Beit Shammai dizem: um homem pode divorciar sua esposa com um get velho. E Beit Hillel proíbem. E qual é o get velho? Todo aquele em que ele se recluiu a sós com ela depois de tê-lo escrito para ela. — A mishná traz um caso relativamente breve, mas de consequência prática considerável: um marido escreve o get para sua esposa, mas não o entrega de imediato — o documento fica pronto, guardado, enquanto o casal continua a viver junto por um tempo, inclusive se reclui a sós com ela, como fazem os cônjuges normalmente. Só depois disso é que ele finalmente lhe entrega o mesmo documento, já escrito havia algum tempo. Esse é o "get velho" (get yashan) da mishná: não um get desatualizado por defeito formal, mas um get cuja escrita precedeu significativamente sua entrega, com uma reclusão conjugal de permeio. Beit Shammai permite que esse get seja usado para divorciar a esposa, considerando que a validade de um get depende apenas de sua correta escrita e entrega, independentemente de quanto tempo passou entre uma e outra, ou do que ocorreu nesse intervalo. Beit Hillel, porém, proíbe o uso desse get, por receio de uma confusão futura: se a esposa engravidar durante o período em que o get já estava escrito, mas ainda não havia sido entregue, e depois for efetivamente divorciada com aquele mesmo documento, quem observar a data escrita no get e a data de nascimento da criança poderá erroneamente concluir que a gravidez ocorreu depois do divórcio — quando na verdade ela ocorreu antes, durante a reclusão conjugal legítima que teve lugar entre a escrita e a entrega. Essa aparência de gravidez pós-divórcio poderia lançar dúvida sobre a legitimidade da criança, e é justamente esse risco de "difamação" que leva Beit Hillel a proibir o uso do get velho, exigindo que todo get seja escrito o mais próximo possível do momento de sua efetiva entrega.
Rambam, no Perush HaMishná, expõe o raciocínio de cada escola quanto ao receio da difamação; Bartenura detalha o mesmo receio e confirma que a lei segue Beit Hillel.
Rambam resume a disputa: Beit Hillel receiam que se diga, ao ver a data do get, que ela precedeu o nascimento do filho — dando a falsa impressão de que a criança nasceu depois do divórcio a partir de outro relacionamento —, ao passo que Beit Shammai não se preocupam com esse risco. Rambam descreve o get velho como aquele que o marido escreveu e, em seguida, retomou a convivência com a esposa (retornando ao lar, ou reatando a vida conjugal), permanecendo o documento em seu poder por um período depois de escrito, antes de finalmente entregá-lo.
Bartenura confirma que o get velho é aquele escrito para divorciar a esposa, seguido de uma reclusão a sós entre o casal antes da entrega efetiva — e explica que Beit Shammai simplesmente rejeita a preocupação de que alguém, no futuro, compare erroneamente a data do get com a data de nascimento de um filho e suspeite de sua legitimidade; a halachá, porém, segue Beit Hillel, que proíbe o uso do get velho justamente por essa preocupação.
Rambam e Bartenura, conforme acima. A Guemará sobre esta mishná (Guitin 79b) não traz, na versão de Rashi disponível para esta edição, comentário específico separado das explicações já citadas.
Rambam precisa o cenário: não se trata de um marido que nunca conviveu novamente com a esposa depois de escrever o get, mas justamente do caso em que ele retomou a vida conjugal com ela por um tempo — e só depois, ao decidir divorciá-la de fato, usa o mesmo documento que já havia escrito antes daquele período de reclusão. É essa sobreposição entre a data antiga do documento e o período de convivência renovada que gera o risco de confusão que preocupa Beit Hillel.
Bartenura reafirma que a definição de get velho depende exclusivamente da reclusão a sós ocorrida entre a escrita e a entrega — não importa quanto tempo efetivamente passou, mas sim o fato de o casal ter voltado a se recluir juntos nesse intervalo, criando a possibilidade real de concepção antes da data formal do divórcio.