Uma gota de leite que caiu sobre a peça de carne — se há nela o suficiente para dar sabor àquela peça, é proibida. Se mexeu a panela — se há nela o suficiente para dar sabor a toda aquela panela, é proibida.
— A mishná aplica à carne e ao leite o princípio geral de anulação pelo sabor (notein taam): uma quantidade ínfima de leite, incapaz de imprimir seu sabor perceptivelmente, não transforma a carne numa mistura proibida de bassar bechaláv. Assim, se uma gota cai sobre uma única peça de carne dentro da panela e ninguém mexe o conteúdo, apenas aquela peça específica fica em questão: se ela sozinha não é sessenta vezes maior que a gota — ou seja, se a gota tem sabor suficiente para se impor sobre ela —, a peça torna-se proibida. Mas se alguém mexe a panela antes que a gota se fixe numa única peça, o leite se espalha por todo o conteúdo, e o critério passa a ser a proporção entre a gota e a panela inteira: apenas se a gota tem sabor suficiente para se impor sobre todo o conteúdo da panela, tudo se torna proibido.
O úbere — rasga-o e retira o seu leite. Se não o rasgou, não transgride por causa dele. O coração — rasga-o e retira o seu sangue. Se não o rasgou, não transgride por causa dele.
— O úbere do animal abatido contém leite coagulado em seu interior; para poder cozinhá-lo junto com a carne sem incorrer na proibição de carne e leite, é preciso primeiro rasgá-lo e extrair esse leite. Da mesma forma, o coração retém sangue em seu interior, e antes de cozinhá-lo e comê-lo é preciso rasgá-lo e retirar esse sangue, por causa da proibição geral de consumir sangue. Em ambos os casos, a mishná esclarece que quem não rasgou o órgão antes de cozinhá-lo não é punido por transgressão formal — o leite retido no úbere e o sangue retido no coração não têm, enquanto ali contidos, o estatuto pleno de leite ou sangue para fins de punição —, ainda que, na prática, seja preciso rasgá-los para que o consumo seja apropriado.
Quem leva a ave com o queijo à mesa não transgride um preceito negativo.
— A mishná fecha reafirmando, num tom mais explícito, o que já se via implícito na disputa de Beit Shamai e Beit Hilel (8:1): a proibição de misturar carne de ave com queijo é inteiramente rabiníca, uma cerca protetora, e não um preceito negativo bíblico. Por isso, mesmo quem viola essa cerca levando a ave à mesa junto com o queijo não incorre na transgressão formal de um “lo taasse” da Torá — distinto de quem cozinha ou come carne de behemá com leite, que viola diretamente o preceito bíblico de “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe”.
Rambam esclarece que, quanto ao úbere, sua lei é a seguinte: sempre que for rasgado longitudinal e transversalmente e espremido contra a parede até extrair todo o líquido, é permitido, de início, cozinhá-lo junto com a carne. Se o cozinhou sem rasgar, mas sozinho, sem outra carne junto, também é permitido — e a isso se refere “se não o rasgou não transgride por causa dele”. Mas se o cozinhou sem rasgar junto com outra carne, avalia-se a proporção de sessenta partes, contando o próprio úbere no total das sessenta, embora o úbere em si permaneça sempre proibido, pois carne em leite é considerada uma espécie misturada a outra espécie diferente, e por isso se avalia pelo critério do sabor; e, na ausência de um gentio disponível para provar o sabor, avalia-se pelos princípios explicados ao final do tratado de Avodá Zará. Quanto ao coração, se não foi rasgado não há transgressão formal, mas ainda assim é proibido comê-lo até que se rasgue e se retire o sangue de dentro. E explica que “não transgride um preceito negativo” significa que a proibição de carne de ave com leite é, em si, apenas rabiníca, como se explicará.
Bartenura precisa o caso da gota de leite: cai dentro da panela sobre uma peça que está totalmente fora do caldo, sem que ninguém tenha mexido ou coberto a panela, de modo que o sabor da gota só se transmite àquela peça; se ela sozinha não tem sessenta vezes o volume da gota, torna-se proibida e proibiria também as demais, exigindo-se sessenta contra toda a peça. Já se a panela foi mexida antes da absorção, a gota se espalha por tudo, e o critério passa a ser toda a panela. Sobre o úbere — a téta da behemá —, explica que rasgá-lo longitudinal e transversalmente e espremer contra a parede permite depois cozinhá-lo com carne na mesma panela; se cozido sem rasgar mas sozinho, não há transgressão; se cozido com carne sem rasgar, avalia-se por sessenta, contando o próprio úbere no total, mas ele mesmo permanece sempre proibido. Sobre o coração, esclarece que a ausência de transgressão refere-se ao caret; no tratado de Kerítot isso se refere ao coração de ave, cujo sangue não chega ao tamanho de uma azeitona, mas no coração de behemá há caret se comido sem rasgar após cozido; e a própria carne do coração não se torna proibida, pois é lisa por dentro e não absorve. E, sobre a ave com queijo, esclarece que “não transgride um preceito negativo” significa que não há risco de vir a violar um “lo taasse” bíblico, mesmo que a coma.
Rashi precisa o cenário da gota de leite: cai dentro da panela sobre uma das peças, sem que a panela seja mexida, de modo que o sabor da gota só se divide para aquela peça. Observa que a mishná não trata explicitamente das demais peças da panela, e que a Guemará discute se aquela peça, uma vez proibida, volta a proibir as demais ou não. E explica que, se a panela foi mexida antes de a peça absorver o sabor da gota, esta se mistura a todo o conteúdo, de modo que a gota só tem força para proibir tudo se contiver sabor suficiente para toda a panela.
Rashi explica que “não transgride”, quanto ao úbere não rasgado, refere-se a não levar chibatadas por sua alimentação, nem por cozinhá-lo, pois o líquido em seu interior não se chama propriamente “leite” para esse efeito — e a Guemará discute se ainda assim há alguma proibição rabiníca. E, sobre o coração, explica que a ausência de transgressão se refere ao caret: no tratado de Kerítot isso se estabelece a respeito do coração de ave, cujo sangue não alcança o volume de uma azeitona, mas no coração de behemá há caret se comido, sem ser rasgado, depois de cozido; ainda assim a própria carne do coração não se torna proibida, pois é lisa e não absorve — como também se diz em Pessachím, que o coração é diferente por ser liso.
Rashi observa que a própria afirmação de que levar a ave à mesa não é bíblica não precisaria ser dita por si mesma — já que a “elevação” à mesa nunca foi de origem bíblica —, mas foi ensinada por sua implicação precisa: dela se deduz que quem efetivamente come ave com queijo transgride sim um preceito negativo rabiníco, contrariando a posição de Rabi Akivá, que exclui inteiramente as aves dessa proibição.