Quem é metade escravo e metade homem livre serve a seu dono um dia e a si mesmo um dia — palavras de Bet Hilel. Disseram-lhe Bet Shamai: consertastes seu dono, mas a ele mesmo não consertastes. Casar com uma escrava não pode, pois já é metade homem livre; com uma mulher livre não pode, pois já é metade escravo. Ficará ocioso? Mas não foi o mundo criado senão para procriar e multiplicar-se, como está dito: "não o criou vazio, formou-o para ser habitado" (Isaías 45). Mas pelo bem da ordem social, forçam o dono e ele o torna homem livre, e este escreve um documento sobre metade de seu valor. E Bet Hilel voltou atrás para ensinar conforme as palavras de Bet Shamai. — O caso surge quando um escravo pertence a dois donos e apenas um deles o liberta — ou quando um único dono liberta metade do seu valor, recebendo pagamento parcial —, deixando-o juridicamente dividido: metade escravo, metade homem livre. Bet Hilel propõe inicialmente uma solução de compromisso temporal: ele serviria a seu dono (pela parte que ainda lhe pertence) em dias alternados, e nos demais dias trabalharia livremente para si mesmo. Bet Shamai rejeita essa solução como incompleta: ela resolve o problema do dono, que não perde nada de seu direito sobre a metade que ainda possui, mas não resolve o problema do próprio escravo, que permanece preso numa situação impossível — incapaz de se casar com uma escrava, pois sua parte livre o impede, e incapaz de se casar com uma mulher livre, pois sua parte escrava também o impede. E não se pode simplesmente condená-lo à solidão perpétua, pois o próprio propósito da criação do mundo, segundo o versículo de Isaías, é que ele fosse habitado — implicando a procriação humana como finalidade central da existência. Diante desse impasse, a única solução prática, pelo bem da ordem social, é forçar o dono a completar a libertação, tornando-o inteiramente homem livre; e ele, por sua vez, escreve ao dono um documento de dívida pela metade restante de seu valor, que ainda não havia sido paga. A mishná encerra notando que Bet Hilel, reconhecendo a força do argumento de Bet Shamai, retratou-se de sua posição original.
Rambam, no Perush HaMishná, generaliza o princípio para qualquer número de sócios; Bartenura detalha os dois modos pelos quais essa condição intermediária pode surgir.
Rambam explica que a condição de "metade escravo, metade homem livre" surge tipicamente quando um escravo pertence a dois sócios e um deles o liberta, deixando a outra metade ainda escrava; e generaliza o princípio para qualquer número de proprietários — mesmo que fossem mil sócios e apenas um o libertasse, os demais seriam forçados a libertar sua parte também. O mesmo se aplica quando um único dono recebe do próprio escravo metade de seu valor em dinheiro e o liberta com base nesse pagamento parcial. Rambam ressalva, porém, que se o dono tentou libertar apenas metade do escravo por meio de um documento escrito, esse ato não tem validade alguma, pois o princípio estabelecido é que quem liberta metade de seu escravo não adquiriu nada com esse ato — a forma correta de efetivar a libertação parcial (por documento ou por dinheiro) será explicada no início de Massechet Kidushin.
Bartenura confirma os dois cenários típicos que geram essa condição intermediária: um escravo de dois sócios, libertado por apenas um deles; ou um escravo de dono único, que pagou ao próprio dono metade de seu valor e foi libertado apenas quanto a essa metade. Bartenura explica ainda por que a solução de Bet Hilel "consertava o dono, mas não o próprio escravo": o dono nada perde com o arranjo de dias alternados, mas o escravo permanece incapaz de se casar — com uma escrava, por causa de seu lado livre; com uma mulher livre, por causa de seu lado escravo. E confirma que a regra vale igualmente se o escravo pertencesse a cem sócios e apenas um o libertasse: todos os demais são forçados a libertar sua parte também.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 41a-42a), além de Rambam e Bartenura.
Rashi ilustra o caso típico da mishná com dois irmãos ou dois sócios que herdaram ou possuíam um escravo em conjunto, e um deles libertou sua parte — deixando o escravo dividido. Sobre a impossibilidade de casamento, Rashi confirma a lógica dupla exposta por Bet Shamai: ele não pode se casar com uma escrava por causa do lado livre que já possui, nem com uma mulher livre por causa do lado escravo que ainda lhe resta — uma armadilha jurídica que só a libertação completa pode resolver.
Rambam reforça o princípio técnico de que uma libertação parcial feita apenas por documento escrito é juridicamente nula — não produz efeito algum — porque a regra estabelecida é que "quem liberta metade de seu escravo não adquiriu nada" por esse ato. A libertação parcial só se efetiva de fato quando ocorre por meio de dinheiro recebido do próprio escravo, ou de outras formas que Rambam promete detalhar no início de seu comentário a Massechet Kidushin.
Bartenura confirma a solução final adotada por ambas as escolas: os sábios forçam o dono (ou, no caso de múltiplos sócios, todos os demais proprietários) a completar a libertação do escravo, pelo bem da ordem social — priorizando o propósito procriativo da criação, invocado por Bet Shamai a partir de Isaías, sobre o direito de propriedade parcial que ainda restava ao dono.