Seder Nashim · Massechet Guitin · Perek Zayin · Mishná 1 de 9

O tomado por kurdiakos, a retratação na loucura passageira, e o marido mudo que assente com a cabeça

מִי שֶׁאֲחָזוֹ קֻרְדְּיָקוֹס
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Zayin, a mishná trata da capacidade mental do marido no momento de ordenar o get: o homem tomado por uma insanidade passageira (kurdiakos) que dá a ordem enquanto insano não disse nada; mas se ordenou com lucidez e só depois, já insano, tentou retratar, sua retratação não tem valor; e fecha com o caso do marido emudecido, cuja resposta de cabeça a perguntas repetidas três vezes basta para validar o get.

Aquele a quem tomou o kurdiakos, e disse: Escrevam um get para minha esposa — não disse nada. Disse: Escrevam um get para minha esposa, e o tomou o kurdiakos, e voltou e disse: Não escrevam — suas últimas palavras não são nada. Emudeceu, e disseram-lhe: Escreveremos um get para tua esposa? — e ele inclinou a cabeça, examinam-no três vezes; se disse sobre o não, não, e sobre o sim, sim, eis que estes devem escrever e dar.A mishná abre o Perek Zayin com uma série de casos em que a capacidade mental do marido no momento exato da ordem determina a validade do get. O kurdiakos é uma forma de insanidade temporária, causada segundo a Guemará pela embriaguez de vinho novo tirado direto do lagar — um estado de confusão mental passageira e reconhecível, do qual a pessoa se recupera. Se o marido, já tomado por esse estado, ordena escrever o get, sua ordem não vale absolutamente nada, pois ele não estava em condições de tomar uma decisão halachicamente válida — não há necessidade sequer de considerar suas palavras. Mas se ele deu a ordem enquanto ainda lúcido, e só depois foi tomado pelo kurdiakos e, nesse estado alterado, tentou retratar-se dizendo "não escrevam", essa retratação tardia não tem nenhum valor, porque foi proferida fora de um estado de sanidade — a ordem original, dada com plena lucidez, permanece válida, e os escribas podem prosseguir com a escrita do get com base nela. A mishná passa então a um caso diferente: o do marido que emudeceu — perdeu a capacidade de falar, mas não necessariamente a lucidez mental. Quando lhe perguntam se deseja que escrevam um get para sua esposa e ele apenas inclina a cabeça em sinal afirmativo, essa resposta não verbal não é aceita de imediato como prova suficiente de sua vontade consciente; por isso, examinam-no três vezes com perguntas variadas, algumas com resposta esperada negativa e outras com resposta esperada positiva. Somente se ele responder consistentemente — inclinando a cabeça de um certo modo para "não" quando a resposta correta é não, e de outro modo para "sim" quando a resposta correta é sim — é que sua competência mental fica demonstrada, e então podem escrever e entregar o get com base nesses sinais.

מִי שֶׁאֲחָזוֹ קֻרְדְּיָקוֹס, וְאָמַר, כִּתְבוּ גֵט לְאִשְׁתִּי, לֹא אָמַר כְּלוּם. אָמַר, כִּתְבוּ גֵט לְאִשְׁתִּי, וַאֲחָזוֹ קֻרְדְּיָקוֹס, וְחָזַר וְאָמַר, אַל תִּכְתֹּבוּ, אֵין דְּבָרָיו הָאַחֲרוֹנִים כְּלוּם. נִשְׁתַּתֵּק, וְאָמְרוּ לוֹ נִכְתֹּב גֵּט לְאִשְׁתֶּךָ, וְהִרְכִּין בְּרֹאשׁוֹ, בּוֹדְקִין אוֹתוֹ שְׁלֹשָׁה פְעָמִים, אִם אָמַר עַל לָאו לָאו וְעַל הֵן הֵן, הֲרֵי אֵלּוּ יִכְתְּבוּ וְיִתֵּנוּ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, define com precisão médica o que é o kurdiakos e explica por que não se pergunta novamente ao marido depois que ele se recupera; Bartenura detalha o mecanismo do exame por sinais de cabeça.

Rambam · Perush HaMishná, Guitin 7:1
קוּרְדְּיָקוֹס חלִי מִתְחַדֵּשׁ מִמְּלוֹי חַדְרֵי הַמּוֹחַ וּמִתְבַּלְבֵּל הַדַּעַת מִפְּנֵי כָּךְ... וְאָמְרוּ אֵין דְּבָרָיו הָאַחֲרוֹנִים כְּלוּם, רְצוֹנִי לוֹמַר שֶׁאֵין אָנוּ צְרִיכִין לִשְׁאוֹל אוֹתוֹ פַּעַם שְׁנִיָּה אַחַר שֶׁיֵּצֵא מֵחָלְיוֹ אִם יַעֲמֹד עַל דְּבָרָיו אוֹ לֹא

Rambam explica que o kurdiakos é uma doença que surge do preenchimento excessivo das cavidades do cérebro, o que perturba a mente por essa razão — sendo uma espécie das doenças que causam queda ou convulsão. E quando a mishná diz que suas últimas palavras não são nada, o sentido é que não precisamos voltar a perguntar-lhe, depois que sair de sua doença, se ele mantém suas palavras originais ou não — a ordem inicial, dada com lucidez, já é suficiente e definitiva; apenas não se escreve o get enquanto durar esse estado de confusão. E "inclinou a cabeça" significa que ele faz um sinal com a cabeça que constitui uma resposta correta à pergunta, e o examinam com todos os tipos possíveis de verificação, na medida do que for viável.

Bartenura · Guitin 7:1
מִי שֶׁאֲחָזוֹ קֻרְדְּיָקוֹס. שֶׁנִּתְבַּלְבְּלָה דַּעְתּוֹ מֵחֲמַת שֵׁד הַשּׁוֹלֵט עַל הַשּׁוֹתֶה יַיִן חָדָשׁ... הִרְכִּין. הִטָּה... בּוֹדְקִין אוֹתוֹ. בִּדְבָרִים אֲחֵרִים

Bartenura explica que o kurdiakos é o estado em que a mente da pessoa fica perturbada por causa de uma espécie de espírito que domina quem bebe vinho recém-tirado do lagar. Sobre "não é preciso voltar a perguntar-lhe": não é necessário retornar e questioná-lo depois que sua mente se assenta — basta escrever o get apoiando-se em suas primeiras palavras; mas enquanto sua mente ainda estiver perturbada, não se escreve o get. "Inclinou" significa que ele se curvou, fez um gesto de assentimento. E "examinam-no" significa que o questionam com outras perguntas diversas, para confirmar que sua resposta corresponde de fato ao que lhe é perguntado, e não é apenas um movimento aleatório.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 67b), que abre o Perek Zayin, além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Guitin 67b, s.v. מתני' מי שאחזו קורדייקוס; לא אמר כלום
מַתְנִי׳ מִי שֶׁאֲחָזוֹ קוֹרְדְּיָיקוֹס - שֵׁם שֵׁדָה הַשּׁוֹלֶטֶת כְּשֶׁשּׁוֹתֶה יַיִן הַרְבֵּה מִגִּתּוֹ: לֹא אָמַר כְּלוּם - שֶׁאֵין דַּעְתּוֹ מְיֻשֶּׁבֶת

Rashi identifica o kurdiakos como o nome de uma força demoníaca que domina aquele que bebe muito vinho ainda novo, recém-saído do lagar. E explica que "não disse nada" significa que sua mente não está assentada — ou seja, não está em condições de emitir uma declaração halachicamente vinculante, e por isso a ordem dada nesse estado é tratada como se nunca tivesse sido pronunciada.

Rambam · רמב״ם
Perush HaMishná, Guitin 7:1
קוּרְדְּיָקוֹס חלִי מִתְחַדֵּשׁ מִמְּלוֹי חַדְרֵי הַמּוֹחַ וּמִתְבַּלְבֵּל הַדַּעַת מִפְּנֵי כָּךְ וְהוּא מִין מִמִּינֵי חלִי הַנּוֹפֵל

Rambam esclarece a etiologia médica do kurdiakos: trata-se de um distúrbio que resulta do excesso de acúmulo nas cavidades do cérebro, que por essa razão perturba a mente — enquadrando-o entre as doenças que causam quedas ou convulsões, um estado reconhecível e transitório do qual a pessoa se recupera.

Bartenura · רע״ב
Guitin 7:1
מִי שֶׁאֲחָזוֹ קֻרְדְּיָקוֹס. שֶׁנִּתְבַּלְבְּלָה דַּעְתּוֹ מֵחֲמַת שֵׁד הַשּׁוֹלֵט עַל הַשּׁוֹתֶה יַיִן חָדָשׁ: בּוֹדְקִין אוֹתוֹ. בִּדְבָרִים אֲחֵרִים

Bartenura confirma que o kurdiakos é causado por um espírito que domina quem bebe vinho recém-saído do lagar, e esclarece que o exame das três vezes se faz com perguntas variadas e diferentes entre si, de modo a confirmar que a resposta do marido reflete de fato compreensão consciente, e não um movimento involuntário e sem sentido.