Uma mulher pode emprestar à sua amiga suspeita quanto ao [ano] sabático uma peneira, um crivo, um moinho e um forno, mas não deve escolher [os grãos] nem moer com ela. A esposa de um chaver pode emprestar à esposa de um am ha'aretz uma peneira e um crivo, e pode escolher, moer e peneirar com ela; mas, a partir do momento em que ela derrama água [na massa], não deve tocá-la com ela, pois não se apoia as mãos de quem transgride. E todas [essas permissões] só foram ditas pelos caminhos da paz. E se apoia as mãos dos gentios no [ano] sabático, mas não as mãos de Israel; e se pergunta por seu bem-estar, pelos caminhos da paz. — A mishná final do perek trata de até onde vai a proibição de "auxiliar as mãos de transgressores" — isto é, ajudar ativamente alguém a cometer uma transgressão — e como essa proibição se equilibra com a preocupação pelos caminhos da paz. No primeiro caso, uma mulher pode emprestar a uma vizinha suspeita de não separar corretamente os produtos do ano sabático utensílios de uso múltiplo — peneira, crivo, moinho, forno —, pois esses objetos servem a muitos propósitos legítimos, e não se pode presumir que serão usados especificamente para a transgressão; mas ela não deve participar ativamente do processo de peneirar ou moer junto com ela, pois isso seria auxílio direto no ato transgressivo em si. No segundo caso, entre a esposa de um chaver (pessoa meticulosa na observância de dízimos e pureza) e a esposa de um am ha'aretz (pessoa menos escrupulosa nessas leis), a permissão é ainda mais ampla — pode-se até participar ativamente de escolher, moer e peneirar juntas —, pois presume-se que a maioria dos amei ha'aretz de fato separa os dízimos devidos, ainda que não sejam tão cuidadosos quanto um chaver. O limite chega apenas no momento em que a água é derramada sobre a massa, tornando-a suscetível a impureza ritual e sujeita à separação da chalá (porção sacerdotal) — a partir desse ponto, colaborar se tornaria auxílio direto a uma possível transgressão de pureza, e por isso é proibido. A mishná então esclarece que todas essas permissões de emprestar utensílios, mesmo com suas limitações, existem "apenas pelos caminhos da paz" — não porque exista um direito pleno de auxiliar quem transgride, mas porque recusar completamente o empréstimo de utensílios cotidianos geraria hostilidade e ressentimento entre vizinhas. A mishná encerra com uma extensão notável desse mesmo princípio às relações entre judeus e gentios: durante o ano sabático — quando trabalhar a terra de Israel é proibido a judeus —, é permitido auxiliar gentios que cultivam suas próprias terras (com palavras de encorajamento, como "que teus esforços prosperem"), mas não se pode dar esse mesmo encorajamento a um judeu que esteja transgredindo a shemitá cultivando sua terra. E, finalmente, a mishná fecha o perek com a instrução mais ampla de todas: perguntar pelo bem-estar dos gentios — cumprimentá-los, desejar-lhes paz — mesmo em seus dias de festa, pelos caminhos da paz, pois a própria palavra "shalom" é um dos nomes do Santo, Bendito Seja, e estender essa saudação preserva a convivência pacífica entre as nações.
Rambam, no Perush HaMishná, explica os fundamentos de pureza ritual por trás da água derramada na massa; Bartenura confirma e esclarece os termos técnicos de cada cláusula.
Rambam explica que os utensílios mencionados na primeira cláusula — peneira, crivo, moinho, forno — não são exclusivos de um único uso proibido, podendo servir a muitos propósitos legítimos, o que justifica emprestá-los mesmo a uma pessoa suspeita. Sobre o limite da água derramada na massa, Rambam esclarece que a questão não é mais sobre o ano sabático, mas sobre pureza ritual: a partir desse momento, a massa se torna suscetível a receber impureza, e o am ha'aretz e sua família são presumidos em estado de impureza — de modo que participar do processo depois desse ponto envolveria contribuir para a contaminação ritual da porção de chalá devida aos sacerdotes, uma transgressão distinta e mais grave do que a mera suspeita quanto aos dízimos.
Bartenura explica que a proibição de "escolher ou moer com ela" existe porque é proibido auxiliar diretamente, com as próprias mãos, quem está no ato de transgredir. E sobre o fechamento da mishná — "todas essas [permissões] só foram ditas pelos caminhos da paz" —, Bartenura esclarece que os sábios não permitiram emprestar utensílios e auxiliar fora do momento exato da transgressão em si por qualquer outro motivo além dos caminhos da paz — ou seja, essa permissão não decorre de um direito automático, mas de uma ponderação deliberada em favor da convivência pacífica.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 61a), encerrando o Perek Hei, além de Rambam e Bartenura.
Rashi identifica precisamente a natureza da suspeita quanto ao ano sabático: guardar frutos além do momento devido de "bi'ur" (o momento em que os frutos sabáticos devem ser removidos de casa e retirados de uso privado). Sobre a segunda cláusula, Rashi nota que a Guemará questiona por que se permite tanto auxílio à esposa do am ha'aretz — afinal, ela também é suspeita quanto aos dízimos —, e a resposta é que se presume que a maioria dos amei ha'aretz de fato dizima seus produtos. E sobre "apoiam as mãos dos gentios", Rashi confirma que aqui a expressão significa auxílio ativo e literal, e não apenas palavras de encorajamento.
Bartenura, em sua leitura da mesma cláusula final, entende "apoiar as mãos dos gentios" como dizer-lhes palavras de encorajamento — "que vossas mãos se fortaleçam" —, uma leitura ligeiramente distinta da de Rashi, mas convergente quanto ao princípio. E sobre saudar os gentios, Bartenura precisa que essa saudação vale em todos os dias, inclusive em seus próprios dias de festa — e observa, notavelmente, que mesmo a palavra "shalom", usada nessa saudação, evoca um dos nomes do próprio Santo, Bendito Seja, o que não impede seu uso na saudação a um gentio, pois a busca pela paz entre os povos transcende essa reserva.
Com esta mishná encerra-se o Perek Hei de Massechet Guitin — nove mishnayot unidas pelo tema "mipnei tikun ha'olam" e "mipnei darkei shalom": os três graus de terra para indenizações, a proteção do comprador de bens já vendidos, o tutor de órfãos, os testemunhos de Rabi Yochanan ben Gudgeda, a evolução da lei do sikarikon, a capacidade jurídica do surdo-mudo e das crianças, a célebre mishná sobre a ordem de leitura da Torá e os demais caminhos da paz, e o encerramento com os limites de auxiliar quem transgride e a instrução de tratar gentios com cordialidade.