Aquele que diz [a dois ou três testemunhas]: Escrevam um get e deem à minha esposa; ou: Divorciem-na; ou: Escrevam uma carta e deem a ela — eis que estes devem escrever e dar. [Mas se disse:] Livrem-na; ou: Sustentem-na; ou: Façam para ela conforme o costume; ou: Façam para ela como convém — não disse nada. No princípio diziam: aquele que sai [para ser executado] com uma coleira ao pescoço e disse: Escrevam um get para minha esposa — eis que estes devem escrever e dar. Depois voltaram a dizer: também aquele que se lança ao mar e aquele que sai em caravana. Rabi Shimon Shezuri diz: também o moribundo. — A mishná estabelece um critério de clareza para a validade das ordens de divórcio dadas verbalmente pelo marido. As três primeiras expressões — "escrevam um get e deem à minha esposa", "divorciem-na" e "escrevam uma carta e deem a ela" — são inequivocamente compreendidas por qualquer pessoa como referência ao get, o documento de divórcio, e por isso as testemunhas ou escribas instruídos devem escrever o documento e entregá-lo à esposa. Em contraste, as quatro expressões seguintes — "livrem-na" (que pode significar isenção de obrigações, e não necessariamente divórcio), "sustentem-na" (que pode se referir apenas ao sustento material, e não à ruptura do vínculo), "façam para ela conforme o costume" e "façam para ela como convém" (ambas vagas demais, podendo se referir tanto ao get quanto a obrigações de alimentação e vestuário) — são consideradas ambíguas demais para constituir uma ordem clara de divórcio, e por isso "não disse nada": nenhum get deve ser escrito com base nelas. A mishná passa então a registrar uma evolução histórica na halachá sobre um ponto delicado: quando alguém diz apenas "escrevam um get para minha esposa", sem acrescentar explicitamente "e deem a ela", em princípio faltaria a instrução clara de entrega. No entanto, no caso do homem levado à execução com uma coleira ao pescoço — cuja urgência e proximidade da morte deixam implícita a intenção de que o get seja de fato entregue, e não apenas escrito —, os sábios sempre concordaram que "escrevam" já basta, pois o contexto extremo demonstra a intenção completa. Posteriormente, os sábios ampliaram esse mesmo raciocínio a duas outras situações de perigo iminente e afastamento — aquele que embarca rumo ao mar e aquele que parte em caravana pelo deserto —, reconhecendo que, também nesses casos, dizer apenas "escrevam" já revela a intenção de que o get chegue efetivamente à esposa. Rabi Shimon Shezuri estende ainda mais essa lista, incluindo também o moribundo (mesucan) — aquele gravemente enfermo, cuja proximidade da morte gera a mesma presunção de intenção plena — e a halachá segue sua opinião mais abrangente.
Rambam, no Perush HaMishná, explica por que basta dizer "escrevam" nesses casos extremos, e confirma a halachá segundo Rabi Shimon Shezuri; Bartenura esmiúça o sentido exato de cada expressão ambígua.
Rambam identifica precisamente cada figura mencionada na mishná: o levado com coleira é aquele que sai da prisão para ser julgado pelo rei (rumo à execução); o que se lança ao mar é quem embarca em viagem marítima; e o que sai em caravana é quem parte por caminhos desérticos com uma comitiva. Rambam explica a lógica comum a todos esses casos: basta que digam apenas "escrevam", mesmo sem acrescentar "e deem", porque a própria situação de perigo extremo já revela que a intenção plena do marido era que o get fosse escrito e entregue, retirando-a de sua autoridade marital antes de sua possível morte. E a halachá segue Rabi Shimon Shezuri, que estende esse mesmo raciocínio ao moribundo.
Bartenura explica por que "carta" também designa o get: no próprio texto do documento consta a expressão "e carta de despedida" — daí seu uso como sinônimo. Sobre as expressões ambíguas, Bartenura esclarece o motivo de cada uma delas ser insuficiente: "livrem-na" pode significar tanto isenção quanto obrigação, servindo apenas para aliviar dela certas obrigações que porventura devesse, sem qualquer referência necessária ao divórcio; "sustentem-na" é linguagem de prover suas necessidades, e por isso não sabemos se a intenção é livrá-la do vínculo do levirato (o que exigiria o get) ou apenas prover-lhe vestimenta e sustento material; e "conforme o costume" tampouco esclarece se o "costume" em questão é o do divórcio ou o da manutenção material — e o mesmo vale para "como convém".
Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 65b), além de Rambam e Bartenura.
Rashi confirma que "escrevam um get e deem à minha esposa" é linguagem coloquial já consagrada entre as pessoas para se referir ao documento de divórcio, e o mesmo vale para "divorciem-na". E "escrevam uma carta e deem a ela" também é linguagem do próprio texto do get, que costuma conter as palavras "que sejas para mim um livro de repúdio e carta de despedida". Sobre "livrem-na", Rashi confirma a razão de Bartenura: talvez a expressão signifique "isentar" de alguma obrigação, sem qualquer conexão necessária com o divórcio. E sobre o levado com a coleira, Rashi explica o mecanismo psicológico por trás da regra: precisamente por causa de seu medo e agitação diante da execução iminente, ele está ocupado demais com sua própria situação para se explicar com precisão total — e por isso, mesmo sem dizer explicitamente "e deem", entende-se que sua intenção completa era que o get fosse escrito e efetivamente entregue.
Rambam resume o princípio unificador de todos os casos de perigo iminente mencionados na mishná: a própria natureza extrema da circunstância — execução, viagem marítima, travessia do deserto ou doença grave — já demonstra, por si só, que a intenção do marido inclui a entrega efetiva do get, mesmo quando ele não a menciona explicitamente.
Bartenura confirma que "levado com a coleira" refere-se a alguém sentenciado à execução pelo poder do reino (não necessariamente por tribunal judaico), e que "moribundo" designa o doente gravemente enfermo. E conclui com a decisão halachica: a opinião de Rabi Shimon Shezuri é a que prevalece, incluindo o doente grave entre aqueles cuja simples ordem "escrevam" já implica a intenção plena de entrega.