Disse a ela: "recolhe este título de dívida" — ou ela o achou atrás dele, lê e eis que é seu get — não é get, até que lhe diga: "eis aqui teu get". Deu em sua mão e ela estava dormindo; acordou, lê e eis que é seu get — não é get, até que lhe diga: "eis, isto é teu get". Estava de pé na via pública e ele o atirou a ela — perto dela, está divorciada; perto dele, não está divorciada; metade por metade, está divorciada e não está divorciada. — A mishná examina agora casos em que o get chega às mãos ou ao conhecimento da esposa sem que o marido tenha, no momento da entrega, declarado explicitamente que se tratava de um get. No primeiro caso, o marido diz "recolhe este título de dívida", entregando-lhe deliberadamente um documento disfarçado — ou ela simplesmente o encontra atrás dele, sem que ele diga nada. Em ambas as situações, mesmo que ela leia o documento e descubra, por si mesma, que se trata de seu get, isso não basta: o get só se torna válido quando o marido declara expressamente "eis aqui teu get", pois a entrega de um documento de divórcio exige que ambas as partes saibam, no momento em que ela o recebe, que é precisamente isso que está sendo entregue — e não apenas que ela descubra o fato por conta própria depois. A mesma exigência se aplica ao segundo caso, ainda mais delicado: o marido coloca o get na mão da esposa enquanto ela dorme; ao acordar, ela o lê e descobre que é seu get — mas isso também não basta, porque no momento em que o documento foi fisicamente colocado em sua mão, ela estava inconsciente e não podia receber a declaração do marido; é necessário que, depois de acordada, ele lhe diga explicitamente "eis, isto é teu get", repetindo a entrega com plena consciência de ambas as partes. A mishná fecha com o caso já familiar da esposa na via pública, mas agora acrescentando a terceira possibilidade: se o get atirado cai numa distância exatamente equidistante entre os dois — nem mais perto dela, nem mais perto dele —, o caso permanece em dúvida genuína, e ela é declarada "divorciada e não divorciada": presa à chalitzá caso o marido morra sem filhos, mas incapaz de se casar livremente com outro homem, exatamente como nos demais casos de dúvida vistos ao longo destes dois perakim.
Rambam, no Perush HaMishná, define o critério exato de "perto dela" e "perto dele", e lembra que ela permanece presa à chalitzá rabínica até que o get chegue efetivamente à sua mão; Bartenura precisa em que consiste a distância que separa cada caso.
Rambam explica que a declaração "eis aqui teu get" precisa vir acompanhada de um gesto que indique que ela deve tomá-lo naquele momento como entrega formal — não bastando que o documento simplesmente esteja fisicamente ao alcance dela. E acrescenta um princípio geral válido para toda a mishná: em qualquer caso de dúvida sobre se o get chegou efetivamente à mão ou à posse legal da esposa, ela permanece, por decreto rabínico, presa à exigência de chalitzá até que a questão se resolva com clareza.
Bartenura define "perto dela" e "perto dele" não por uma medida fixa de distância, mas pela capacidade prática de cada um proteger o documento de ser levado por terceiros ou por um animal: se apenas ela consegue alcançá-lo e protegê-lo a tempo, o get está "perto dela"; se apenas ele consegue, está "perto dele"; e se ambos conseguem, ou nenhum dos dois consegue, o caso é de "metade por metade".
Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 78b), que discute a base do caso de "metade por metade" a partir do get que sai do espaço de quatro cotovelos do marido para o da esposa — além de Rambam e Bartenura.
A Guemará explica o caso mais complexo de "metade por metade" com o exemplo físico de um get comprido o suficiente para se estender por dois espaços de posse ao mesmo tempo — parte dele já dentro do espaço de quatro cotovelos que pertence à esposa (que a lei trata como extensão de sua posse na via pública), e parte ainda dentro do espaço equivalente do marido. Rashi explica que é justamente esse tipo de situação — o get literalmente saindo do domínio de um para o domínio do outro, sem pertencer inteiramente a nenhum dos dois no momento decisivo — que gera a dúvida genuína descrita na mishná como "divorciada e não divorciada".
Rambam repete e reforça o ponto central: o simples conhecimento do conteúdo do documento por parte da esposa — seja por tê-lo lido, seja por ter descoberto o que era — nunca substitui a declaração ativa e consciente do marido no momento da entrega, porque o get exige clareza mútua de intenção, e não apenas a constatação factual de que o documento existe e é dela.
Bartenura esclarece o cenário exato do segundo caso: o marido carregava o get nas costas e curvava-se para que ela pudesse retirá-lo — mas mesmo esse gesto físico de disponibilizar o documento não basta sem a declaração verbal; assim que ele diz "toma teu get", porém, a entrega já se consuma, ainda que ela o retire das costas dele e não de uma superfície neutra.