Seder Nashim · Massechet Guitin · Perek Vav · Mishná 4 de 7

Comer da teruma até o get chegar: as consequências práticas da agência

הָבֵא לִי גִטִּי, אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה עַד שֶׁיַּגִּיעַ גֵּט לְיָדָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica, na prática, a distinção entre agente de entrega e agente de recebimento estabelecida nas mishnayot anteriores ao caso concreto de uma esposa de cohen, cujo direito de comer da teruma cessa no exato momento em que o divórcio se consuma.

Traze-me meu get — ela come da teruma até que o get chegue à sua posse. Recebe meu get para mim — está proibida de comer da teruma imediatamente. Recebe meu get para mim em tal lugar — ela come da teruma até que o get chegue àquele lugar. Rabi Eliezer proíbe imediatamente.Uma mulher casada com um cohen tem o direito de comer da teruma enquanto o casamento estiver intacto; esse direito cessa no exato instante em que o divórcio se consuma. A mishná aplica esse princípio às três fórmulas já vistas nas mishnayot anteriores. Quando ela diz ao seu agente "traze-me meu get", ela o constitui apenas agente de entrega — uma extensão do marido, não dela —, de modo que o divórcio só se consuma quando o documento chega fisicamente à posse dela; até esse momento, ela permanece plenamente autorizada a comer da teruma. Mas quando ela diz "recebe meu get para mim", ela o constitui agente de recebimento pleno — sua própria extensão jurídica —, e o divórcio se consuma no instante em que o marido entrega o documento a esse agente, ainda que ela, fisicamente distante, sequer saiba disso; por isso a mishná determina que ela fica proibida de comer da teruma imediatamente a partir desse momento, pois há receio real de que o marido já tenha encontrado o agente e lhe entregado o get sem que ela tivesse conhecimento do momento exato. A terceira cláusula trata do caso intermediário, já visto na mishná anterior: se ela disse "recebe meu get para mim em tal lugar", condicionando a agência de recebimento a um local específico, ela continua comendo da teruma até que o get de fato chegue àquele lugar determinado — pois só ali a agência de recebimento é válida, e antes disso não há divórcio algum. Rabi Eliezer discorda dessa última cláusula: consistente com sua posição na mishná anterior — de que a menção do lugar pela esposa é mera indicação, e não condição vinculante —, ele sustenta que, uma vez que o agente pode ter recebido o get em qualquer lugar onde encontrou o marido, ela deve ser proibida de comer da teruma imediatamente, por receio de que o recebimento já tenha ocorrido fora do lugar mencionado.

הָבֵא לִי גִטִּי, אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה עַד שֶׁיַּגִּיעַ גֵּט לְיָדָהּ. הִתְקַבֵּל לִי גִטִּי, אֲסוּרָה לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה מִיָּד. הִתְקַבֵּל לִי גִטִּי בְמָקוֹם פְּלוֹנִי, אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה עַד שֶׁיַּגִּיעַ גֵּט לְאוֹתוֹ מָקוֹם. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹסֵר מִיָּד:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, confirma que a halachá não segue Rabi Eliezer; Bartenura esclarece a razão prática do receio por trás da posição de Rabi Eliezer.

Rambam · Perush HaMishná, Guitin 6:4
הַבֵּא לִי גִטִּי אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה כוּ': וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

Rambam confirma, de forma sucinta, que a halachá segue a posição da maioria dos sábios: a esposa que designou seu agente de recebimento com um lugar específico como condição continua comendo da teruma até que o get de fato chegue àquele lugar determinado, e não antes.

Bartenura · Guitin 6:4
הָבֵא לִי גִטִּי אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה. אִם אֵשֶׁת כֹּהֵן הִיא, עַד שֶׁיַּגִּיעַ גֵּט לְיָדָהּ. לְאוֹתוֹ מָקוֹם. שֶׁכָּךְ אָמְרָה לוֹ לֹא תְהֵא שְׁלוּחִי אֶלָּא שָׁם. וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹסֵר מִיָּד. מִשֶּׁפָּרַשׁ מֵאֶצְלָהּ. וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר לְטַעֲמֵיהּ דְּמַכְשִׁיר כְּשֶׁקִּבְּלוֹ בְּמָקוֹם אַחֵר, דְּמַרְאָה מָקוֹם הִיא לוֹ וּמִשְּׁעַת קַבָּלָה אִגָּרְשָׁה לָהּ, לְפִיכָךְ מִשָּׁעָה שֶׁפָּרַשׁ מִלְּפָנֶיהָ אֲסוּרָה, שֶׁמָּא מְצָאוֹ חוּץ לָעִיר וְקִבְּלוֹ הֵימֶנּוּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

Bartenura confirma que a mishná trata especificamente da esposa de um cohen, e que "até que chegue àquele lugar" reflete exatamente o que ela disse ao agente: que ele não seria seu agente de recebimento senão naquele lugar preciso. E explica a consistência lógica de Rabi Eliezer: como ele já sustenta, na mishná anterior, que a menção do lugar pela esposa é mera indicação — e não condição vinculante —, ele conclui aqui que, desde o momento em que o agente se separa da presença dela, ela já deve ser proibida de comer da teruma, por receio de que ele tenha encontrado o marido fora da cidade e recebido o get dele em outro lugar qualquer. A halachá, contudo, não segue Rabi Eliezer.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 65a-65b), além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Guitin 65a-65b, s.v. מתני' הבא לי גיטי אוכלת בתרומה; לאותו מקום; אוסר מיד; דהא מראה מקום היא לו
מַתְנִיתִין הָבֵא לִי גִטִּי אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה - אִם אֵשֶׁת כֹּהֵן הִיא עַד שֶׁיַּגִּיעַ גֵּט לְיָדָהּ: לְאוֹתוֹ מָקוֹם - שֶׁכָּךְ אָמְרָה לוֹ לֹא תְהֵא שְׁלוּחִי אֶלָּא שָׁם: אוֹסֵר מִיָּד - מִשֶּׁפָּרַשׁ מֵאֶצְלָהּ, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר לְטַעֲמֵיהּ דְּמַכְשִׁיר כְּשֶׁקִּבְּלוֹ בְּמָקוֹם אַחֵר, דְּמַרְאָה מָקוֹם הִיא לוֹ, וּמִשְּׁעַת קַבָּלָה אִגָּרְשָׁה לָהּ, לְפִיכָךְ מִשָּׁעָה שֶׁפָּרַשׁ מִלְּפָנֶיהָ אֲסוּרָה, שֶׁמָּא מְצָאוֹ חוּץ לָעִיר וְקִבְּלוֹ הֵימֶנּוּ: דְּהָא מַרְאֶה מָקוֹם הִיא לוֹ - דְּאָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר לְעֵיל אִשָּׁה כֵּיוָן דְּלָאו בְּדִידָהּ תַּלְיָא קְבִיעוּת מְקוֹמָהּ, לֹא הַוְיָא קְפֵידָא אֶלָּא כְּמַרְאֶה מָקוֹם

Rashi confirma que a mishná pressupõe uma mulher casada com um cohen, e explica com precisão o mecanismo do receio por trás da posição de Rabi Eliezer: como ele já entende, na mishná anterior, que a menção do lugar pela esposa não é uma condição real — apenas uma indicação de onde encontrá-la —, ele conclui que o recebimento do get pode ter ocorrido em qualquer lugar onde o agente encontrou o marido, inclusive fora da cidade; por isso, assim que o agente se separa da presença da esposa para ir ao encontro do marido, já existe receio suficiente para proibi-la de comer da teruma, mesmo antes que o get retorne ao lugar combinado. E Rashi conecta essa posição à razão de fundo já explicada: como não é a esposa quem determina o próprio paradeiro de forma soberana e vinculante para efeitos do get, sua menção do lugar não passa de uma indicação prática.

Rambam · רמב״ם
Perush HaMishná, Guitin 6:4
הַבֵּא לִי גִטִּי אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה כוּ': וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

Rambam reafirma que a halachá não segue Rabi Eliezer também neste ponto específico, mantendo a coerência com a posição já fixada na mishná anterior sobre a validade da condição de lugar estabelecida pela esposa.