Seder Nashim · Massechet Guitin · Perek Guimel · Mishná 4 de 8

Cidade sitiada, navio em tempestade, condenado à morte: a presunção de vida

שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן פַּרְטָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná registra três testemunhos históricos de Rabi Elazar ben Partá, confirmados pelos sábios, que definem os limites da presunção de vida: cidade cercada (mas não conquistada), navio agitado (mas não perdido) e réu que sai para julgamento (mas ainda não condenado) mantêm a presunção de vida plena; já cidade conquistada, navio perdido e condenado que sai para execução recebem tratamento intermediário — as estringências tanto de vivo quanto de morto.

Três coisas disse Rabi Elazar ben Partá diante dos sábios, e eles confirmaram suas palavras: sobre uma cidade cercada por um acampamento sitiante, sobre o navio agitado no mar, e sobre quem sai para ser julgado — que estão com a presunção de vivos. Mas uma cidade conquistada por um acampamento sitiante, um navio perdido no mar, e quem sai para ser executado — impõem sobre eles as estringências dos vivos e as estringências dos mortos: uma filha de Israel casada com um cohen, e uma filha de cohen casada com um israelita, não comerá da teruma.Rabi Elazar ben Partá trouxe, como testemunho recebido de gerações anteriores, três situações de perigo em que ainda se presume que a pessoa está viva: os moradores de uma cidade sitiada, mas ainda não tomada; os passageiros de um navio sacudido pela tempestade, mas ainda não naufragado; e quem sai para ser julgado, mas cuja sentença ainda não foi proferida — em todos esses casos, ainda não há motivo para presumir a morte. Mas quando a cidade já foi conquistada, o navio já se perdeu no mar, ou o condenado já saiu para ser executado, a situação se torna dúbia: não se pode mais presumir com segurança que a pessoa está viva, mas também não há prova definitiva de morte — por isso aplicam-se simultaneamente as restrições próprias de quem está vivo e as próprias de quem está morto. Assim, a filha de Israel casada com um cohen — que só pode comer da teruma enquanto o marido está vivo — não pode comer, pois talvez ele tenha morrido; e a filha de cohen casada com um israelita — que só volta a comer da teruma de seu pai após a morte do marido — também não pode comer, pois talvez ele ainda esteja vivo.

שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן פַּרְטָא לִפְנֵי חֲכָמִים וְקִיְּמוּ אֶת דְּבָרָיו. עַל עִיר שֶׁהִקִּיפָהּ כַּרְקוֹם, וְעַל הַסְּפִינָה הַמִּטָּרֶפֶת בַּיָּם, וְעַל הַיּוֹצֵא לִדּוֹן, שֶׁהֵן בְּחֶזְקַת קַיָּמִין. אֲבָל עִיר שֶׁכְּבָשָׁהּ כַּרְקוֹם, וּסְפִינָה שֶׁאָבְדָה בַיָּם, וְהַיּוֹצֵא לֵהָרֵג, נוֹתְנִין עֲלֵיהֶן חֻמְרֵי חַיִּים וְחֻמְרֵי מֵתִים, בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן, וּבַת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל, לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, define com precisão os termos técnicos "navio agitado" e "navio perdido".

Rambam · Perush HaMishná, Guitin 3:4
סְפִינָה הַמִּטָּרֶפֶת בַּיָּם הוּא שֶׁסּוֹעֵר עָלֶיהָ הַיָּם... הַסְּפִינָה שֶׁאָבְדָה בַיָּם הוּא שֶׁנִּשְׁבְּרוּ הַכֵּלִים וְהָעֵצִים שֶׁלָּהּ

Rambam distingue os dois estados do navio: "o navio agitado no mar" é aquele sobre o qual o mar se enfurece e ameaça quebrá-lo, e os marinheiros não conseguem controlá-lo conforme desejam pela intensidade da tempestade — mas os mastros e os equipamentos do navio permanecem intactos. Já "o navio perdido no mar" é aquele cujos equipamentos e mastros já se quebraram, tudo se perdeu, e resta apenas o casco à deriva sobre as águas, sem âncora nem remos para dirigi-lo. Esta distinção define exatamente onde termina a presunção plena de vida e começa o estado intermediário das duas estringências.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 28b), além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Guitin 28b, s.v. כרקום; המוטרפת; לידון; בת ישראל לכהן; בת כהן לישראל
כַּרְקוֹם - תַּרְגּוּם מָצוֹר כַּרְכּוֹמִין: הַמִּטָּרֶפֶת - וַעֲדַיִן לֹא טָבְעָה: לִדּוֹן - בְּדִינֵי נְפָשׁוֹת: בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן - חֻמְרֵי מֵתִים: בַּת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל - חֻמְרֵי חַיִּים

Rashi identifica carcom como o termo aramaico para "cerco" (mátsor, na tradução de Onkelos), e explica que "o navio agitado" ainda não afundou — está apenas sacudido pela tempestade. "Sair para ser julgado" refere-se especificamente a julgamento em causas capitais, onde a sentença ainda não foi proferida. Sobre a conclusão da mishná, Rashi explica que a proibição de comer teruma se aplica em direções opostas conforme o caso: a filha de Israel casada com um cohen recebe a estringência própria de quem já é considerada viúva (pois só come teruma enquanto o marido vive, e aqui há dúvida se ele já morreu); já a filha de cohen casada com um israelita recebe a estringência própria de quem ainda é considerada casada (pois só volta a comer da teruma paterna depois que o marido morre, e aqui há dúvida se ele ainda vive) — em ambos os casos, o resultado prático é a mesma proibição de comer, mas por razões opostas.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Guitin 3:4
וְזֶה כֻּלּוֹ דָּבָר אֲמִתִּי

Rambam encerra sua explicação notando que toda essa gradação — cidade cercada versus conquistada, navio agitado versus perdido, réu à espera de julgamento versus já condenado à execução — é "algo verdadeiro", isto é, um critério objetivo e observável para determinar quando a presunção de vida ainda se sustenta plenamente e quando ela se torna duvidosa, exigindo as duas estringências combinadas.

Bartenura · רע״ב
Guitin 3:4
בַּת יִשְׂרָאֵל לְכֹהֵן. חֻמְרֵי מֵתִים: בַּת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל. חֻמְרֵי חַיִּים

Bartenura resume que "carcom" é sinônimo de cerco militar, e que "o navio agitado" ainda não naufragou. Confirma a explicação de que "sair para ser julgado" refere-se a processo em causa capital. Quanto à conclusão, explica sucintamente: para a filha de Israel casada com cohen, aplica-se a estringência própria dos mortos (não podendo comer, como se o marido já tivesse morrido); para a filha de cohen casada com israelita, aplica-se a estringência própria dos vivos (não podendo comer, como se o marido ainda estivesse vivo) — e ela não come da teruma de seu pai.