Quem divorcia sua esposa por presumi-la ailonit — Rabi Yehudá diz: não pode reatar. E os sábios dizem: pode reatar. Casou-se com outro e teve filhos dele, e ela reclama sua ketuvá — disse Rabi Yehudá: dizem-lhe: teu silêncio te é melhor que tua fala. — Quando um homem descobre, depois de casado, que sua esposa é uma ailonit — mulher fisicamente incapaz de conceber filhos —, ele pode divorciá-la (pois casou-se por engano, presumindo que ela pudesse ter filhos); a disputa da mishná é sobre o que acontece se, mais tarde, descobrir-se que ela não era, de fato, ailonit — pode ele reatar o casamento? Rabi Yehudá diz que não, pelo mesmo receio de "kilkul" (dano retroativo) já visto na mishná anterior: se ele pudesse reatar, poderia mais tarde alegar "se soubesse que ela era fértil, jamais a teria divorciado", ameaçando invalidar retroativamente o get e tornando mamzerim os filhos que ela tivesse tido de um segundo marido. Os sábios discordam, sustentando que esse receio não se aplica aqui. A segunda parte trata de um cenário concreto: a mulher divorciada por presunção de ailonit casou-se com outro homem e efetivamente teve filhos dele — provando, retroativamente, que não era estéril — e agora reclama do primeiro marido o pagamento de sua ketuvá, alegando que ele a divorciara por engano (já que uma ailonit não tem direito a ketuvá, mas ela, não sendo ailonit, teria). Rabi Yehudá responde que, nesse caso, dizem a ela: "teu silêncio te é melhor que tua fala" — ou seja, seria mais sábio para ela desistir da reclamação, pois, se ela insistir, o próprio marido pode alegar "se eu soubesse que acabarias tendo filhos, jamais te teria dado a ketuvá nem te teria divorciado daquela forma" — o que lançaria dúvida sobre a validade do próprio get, e por extensão sobre a legitimidade de seus filhos do segundo casamento.
Rambam, no Perush HaMishná, explica o vínculo com a lei da ketuvá da ailonit em Ketubot e conclui a favor de Rabi Yehudá; Bartenura precisa a identidade dos "sábios" mencionados.
Rambam remete ao que já explicou no fim do capítulo onze de Ketubot: uma ailonit não tem direito a ketuvá, por isso, quando um marido a divorcia sob essa presunção, ela sai sem ketuvá alguma. Mas se, depois, ela tiver filhos de outro homem — provando retroativamente que a presunção era falsa —, e vier reclamar a ketuvá do primeiro marido, dizem-lhe "teu silêncio te é melhor que tua fala": pois ele poderia alegar que, sabendo que ela geraria filhos, jamais a teria divorciado daquela forma — e o get ficaria em risco de invalidação retroativa, tornando mamzerim os filhos do segundo casamento. Sobre quem são os "sábios" que discordam de Rabi Yehudá na primeira cláusula, Rambam explica, com base na Guemará, que se trata de Rabi Meir, que exige que toda condição seja duplicada (afirmativa e negativa) para ter efeito pleno — e, como o marido não duplicou sua condição ao divorciá-la, o get vale mesmo que ela não fosse ailonit, sem risco de kilkul algum. Rambam conclui que a halachá segue Rabi Yehudá.
Bartenura confirma que os "sábios" da primeira cláusula são identificados na Guemará como Rabi Meir, que exige que toda condição jurídica seja formulada em sua forma dupla (afirmativa e negativa) para ser válida como condição plena — e, como o marido não disse explicitamente "e se não fores ailonit, isto não será um get", o get vale de qualquer forma, mesmo que ela não seja ailonit, sem risco de invalidação retroativa. Sobre a reclamação da ketuvá, Bartenura explica que a ailonit não tem direito a ketuvá, e por isso, quando se descobre que ela não era ailonit, ela reclama o pagamento — mas Rabi Yehudá recomenda que ela desista, pelo mesmo receio de kilkul.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 46b), além de Rambam e Bartenura.
Rashi explica que "quem divorcia sua esposa" refere-se ao divórcio formal por get, e que a presunção de ailonit surge quando o marido não percebeu essa condição ao casar-se com ela — mas, mesmo assim, ela precisa de um get formal, pois "ninguém torna sua relação conjugal uma relação de fornicação": o casamento original foi válido, mesmo que baseado num engano. Rashi explica a posição de Rabi Yehudá com precisão: o receio é que ela se case de novo, tenha filhos, e o primeiro marido diga então "se eu soubesse que ela teria filhos, mesmo que me dessem cem moedas eu não a teria divorciado" — o que lançaria dúvida sobre a validade do get original. Sobre a reclamação da ketuvá, Rashi explica que "teu silêncio te é melhor que tua fala" significa que o marido diria "se eu soubesse que acabaria tendo de te pagar a ketuvá, eu não te teria divorciado" — de novo ameaçando invalidar o get e tornar mamzerim os filhos do segundo casamento.
Rambam observa que, se ela teve um filho depois de se casar novamente, isso revela retroativamente que ela nunca foi de fato uma ailonit — o que gera a tensão jurídica central da mishná: a validade do primeiro get, que fora justificado precisamente pela presunção contrária. Por isso o cuidado dos sábios em evitar que essa revelação tardia comprometa o status legal dos filhos do segundo casamento.
Bartenura resume a lógica econômica do caso: como a ailonit não tem direito a ketuvá, o primeiro marido a divorciou sem pagá-la; mas, agora que se prova (pelos filhos que teve) que ela nunca foi ailonit, ela reclama o pagamento retroativo daquilo que lhe seria devido. Ainda assim, Rabi Yehudá recomenda que ela desista da reclamação, pelo mesmo receio de comprometer a validade do get original.