Escravo que foi capturado e o resgataram: se com a intenção de escravo, servirá; se com a intenção de homem livre, não servirá. Rabban Shimon ben Gamliel diz: em ambos os casos, servirá. Escravo a quem seu dono deu como apotiki a terceiros, e o libertou — pela letra da lei, o escravo não deve nada; mas pelo bem da ordem social, forçam o dono e ele o torna homem livre, e este escreve um documento sobre seu valor. Rabban Shimon ben Gamliel diz: ele não escreve documento algum, apenas o liberta. — Quando um escravo cananeu de um israelita é capturado e outros israelitas o resgatam do cativeiro, o resultado depende de qual foi a intenção declarada no momento do resgate: se resgataram-no com a intenção de que continuasse escravo — presumivelmente para devolvê-lo ao primeiro dono ou para servir ao segundo —, ele permanece servindo; mas se o resgataram com a intenção explícita de libertá-lo, ele se torna homem livre, sem que ninguém possa reivindicá-lo depois. Rabban Shimon ben Gamliel discorda radicalmente: em qualquer dos dois casos, o escravo continua servindo — porque, se bastasse declarar a intenção de libertá-lo para efetivamente libertá-lo, todo escravo insatisfeito poderia se lançar deliberadamente em mãos de sequestradores, sabendo que seria "resgatado como homem livre" e escaparia assim de seu dono. A segunda parte trata do escravo que o dono ofereceu como apotiki — uma garantia específica dizendo ao credor "cobre exclusivamente deste bem, e de nenhum outro" — a um segundo indivíduo, a quem devia dinheiro. Se, depois, o primeiro dono libertar esse escravo, a rigor da lei ele nada deve ao credor, pois a libertação extingue juridicamente qualquer vínculo de penhor sobre ele; mas, pelo bem da ordem social — para que o credor não encontre esse mesmo escravo mais tarde no mercado e o escravo tenha de ouvir "tu és meu escravo", o que lançaria dúvida difamatória sobre os filhos que viesse a ter como homem livre —, os sábios forçam o credor a libertá-lo também, e o próprio ex-escravo lhe escreve um documento de dívida pelo valor equivalente. Rabban Shimon ben Gamliel discorda apenas quanto a esse último detalhe: quem deveria escrever o documento de dívida não é o escravo, e sim o primeiro dono, que causou o prejuízo ao credor ao esvaziar sua garantia.
Rambam, no Perush HaMishná, explica os fundamentos jurídicos de cada caso e conclui a favor de Rabban Shimon ben Gamliel quanto a quem escreve o documento de dívida; Bartenura confirma essa halachá.
Rambam explica que a regra da mishná ("se com intenção de escravo, servirá; se com intenção de homem livre, não servirá") refere-se ao caso em que o resgate ocorre depois que o primeiro dono já desistiu de recuperá-lo (yeush) — daí por que, se resgatado com intenção de servir, ele passa a pertencer ao segundo dono. Já Rabban Shimon ben Gamliel argumenta que o escravo deve continuar servindo em qualquer caso, para que nenhum escravo se lance deliberadamente em mãos de tropas inimigas na esperança de ser "resgatado como homem livre" e assim escapar de seu dono. Sobre o apotiki, Rambam explica que a palavra é composta e significa "aqui está a garantia": o dono disse ao credor "tu não cobrarás teu dinheiro de outro lugar, apenas deste bem" — por isso, se o escravo morre ou se perde, o credor perde seu dinheiro, e se o dono o liberta, o princípio de que a libertação extingue o penhor deveria isentar o escravo de qualquer dívida. Mas, pelo bem da ordem social, força-se o segundo dono a libertá-lo como o primeiro fez, e ele escreve um documento sobre seu valor de mercado — não sobre o valor total da dívida, se esta for maior. Rambam conclui que a halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel, pois seguimos o princípio de que se julgam os danos indiretos (dinei degarmi), e por isso é o primeiro dono — que causou o prejuízo ao esvaziar a garantia do credor — quem deve escrever o documento de dívida.
Bartenura explica o caso da apotiki: o dono disse ao credor "aqui está a garantia — cobrarás teu crédito deste bem, e não de outro lugar". Se o primeiro dono depois liberta o escravo, pela letra da lei este nada deve ao segundo dono (o credor), pois a libertação extingue o penhor; mas, pelo bem da ordem social — receando que o credor encontre o escravo no mercado e diga "tu és meu escravo", lançando difamação sobre seus futuros filhos — forçam o credor a libertá-lo também, e o escravo lhe escreve um documento de dívida pelo valor de mercado, não pelo valor total do crédito caso este seja maior. Bartenura confirma que Rabban Shimon ben Gamliel discorda apenas quanto a quem escreve o documento — sustentando que não é o escravo, que nada deve, mas o primeiro dono, que prejudicou o penhor do credor e por isso deve indenizá-lo — e que a halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 37b-38a, sobre o escravo capturado; 40b-41a, sobre o apotiki), além de Rambam e Bartenura.
Rashi identifica o escravo da mishná como um escravo cananeu, e explica que "resgataram-no" refere-se a outros israelitas que não seu próprio dono. Sobre o apotiki, ele parafraseia a fórmula do dono ao credor: "se eu não te pagar minha dívida de outro lugar, eis este bem diante de ti para que o cobres dele". Rashi explica o motivo concreto da preocupação social: se o credor mais tarde encontrasse esse mesmo escravo — já vivendo como homem livre — no mercado, poderia lhe dizer "tu és meu escravo", lançando descrédito sobre os filhos que ele viesse a gerar como homem livre. Por isso, quem efetivamente liberta o escravo (o segundo dono, o credor) é quem deve escrever o documento de dívida sobre seu valor, já que foi o primeiro dono quem prejudicou seu direito de penhor ao libertá-lo primeiro.
Rambam detalha a etimologia de apotiki como palavra composta significando "aqui está o penhor" — o dono declarou ao credor que jamais cobraria seu crédito de outro bem senão daquele especificamente reservado. Rambam reforça que a lógica de "danos indiretos" (dinei degarmi) explica por que, na opinião final aceita como halachá (Rabban Shimon ben Gamliel), é o primeiro dono — e não o escravo — quem deve arcar com o prejuízo causado ao credor.
Bartenura confirma a mesma explicação do termo apotiki e esclarece por que o resgate "com intenção de homem livre" já basta para libertar o escravo capturado: como ele não poderia servir ao segundo dono (que o resgatou explicitamente para libertá-lo) nem ao primeiro (que talvez, temendo esse tipo de situação, se abstivesse de resgatar escravos capturados), a mishná decide em favor da liberdade. Já Rabban Shimon ben Gamliel, preocupado com o risco de escravos se lançarem deliberadamente em cativeiro para obter a liberdade por essa via, prefere que ele sirva sempre ao primeiro dono.