A mulher que disse: Recebe meu get para mim — requer duas duplas de testemunhas: duas que digam "em nossa presença ela disse" [ao agente, para recebê-lo], e duas que digam "em nossa presença ele recebeu e rasgou". [Isso vale] mesmo que sejam as primeiras e também as últimas [as mesmas duas pessoas], ou uma das primeiras e uma das últimas, e uma [terceira testemunha] se junte a elas. A jovem noiva — ela e seu pai recebem seu get. Disse Rabi Yehuda: duas mãos não adquirem como uma só; antes, apenas seu pai recebe seu get. E toda [mulher] que não é capaz de guardar seu get não é capaz de divorciar-se. — Diferentemente do caso anterior, em que o agente foi designado pelo próprio marido perante testemunhas do próprio ato de entrega, aqui é a esposa quem, em algum momento anterior e talvez sem testemunhas do marido presentes, disse a alguém "recebe meu get para mim". Como esse agente se torna, a partir do recebimento, a própria extensão jurídica da esposa — consumando o divórcio de imediato —, a mishná exige prova reforçada em dois níveis: duas testemunhas que confirmem que a designação de fato ocorreu perante elas, e duas testemunhas que confirmem que o agente de fato recebeu o get do marido e o rasgou (um costume de uma época de perseguição religiosa, quando se rasgava o get imediatamente após o recebimento para que não fosse encontrado em posse de judeus). A mishná esclarece que essas quatro testemunhas não precisam ser quatro pessoas distintas: as mesmas duas podem testemunhar ambos os eventos, ou pode haver sobreposição parcial, com uma terceira pessoa completando cada dupla. A mishná passa então ao caso da nearah hame'orasah — a jovem entre doze e doze anos e meio, já noiva mas ainda sob a autoridade legal do pai —, que tem a capacidade jurídica dupla de receber seu próprio get (por já ser considerada, nessa idade, capaz de administrar seus próprios assuntos) ou de tê-lo recebido por seu pai (que ainda mantém autoridade legal sobre ela). Rabi Yehuda discorda desse duplo caminho: como não é possível que duas "mãos" distintas — a dela e a de seu pai — tenham, simultaneamente, o poder pleno de adquirir o get em seu nome, ele conclui que apenas o pai pode recebê-lo enquanto ela ainda está sob sua autoridade. A mishná fecha com um princípio geral que fundamenta todo o tema do capítulo: o divórcio só é válido quando a mulher (ou seu representante legítimo) tem capacidade jurídica real de guardar e preservar o próprio get — pois um documento que se perde ou não pode ser resguardado não estabelece prova confiável do divórcio.
Rambam, no Perush HaMishná, esclarece que o "rasgar" não é condição essencial do get, e que a halachá não segue Rabi Yehuda; Bartenura detalha o mecanismo probatório das duas duplas de testemunhas.
Rambam esclarece que "rasgar" não é uma condição obrigatória do get em si — não se exige que todo agente rasgue o documento —, mas sim que, caso o tenha rasgado, esse fato deve ser testemunhado como parte da cadeia probatória. Sobre "ela e seu pai", Rambam explica que a expressão significa "ou ela, ou seu pai" — não ambos simultaneamente. E o critério que determina se ela mesma pode recebê-lo, mesmo após a morte do pai, é sua capacidade de distinguir seu próprio get de outros objetos. A halachá não segue Rabi Yehuda.
Bartenura explica que a exigência é trazer perante o tribunal duas duplas distintas de testemunhas. Sobre "ela e seu pai", esclarece que significa "ou ela, ou seu pai": ela tem capacidade jurídica própria (yad) por já ser considerada adulta nessa idade, e seu pai também tem autoridade legítima para recebê-lo. E sobre o fechamento da mishná — "não é capaz de divorciar-se" —, Bartenura traz a fonte bíblica: mesmo que o pai receba o get em seu nome, se a filha ainda assim não for capaz de guardá-lo, ela não se divorcia, pois está escrito "e a envia de sua casa" (Devarim 24:1) — o que a Torá exige é um envio que não retorna; fica excluído, portanto, um envio cujo objeto (o get) retorna ou se perde por incapacidade de quem o recebeu de guardá-lo.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 63b-64b), além de Rambam e Bartenura.
Rashi explica o cenário concreto por trás da exigência das duas duplas: trata-se do caso em que o próprio agente, mais tarde, afirma "eu recebi" — e por isso é necessário reconstruir, com testemunhas independentes, tanto o momento da designação quanto o do recebimento efetivo. Sobre a possibilidade de sobreposição de testemunhas, Rashi confirma que uma terceira pessoa que serviu de testemunha em ambos os eventos pode se juntar às duas duplas, completando o requisito mesmo sem quatro pessoas totalmente distintas. Sobre "ela e seu pai", Rashi acrescenta uma nuance importante: mesmo depois que o pai morre, a capacidade jurídica (yad) da própria noiva já está estabelecida por ser considerada adulta — e se ela ficasse órfã, ela mesma constituiria sua própria condição jurídica e receberia seu get; a mishná não muda esse fato mesmo enquanto o pai ainda vive. E, por fim, Rashi cita a fonte da darshá final: a Guemará em Yevamot (113b) já ensinou que a expressão bíblica "e a envia de sua casa" (Devarim 24:1) exclui qualquer envio cujo resultado seja um retorno — por isso, mesmo que o pai receba o get em nome dela, se ela não for capaz de guardá-lo, o divórcio não se completa.
Rambam confirma que a halachá não segue Rabi Yehuda, deixando estabelecido que tanto a própria nearah hame'orasah quanto seu pai têm capacidade legítima de recepção — não sendo necessário escolher entre um ou outro por princípio.
Bartenura acrescenta o contexto histórico por trás da menção ao "rasgar": esta cláusula da mishná foi ensinada durante uma época de perseguição religiosa, quando as autoridades decretaram contra a observância dos mandamentos, e os judeus rasgavam o get imediatamente após seu recebimento para que o documento não fosse encontrado e usado como prova contra eles.