Carne de animal puro em leite de animal puro — é proibido cozinhar e é proibido o proveito. Carne de animal puro em leite de animal impuro, carne de animal impuro em leite de animal puro — é permitido cozinhar e é permitido o proveito.
— A mishná ensina que a proibição bíblica de bassar bechaláv exige que tanto a carne quanto o leite venham de um animal de espécie pura (kosher) — não necessariamente do mesmo animal, nem sequer de uma fêmea que tenha realmente gerado a cria, mas de qualquer espécie pura. Somente quando ambos os elementos são de animal puro a mistura é proibida tanto para cozinhar quanto para qualquer outro proveito — vender, alimentar animais, ou usá-la de qualquer modo. Se, porém, um dos dois elementos vem de animal impuro — carne pura em leite impuro, ou carne impura em leite puro —, a combinação sai inteiramente do âmbito da proibição de carne e leite, sendo permitida tanto para cozinhar quanto para qualquer proveito, ainda que a carne impura em si continue proibida para consumo por sua própria razão.
Rabi Akivá diz: chayá e ave não são [proibidas] pela Torá, pois está dito “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe” três vezes — excluindo a chayá, e a ave, e o animal impuro.
— Rabi Akivá fundamenta a exclusão da chayá (animal selvagem cujo abate não exige cobertura do sangue como a behemá doméstica), da ave e do animal impuro por meio de um princípio exegético característico da escola de Rabi Akivá: quando a Torá repete a mesma frase várias vezes em contextos diferentes, cada repetição aparentemente desnecessária vem ensinar algo novo, restringindo o alcance da lei. Como o versículo “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe” aparece três vezes na Torá — duas em Êxodo e uma em Deuteronômio —, cada ocorrência exclui uma categoria adicional da proibição bíblica plena: a chayá, a ave, e o animal impuro. Para Rabi Akivá, portanto, misturar carne de chayá ou de ave com leite não é proibido pela Torá em si, mas apenas por decreto dos sábios.
Rabi Yosei HaGelili diz: está dito “não comereis nenhuma carniça”, e está dito “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe”. Aquilo que é proibido por causa de carniça, é proibido cozinhar em leite. A ave, que é proibida por causa de carniça, poder-se-ia pensar que seria proibido cozinhá-la em leite — ensina o versículo “no leite de sua mãe”, excluindo a ave, que não tem leite de mãe.
— Rabi Yosei HaGelili chega a resultado parcialmente diferente por outro caminho exegético: observa que, no mesmo versículo de Devarim, a proibição de “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe” aparece logo após a proibição de comer nevelá (carniça, animal morto sem abate ritual), sugerindo uma ligação entre as duas leis: tudo o que está sujeito à proibição de nevelá está também sujeito à proibição de carne e leite. Como a ave também se torna nevelá quando morre sem abate válido, poder-se-ia concluir que ela também estaria incluída na proibição bíblica de bassar bechaláv — ao contrário da posição de Rabi Akivá, que a exclui de saída. Mas o próprio versículo contém a exceção: ele fala especificamente do “leite de sua mãe”, e a ave não tem leite materno algum — não amamenta seus filhotes —, de modo que a expressão em si a exclui, ainda que pelo raciocínio da nevelá ela devesse, a princípio, ser incluída.
Rambam resume a diferença prática entre as duas posições: para Rabi Akivá, comer chayá ou ave em leite é proibido apenas por decreto rabiníco, e cozinhá-las é até permitido, pois o versículo bíblico proibiu apenas o cozimento da behemá pura. Já para Rabi Yosei HaGelili, a carne de chayá é proibida para cozinhar em leite por lei bíblica mesma, como se depreende de suas próprias palavras, enquanto a carne de ave é permitida em leite mesmo por decreto rabiníco, pois ele não concorda com essa cerca. A lei segue Rabi Akivá.
Bartenura explica por que a mistura entre carne pura e leite impuro — ou vice-versa — é totalmente permitida: dos três “cabrito” escritos a respeito da proibição de carne e leite, um serve para excluir o animal impuro, de modo que cozinhar carne de animal impuro mesmo em leite puro é permitido quanto a essa proibição específica — embora continue proibido comer a carne impura por sua própria razão; e, da mesma forma, dos três “no leite de sua mãe”, um exclui o leite de animal impuro, mesmo que a carne seja pura. Sobre as exclusões de Rabi Akivá, explica cada uma: “cabrito” exclui a ave, que não é behemá; exclui também a chayá, apesar de estar incluída, em princípio, na categoria geral de behemá, pois um versículo adicional veio retirá-la; e exclui o animal impuro, como se depreende do uso da palavra “cabrito” para as cabras de Yehudá em Bereshit, mostrando que, quando o texto quer se referir a outro animal, precisa especificá-lo. E resume a diferença entre Rabi Yosei HaGelili e Rabi Akivá: o primeiro entende que a chayá está sob a proibição bíblica, o segundo que não está. A lei segue Rabi Akivá.
Rashi explica que a permissão de cozinhar e de proveito, quando carne e leite vêm de espécies de pureza diferentes, decorre de não haver ali, tecnicamente, a proibição de carne e leite — como se deduz na Guemará —, embora comer a carne impura continue proibido por sua própria razão. E detalha as exclusões de Rabi Akivá: “cabrito” exclui a ave, que não é behemá; exclui a chayá, que embora esteja incluída, em princípio, na categoria de behemá, foi retirada por um versículo adicional; e exclui o animal impuro — mas a behemá pura que não se chama especificamente “cabrito”, como a vaca e a ovelha, permanece incluída por outras derivações expostas na baraita citada na Guemará.