Quem envia um get à sua esposa e alcançou o mensageiro, ou enviou atrás dele outro mensageiro e disse-lhe: "O get que te dei está anulado" — eis que ele está anulado. Chegou antes junto de sua esposa, ou enviou a ela um mensageiro e disse-lhe: "O get que te enviei está anulado" — eis que ele está anulado. Se, porém, desde que o get chegou à mão dela, ele já não pode mais anulá-lo. — Um marido que enviou um get de divórcio à esposa por meio de um mensageiro ainda tem o poder de revogá-lo, precisamente porque o divórcio só se completa quando o documento chega à posse dela. Ele pode exercer esse poder de duas formas: alcançando fisicamente o mensageiro no caminho — ou enviando atrás dele um segundo mensageiro — e declarando perante ele que o get está anulado; ou chegando ele mesmo junto da esposa antes que o mensageiro a alcance — ou enviando a ela um mensageiro próprio — e declarando a ela diretamente que o get que lhe enviou está anulado. Em ambos os casos, a anulação é eficaz e o documento perde todo valor, ainda que continue fisicamente a caminho. Mas essa janela de revogação se fecha definitivamente no instante em que o get entra na posse da esposa: a partir daí, o divórcio já se consumou e nenhuma declaração posterior do marido pode desfazê-lo. Esta mishná prepara o terreno para a seguinte, que registra a takaná de Rabban Gamliel Hazaken proibindo exatamente esse tipo de anulação silenciosa, por gerar risco de que a mulher se case pensando estar divorciada quando, na verdade, o get já havia sido tornado nulo antes de chegar às suas mãos.
Rambam, no Perush HaMishná, e Bartenura precisam por que o get só pode ser anulado enquanto não chegou à mão da esposa, e distinguem o mensageiro de entrega do mensageiro de recepção.
Rambam explica que o mensageiro mencionado na mishná é um shaliach holachá (mensageiro de entrega), e por isso o get pode ser anulado enquanto não chegar à mão da esposa — mesmo que a anulação ocorra sob coação, como será explicado adiante sobre a validade de um get forçado. Quanto ao caso em que o marido chega antes junto da esposa, Rambam nota que os sábios entenderam que essa atitude pode visar apenas afligi-la (dizendo-lhe algo perturbador sem real intenção jurídica), e por isso tal declaração é considerada inválida como anulação formal nesse contexto específico — ao contrário do mensageiro de recepção (shaliach kabalá), cuja mão já é juridicamente equivalente à mão da própria esposa, de modo que, assim que o get chega a ele, não pode mais ser anulado. Rambam acrescenta que, se o get foi condicionado a um prazo ou a uma condição e já chegou à mão dela, o marido só poderá anulá-lo se não tiver dito "a partir de agora" — pois, tendo dito assim, ainda resta a ele o direito de acrescentar condições ao seu próprio ato.
Bartenura esclarece que a mishná fala mesmo do caso em que o marido não tinha a intenção original de perseguir o mensageiro para alcançá-lo — o mensageiro simplesmente demorou-se no caminho e o marido, tendo por acaso um percurso que passava por ali, o avistou e anulou o get; mesmo assim, a anulação é válida, e não se presume que sua intenção fosse apenas afligir a esposa (o que tornaria a anulação inválida), pois, se sua real intenção fosse anular, ele teria efetivamente perseguido o mensageiro. Bartenura explica ainda que, quando o marido entregou o get condicionado a um prazo ou a uma condição, dizendo "este é teu get a partir de agora e para tal prazo" ou "quando se cumprir tal condição", ele já não pode mais anulá-lo assim que o documento chega à mão dela — e ela se divorciará quando chegar o prazo ou se cumprir a condição; mas se ele não disse "a partir de agora", mesmo depois de o get ter chegado à mão dela, ele ainda pode anulá-lo.
Abrindo o Perek Dalet, perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 32a), além de Rambam e Bartenura.
Rashi explica "e alcançou" como "e o atingiu (no caminho)". Sobre a expressão "não dizemos", ele esclarece a lógica sutil da mishná: quando o próprio marido persegue o mensageiro para alcançá-lo pessoalmente, não suspeitamos que sua intenção seja apenas afligir a esposa por um mês ou dois — pois, se essa fosse sua verdadeira intenção, ele não se daria ao trabalho de correr atrás do mensageiro só para atormentá-la; logo, presumimos que ele realmente deseja anular o get, e a anulação é válida. Mas quando ele envia um segundo mensageiro atrás do primeiro, a situação se inverte: aí sim suspeitamos que sua intenção seja apenas afligi-la, pois o esforço de mandar outro mensageiro é pequeno comparado ao de persegui-lo pessoalmente, e não lhe importa o incômodo causado ao mensageiro tardio. Ainda assim — nota a Guemará, que Rashi acompanha — a halachá é que a anulação por meio de um segundo mensageiro também é válida, embora a motivação presumida seja outra.
Rambam distingue explicitamente entre o mensageiro de entrega (mencionado na mishná) e o mensageiro de recepção, que a esposa designou para receber o get em seu nome: quanto a este último, é evidente que, assim que o get chega à sua mão, o marido não pode mais anulá-lo — pois a mão do mensageiro de recepção é juridicamente equivalente à mão da própria esposa. Rambam também nota que, mesmo um get entregue sob coação (que será tratado adiante) segue essa mesma regra quanto ao momento-limite da anulação.
Bartenura acrescenta que a mishná nos ensina algo relevante: mesmo se víssemos que o marido já andava buscando o mensageiro desde antes com intenção de anulá-lo, não dizemos "revelou-se retroativamente" que ele sempre teve essa intenção — a mishná é decidida apenas pelo ato concreto de alcançá-lo e declará-lo anulado no momento presente. Bartenura reforça ainda a distinção entre um get dado com a cláusula "a partir de agora" (que já não pode ser anulado depois de chegar à mão dela, mesmo que sujeito a prazo ou condição) e um get dado sem essa cláusula, que continua anulável mesmo após chegar à posse da esposa.