Esta mishná reúne quatro assuntos distintos, unidos apenas pelo fio condutor de oto ve-et beno: os casos de abate tecnicamente inválido que isentam da proibição; a disputa entre dois compradores de mãe e cria; a contagem de chibatadas conforme a ordem de abate entre gerações; e a obrigação sazonal de avisar o comprador.
Quem abate e é descoberto tereifá; quem abate para idolatria; e quem abate a vaca da purificação, o touro apedrejado, e a novilha decapitada — Rabi Shimon isenta, e os sábios responsabilizam. Quem abate e o animal se torna nevelá por sua mão, e quem perfura, e quem arranca — está isento por ele e sua cria.
A mishná primeiro examina casos em que o segundo abate, embora fisicamente executado, não conta como “abate” pleno para efeitos de oto ve-et beno, por não tornar o animal apto ao consumo comum. Rabi Shimon isenta quem abate uma tereifá, um animal para idolatria, ou os três animais proibidos ao benefício — a vaca vermelha, o touro condenado à lapidação e a novilha decapitada —, pois em todos esses casos o abate não resulta em carne permitida, e para ele um abate que não habilita o consumo não é considerado abate. Os sábios discordam, sustentando que a validade formal do ato de degola basta para acionar a proibição. Já quanto ao animal que se torna carcaça pela mão do próprio abatedor — por um corte inválido —, ou é morto por perfuração da garganta, ou tem seus canais vitais arrancados de seu lugar em vez de cortados, todos concordam pela isenção, pois nesses casos não há sequer o ato formal de degola, conforme o versículo exige explicitamente a palavra “abatereis”.
Dois que compraram uma vaca e sua cria — aquele que comprou primeiro, abaterá primeiro; e se o segundo se antecipou, ele adquiriu. Quem abateu a vaca e depois seus dois filhotes recebe oitenta; quem abateu seus dois filhotes e depois a abateu recebe as quarenta. Quem a abateu, e sua filha, e a filha de sua filha, recebe oitenta; quem a abateu e a filha de sua filha e depois abateu sua filha, recebe as quarenta. Sumakhos diz, em nome de Rabi Meir: recebe oitenta.
Quando dois compradores adquirem separadamente a mãe e sua cria, o comprador que fechou o negócio primeiro tem o direito de abater primeiro, para que seu abate não impeça o outro comprador de abater no mesmo dia; mas se o segundo comprador se antecipa e abate primeiro, ele não perde nada por isso — apenas obriga o primeiro comprador a esperar o dia seguinte. A mishná então mede as chibatadas pela quantidade de atos proibidos: quem abate a mãe e, depois, ambos os seus dois filhotes, comete dois atos separados de oto ve-et beno — um para cada filhote —, recebendo oitenta chibatadas; mas quem abate primeiro os dois filhotes e só depois a mãe comete um único ato proibido, pois apenas o abate da mãe, por último, viola a proibição em relação a ambos simultaneamente, rendendo apenas quarenta. A mesma lógica se aplica a três gerações — mãe, filha e neta: se a mãe é abatida primeiro, seguida por filha e neta em dias separados dentro do mesmo dia, há dois atos proibidos (mãe-filha e filha-neta), rendendo oitenta; mas se a mãe e a neta são abatidas primeiro — sem violação alguma entre elas, pois não há proibição entre avó e neta diretamente — e só depois a filha, o abate da filha viola a proibição duas vezes ao mesmo tempo, mas por se tratar de um único ato, físico e uma única advertência, rende apenas quarenta. Sumakhos, em nome de Rabi Meir, discorda desse último ponto, contando também aí oitenta chibatadas.
Em quatro ocasiões do ano, quem vende um animal a seu companheiro deve avisá-lo: vendi a mãe dele para abate, vendi a filha dela para abate. E estas são: a véspera do último dia festivo da Festa, a véspera do primeiro dia festivo de Pêssach, a véspera de Atséret, e a véspera de Rosh Hashaná; e, segundo as palavras de Rabi Yossei Haguelili, também a véspera de Yom Kipur na Galileia. Disse Rabi Yehudá: quando? Quando não há intervalo entre as vendas; mas, se há intervalo, não é necessário avisá-lo. E Rabi Yehudá concorda que quem vende a mãe ao noivo e a filha à noiva deve avisar, pois é sabido que ambos abaterão no mesmo dia.
Em quatro ocasiões do calendário anual, ligadas a grandes refeições festivas, presume-se que quem compra um animal o abaterá no mesmo dia; por isso, o vendedor que já vendeu a mãe (ou a filha) naquele dia é obrigado a avisar o próximo comprador, para que este não incorra sem saber na proibição de oto ve-et beno abatendo o parente do animal já vendido para abate imediato. As quatro ocasiões são as vésperas dos grandes banquetes do ano judaico — o último dia de Sucot, o primeiro dia de Pêssach, Shavuot (Atséret) e Rosh Hashaná —, às quais Rabi Yossei Haguelili acrescenta a véspera de Yom Kipur na Galileia, onde havia esse costume de banquete antes do jejum. Rabi Yehudá restringe essa obrigação de aviso apenas ao caso em que não houve intervalo de tempo entre as duas vendas naquele mesmo dia; se o vendedor vendeu a mãe pela manhã e a filha somente à tarde, presume-se que o primeiro comprador já a abateu, dispensando o aviso. Mas Rabi Yehudá concorda que, quando o vendedor vende a mãe ao noivo e a filha à noiva para o mesmo banquete de casamento, o aviso é sempre necessário, mesmo com intervalo entre as vendas, pois é evidente que ambas as famílias abaterão seus animais no mesmo dia da festa.
Rambam explica que a razão da obrigação de avisar nessas quatro ocasiões é sabida: nesses dias, ninguém compra um animal a não ser para abatê-lo no mesmo dia, ao contrário do resto do ano. Quanto ao termo “intervalo” usado por Rabi Yehudá, esclarece que significa haver folga de tempo dentro do próprio dia, pois às vezes alguém compra o animal para abatê-lo só no dia seguinte, e nesse caso não há necessidade de avisar. Conclui observando que Rabi Yehudá, nesse ponto, apenas interpreta e restringe a opinião dos sábios, e que suas palavras são corretas.
Bartenura precisa que a responsabilização dos sábios, no caso de quem abate para idolatria, só se aplica quando o primeiro abate foi para idolatria e o segundo, para consumo comum — pois se a ordem se inverte, aquele que abate por último para idolatria já está sujeito à pena capital por idolatria, e não se somam duas penas ao mesmo indivíduo pelo mesmo ato; a Guemará ainda distingue o caso em que a pessoa foi advertida apenas quanto a oto ve-et beno mas não quanto à idolatria, ficando então sujeita às chibatadas. Bartenura decide a lei conforme os sábios. Sobre o direito de abate entre dois compradores, esclarece que essa regra rege inclusive uma disputa levada perante um tribunal: se um comprador vem abater e o outro tenta impedi-lo alegando necessidade maior, o tribunal determina que o comprador que adquiriu primeiro tem o direito de abater primeiro, pois foi sob essa condição implícita que ele comprou o animal.
Rashi identifica a “vaca da purificação” como a vaca vermelha, que não se destina ao consumo; o “touro apedrejado”, como o touro após sentença já proferida, proibido ao benefício mesmo se abatido; e a “novilha decapitada”, como proibida desde que ainda viva, permanecendo proibida mesmo depois de abatida — daí a isenção de Rabi Shimon, para quem esse abate não é considerado abate válido. Explica que “torna-se nevelá por sua mão” se refere a um corte feito sem intenção adequada, e que perfurar e arrancar os canais vitais são igualmente formas que isentam por não constituírem abate. Sobre a ordem entre compradores, esclarece que a regra vale para fins de decisão judicial, e não apenas de proibição e permissão — se ambos vierem a juízo disputando quem abate primeiro. Sobre a contagem de chibatadas, explica que abater a mãe e depois a filha e a neta, em sequência, conta como duas violações separadas de oto ve-et beno, mas abater mãe e neta primeiro — sem violação entre elas — e só depois a filha conta como uma única violação, física e unicamente advertida, mesmo que teoricamente viole a proibição duas vezes ao mesmo tempo. E, sobre as quatro ocasiões, explica que é costume de Israel fazer banquetes nesses dias, e quem compra animal então normalmente o abate de imediato — por isso o vendedor deve avisar o segundo comprador de que já vendeu a mãe ou a filha para abate naquele mesmo dia, caso ele ainda não a tenha abatido; identifica a véspera do último dia de Sucot como ocasião de grande alegria, por ser um festival próprio e querido; e explica “sem folga” como a ausência de intervalo entre as duas vendas no mesmo dia, ao passo que, havendo folga — a primeira venda ocorrida no dia anterior —, presume-se que o primeiro comprador já abateu, dispensando o aviso.