dádivas sacerdotais, pois cada uma pode se eximir dizendo ao sacerdote “o meu é o primogênito” — e assim a segunda, e a terceira. Mas se uma só pessoa abate todos os cem animais, não se isentam todos das dádivas, apenas um — já que é impossível que o primogênito não esteja entre eles, e ela pode dizer “este é”; e do primogênito não se dão dádivas, pois não há santidade que recaia sobre outra santidade. “Precisa marcar” significa fazer nele um sinal para que os que virem entendam que ele não pertence inteiramente ao israelita. E se o sacerdote disse ao israelita “vendo-te esta vaca, exceto as dádivas que há nela”, o israelita fica isento das dádivas.