Todo get que foi escrito não para o nome de uma mulher é inválido. Como assim? Estava passando pelo mercado e ouviu a voz de escribas ditando: "Fulano divorcia Fulana, do lugar tal"; e disse: "este é meu nome e este é o nome de minha mulher" — é inválido para divorciar com ele. Mais que isso: escreveu para divorciar com ele sua mulher, mas reconsiderou; encontrou-o um homem de sua cidade e disse-lhe: "meu nome é como o teu nome e o nome de minha mulher é como o nome de tua mulher" — é inválido para divorciar com ele. Mais que isso: tinha duas mulheres, e seus nomes eram iguais; escreveu para divorciar com ele a mais velha — não divorciará com ele a mais nova. Mais que isso: disse ao escrivão: "escreve para qualquer uma que eu quiser divorciar" — é inválido para divorciar com ele. — A Torá exige que o get seja escrito "para ela" (lishmáh) — para aquela mulher específica, com a intenção presente de divorciá-la. A mishná percorre quatro casos, cada um mais próximo da validade que o anterior, e ainda assim todos inválidos: primeiro, um homem que nem sequer encomendou um get — apenas ouviu escribas ensinando a seus alunos o formulário padrão, usando nomes fictícios que por coincidência coincidem com os seus, e quer aproveitar aquele texto; segundo, um homem que de fato mandou escrever um get sério para divorciar sua própria mulher, mas depois reconsiderou e não o usou — e outro homem, de mesmo nome e com mulher de mesmo nome, quer usá-lo; terceiro, um homem com duas mulheres homônimas, que escreveu um get pensando na mais velha — não pode, com o mesmo documento, divorciar a mais nova, ainda que o texto sirva igualmente para ambas; quarto, um homem que instrui o escrivão a escrever o get sem ainda decidir qual das duas esposas divorciará. Em nenhum desses casos o get foi escrito com a intenção definida, no momento da escrita, de divorciar aquela mulher específica — por isso todos são inválidos.
Rambam, no Perush HaMishná, explica cada um dos quatro graus e a razão pela qual apenas o último desqualifica a mulher para o sacerdócio caso o get lhe seja entregue.
Rambam explica que o primeiro get, sobre o qual o homem apenas ouviu os escribas ditarem, nunca foi escrito para fins de divórcio algum — apenas para ensinar aos alunos o formulário, como se diz dos "escribas ocupados em ensinar". O segundo já foi escrito para divorciar, mas não para divorciar aquele homem específico com aquela mulher específica. O terceiro foi escrito para o divórcio deste homem, mas não para divorciar esta mulher — pois a Torá diz "e escreverá para ela", exigindo intenção voltada a ela. E no quarto get nenhuma intenção definida foi formada. Apesar disso, todos são inválidos igualmente — mas nenhum deles desqualifica a mulher do sacerdócio (caso ela seja filha de cohen e o get a torne, por engano, supostamente divorciada), exceto o último, pois ali o próprio homem disse "escreve para qualquer uma que eu quiser divorciar": se ele depois entregar esse get a uma delas, ela fica desqualificada do sacerdócio, ainda que o get em si seja inválido.
Abrindo o Perek Guimel, perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 24a-24b), além de Rambam e Bartenura.
Rashi identifica "a voz dos escribas" como os escribas profissionais que redigem guitin, e nota que a expressão "mais que isso", repetida ao longo da mishná, marca cada caso como uma novidade mais forte que a anterior — a Guemará explicará exatamente qual é a novidade de cada grau. No segundo caso, "reconsiderou" significa que o homem voltou atrás de sua intenção de divorciar. Sobre o quarto caso — o escrivão instruído a escrever "para qualquer uma que eu quiser" —, Rashi explica que a invalidade decorre do princípio de que "não há retroatividade" (ein breirá): não se diz que a decisão posterior esclarece retroativamente qual era a intenção no momento da escrita, de modo a considerar que o get já foi escrito com a intenção voltada para aquela mulher.
Rambam esclarece que os "escribas ditando" não estavam de fato redigindo um get válido, mas ensinando o formulário-padrão a seus alunos, para que o memorizassem — daí porem nomes genéricos, que por coincidência podem soar como os do homem que passa e ouve. Rambam nota ainda que nenhum dos quatro guitin desta mishná é apto a ser usado para divórcio, mas apenas o último — aquele em que o próprio marido não decidiu qual mulher divorciar — desqualifica-a do sacerdócio caso lhe seja entregue, precisamente porque ali houve, da parte do marido, uma intenção real (ainda que indefinida) de usá-lo para divórcio.
Bartenura explica a progressão dos casos: não apenas o get escrito sem intenção alguma de divórcio (apenas para ensino) é inválido, mas também aquele escrito com intenção plena de divórcio e depois abandonado por reconsideração; e não apenas este, mas também o get escrito para divorciar especificamente "este homem" mas sem voltar-se para "esta mulher" — no caso das duas esposas homônimas. Sobre "a mais velha e a mais nova", Bartenura nota que os termos não são exatos: a mishná apenas distingue entre as duas esposas, sem que a idade seja relevante ao caso.