Seder Nashim · Massechet Guitin · Perek Hei · Mishná 9 de 9

Emprestar utensílios e auxiliar gentios no ano sabático, pelos caminhos da paz

מַשְׁאֶלֶת אִשָּׁה לַחֲבֶרְתָּהּ הַחֲשׁוּדָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Hei, a mishná trata dos limites de auxiliar quem é suspeito de transgredir as leis do ano sabático ou dos dízimos, e conclui com a instrução de auxiliar gentios no cultivo da terra e saudá-los, sempre pelos caminhos da paz.

Uma mulher pode emprestar à sua amiga suspeita quanto ao [ano] sabático uma peneira, um crivo, um moinho e um forno, mas não deve escolher [os grãos] nem moer com ela. A esposa de um chaver pode emprestar à esposa de um am ha'aretz uma peneira e um crivo, e pode escolher, moer e peneirar com ela; mas, a partir do momento em que ela derrama água [na massa], não deve tocá-la com ela, pois não se apoia as mãos de quem transgride. E todas [essas permissões] só foram ditas pelos caminhos da paz. E se apoia as mãos dos gentios no [ano] sabático, mas não as mãos de Israel; e se pergunta por seu bem-estar, pelos caminhos da paz.A mishná final do perek trata de até onde vai a proibição de "auxiliar as mãos de transgressores" — isto é, ajudar ativamente alguém a cometer uma transgressão — e como essa proibição se equilibra com a preocupação pelos caminhos da paz. No primeiro caso, uma mulher pode emprestar a uma vizinha suspeita de não separar corretamente os produtos do ano sabático utensílios de uso múltiplo — peneira, crivo, moinho, forno —, pois esses objetos servem a muitos propósitos legítimos, e não se pode presumir que serão usados especificamente para a transgressão; mas ela não deve participar ativamente do processo de peneirar ou moer junto com ela, pois isso seria auxílio direto no ato transgressivo em si. No segundo caso, entre a esposa de um chaver (pessoa meticulosa na observância de dízimos e pureza) e a esposa de um am ha'aretz (pessoa menos escrupulosa nessas leis), a permissão é ainda mais ampla — pode-se até participar ativamente de escolher, moer e peneirar juntas —, pois presume-se que a maioria dos amei ha'aretz de fato separa os dízimos devidos, ainda que não sejam tão cuidadosos quanto um chaver. O limite chega apenas no momento em que a água é derramada sobre a massa, tornando-a suscetível a impureza ritual e sujeita à separação da chalá (porção sacerdotal) — a partir desse ponto, colaborar se tornaria auxílio direto a uma possível transgressão de pureza, e por isso é proibido. A mishná então esclarece que todas essas permissões de emprestar utensílios, mesmo com suas limitações, existem "apenas pelos caminhos da paz" — não porque exista um direito pleno de auxiliar quem transgride, mas porque recusar completamente o empréstimo de utensílios cotidianos geraria hostilidade e ressentimento entre vizinhas. A mishná encerra com uma extensão notável desse mesmo princípio às relações entre judeus e gentios: durante o ano sabático — quando trabalhar a terra de Israel é proibido a judeus —, é permitido auxiliar gentios que cultivam suas próprias terras (com palavras de encorajamento, como "que teus esforços prosperem"), mas não se pode dar esse mesmo encorajamento a um judeu que esteja transgredindo a shemitá cultivando sua terra. E, finalmente, a mishná fecha o perek com a instrução mais ampla de todas: perguntar pelo bem-estar dos gentios — cumprimentá-los, desejar-lhes paz — mesmo em seus dias de festa, pelos caminhos da paz, pois a própria palavra "shalom" é um dos nomes do Santo, Bendito Seja, e estender essa saudação preserva a convivência pacífica entre as nações.

מַשְׁאֶלֶת אִשָּׁה לַחֲבֶרְתָּהּ הַחֲשׁוּדָה עַל הַשְּׁבִיעִית, נָפָה וּכְבָרָה וְרֵחַיִם וְתַנּוּר, אֲבָל לֹא תָבֹר וְלֹא תִטְחַן עִמָּהּ. אֵשֶׁת חָבֵר מַשְׁאֶלֶת לְאֵשֶׁת עַם הָאָרֶץ, נָפָה וּכְבָרָה, וּבוֹרֶרֶת וְטוֹחֶנֶת וּמַרְקֶדֶת עִמָּהּ, אֲבָל מִשֶּׁתַּטִּיל הַמַּיִם, לֹא תִגַּע עִמָּהּ, לְפִי שֶׁאֵין מַחֲזִיקִין יְדֵי עוֹבְרֵי עֲבֵרָה. וְכֻלָּן לֹא אָמְרוּ אֶלָּא מִפְּנֵי דַרְכֵי שָׁלוֹם. וּמַחֲזִיקִין יְדֵי גוֹיִם בַּשְּׁבִיעִית, אֲבָל לֹא יְדֵי יִשְׂרָאֵל, וְשׁוֹאֲלִין בִּשְׁלוֹמָן, מִפְּנֵי דַרְכֵי שָׁלוֹם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica os fundamentos de pureza ritual por trás da água derramada na massa; Bartenura confirma e esclarece os termos técnicos de cada cláusula.

Rambam · Perush HaMishná, Guitin 5:9
מֻתָּר לָהּ לָתֵת מַה שֶּׁנִּזְכַּר לַחֲבֶרְתָּהּ הַחֲשׁוּדָה עַל הַשְּׁבִיעִית, לְפִי שֶׁהֵם כֵּלִים שֶׁאֵינָן מְיֻחָדִין לַעֲבֵרָה... וּמַה שֶּׁאָמַר מִשֶּׁתַּטִּיל מַיִם לָעִסָּה לֹא תִגַּע אֶצְלָהּ, הוּא דָּבָר מֵעִנְיַן הַטֻּמְאָה וְטָהֳרָה

Rambam explica que os utensílios mencionados na primeira cláusula — peneira, crivo, moinho, forno — não são exclusivos de um único uso proibido, podendo servir a muitos propósitos legítimos, o que justifica emprestá-los mesmo a uma pessoa suspeita. Sobre o limite da água derramada na massa, Rambam esclarece que a questão não é mais sobre o ano sabático, mas sobre pureza ritual: a partir desse momento, a massa se torna suscetível a receber impureza, e o am ha'aretz e sua família são presumidos em estado de impureza — de modo que participar do processo depois desse ponto envolveria contribuir para a contaminação ritual da porção de chalá devida aos sacerdotes, uma transgressão distinta e mais grave do que a mera suspeita quanto aos dízimos.

Bartenura · Guitin 5:9
לֹא תָבֹר וְלֹא תִטְחַן עִמָּהּ. לְסַיְּעָהּ, מִפְּנֵי שֶׁאָסוּר לְסַיֵּעַ בַּיָּדַיִם יְדֵי עוֹבְרֵי עֲבֵרָה בִּשְׁעַת הָעֲבֵרָה... וְכֻלָּן לֹא אָמְרוּ כוּ'. לֹא הִתִּירוּ לְהַשְׁאִילָם כֵּלִים וּלְסַיְּעָם בְּלֹא שְׁעַת עֲבֵרָה עַצְמָהּ, אֶלָּא מִשּׁוּם דַּרְכֵי שָׁלוֹם

Bartenura explica que a proibição de "escolher ou moer com ela" existe porque é proibido auxiliar diretamente, com as próprias mãos, quem está no ato de transgredir. E sobre o fechamento da mishná — "todas essas [permissões] só foram ditas pelos caminhos da paz" —, Bartenura esclarece que os sábios não permitiram emprestar utensílios e auxiliar fora do momento exato da transgressão em si por qualquer outro motivo além dos caminhos da paz — ou seja, essa permissão não decorre de um direito automático, mas de uma ponderação deliberada em favor da convivência pacífica.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 61a), encerrando o Perek Hei, além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Guitin 61a, s.v. מתני' על השביעית; ובוררת וטוחנת כו'; ומחזיקין ידי נכרים
מַתְנִיתִין עַל הַשְּׁבִיעִית - לִשְׁמֹר פֵּרוֹת שְׁבִיעִית וּלְהַצְנִיעָם מִן הַבִּעוּר וְאֵילָךְ: וּבוֹרֶרֶת וְטוֹחֶנֶת כוּ' - בַּגְּמָרָא פָּרִיךְ אַמַּאי, הֲרֵי חֲשׁוּדָה עַל הַמַּעַשְׂרוֹת: וּמַחֲזִיקִין יְדֵי נָכְרִים - הָכָא מַשְׁמַע מְסַיְּעִין מַמָּשׁ

Rashi identifica precisamente a natureza da suspeita quanto ao ano sabático: guardar frutos além do momento devido de "bi'ur" (o momento em que os frutos sabáticos devem ser removidos de casa e retirados de uso privado). Sobre a segunda cláusula, Rashi nota que a Guemará questiona por que se permite tanto auxílio à esposa do am ha'aretz — afinal, ela também é suspeita quanto aos dízimos —, e a resposta é que se presume que a maioria dos amei ha'aretz de fato dizima seus produtos. E sobre "apoiam as mãos dos gentios", Rashi confirma que aqui a expressão significa auxílio ativo e literal, e não apenas palavras de encorajamento.

Bartenura · רע״ב
Guitin 5:9
וּמַחֲזִיקִים יְדֵי גוֹיִם. לוֹמַר לָהֶם תֶּחֱזַקְנָה יְדֵיכֶם: וְשׁוֹאֲלִים בִּשְׁלוֹמָם. כָּל הַיָּמִים וַאֲפִלּוּ בְּיוֹם חַגָּם, וְאַף עַל פִּי שֶׁמֵּטִיל שֵׁם שָׁמַיִם עַל הַנָּכְרִי, שֶׁשָּׁלוֹם אֶחָד מִשְּׁמוֹתָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא

Bartenura, em sua leitura da mesma cláusula final, entende "apoiar as mãos dos gentios" como dizer-lhes palavras de encorajamento — "que vossas mãos se fortaleçam" —, uma leitura ligeiramente distinta da de Rashi, mas convergente quanto ao princípio. E sobre saudar os gentios, Bartenura precisa que essa saudação vale em todos os dias, inclusive em seus próprios dias de festa — e observa, notavelmente, que mesmo a palavra "shalom", usada nessa saudação, evoca um dos nomes do próprio Santo, Bendito Seja, o que não impede seu uso na saudação a um gentio, pois a busca pela paz entre os povos transcende essa reserva.

Com esta mishná encerra-se o Perek Hei de Massechet Guitin — nove mishnayot unidas pelo tema "mipnei tikun ha'olam" e "mipnei darkei shalom": os três graus de terra para indenizações, a proteção do comprador de bens já vendidos, o tutor de órfãos, os testemunhos de Rabi Yochanan ben Gudgeda, a evolução da lei do sikarikon, a capacidade jurídica do surdo-mudo e das crianças, a célebre mishná sobre a ordem de leitura da Torá e os demais caminhos da paz, e o encerramento com os limites de auxiliar quem transgride e a instrução de tratar gentios com cordialidade.