Três gitin são inválidos, mas se ela se casou, o filho é válido: escreveu de próprio punho e não há testemunhas sobre ele; há testemunhas sobre ele mas não há data nele; há data nele mas não há senão uma testemunha — eis esses três gitin inválidos, mas se ela se casou, o filho é válido. Rabi Elazar diz: mesmo que não haja testemunhas sobre ele, mas o entregou a ela diante de testemunhas, é válido, e ela cobra dos bens hipotecados, pois as testemunhas não assinam o get senão para o reparo do mundo. — A mishná lista três formas em que um get pode ser escrito de modo tecnicamente deficiente, sem que isso comprometa de modo grave o casamento subsequente: quando o próprio marido o escreveu com sua letra — o que por si só serve como uma espécie de assinatura sua — mas nenhuma testemunha assinou o documento; quando há testemunhas assinadas mas falta a data, elemento instituído pelos sábios por diversas razões práticas; e quando há data, mas apenas uma única testemunha assinou, e não duas, como normalmente exigido. Em todos esses três casos, o get é inválido a princípio — ela não deveria se casar com base nele — mas, se ainda assim ela já se casou, o filho nascido dessa união não é mamzer, pois esses defeitos são considerados brandos o bastante para não comprometer retroativamente o casamento. Rabi Elazar vai além, sustentando que mesmo um get sem qualquer testemunha assinada é plenamente válido, desde que tenha sido entregue à mulher na presença de testemunhas — pois, em sua opinião, a função essencial das testemunhas no divórcio é presenciar o ato de entrega, e não assinar o documento; a assinatura das testemunhas no próprio texto foi instituída pelos sábios apenas por uma razão prática de ordem pública — para que o get sirva como prova permanente e a mulher possa cobrar sua ketubá inclusive dos bens que o marido já vendeu a terceiros.
Rambam explica a lógica por trás de cada um dos três gitin inválidos e confirma que a lei segue Rabi Eliezer (Elazar) quanto ao princípio de que testemunhas de entrega bastam; Bartenura detalha cada caso e a razão histórica da exigência de data.
Rambam esclarece a posição intermediária desta mishná: ela não segue integralmente a opinião de que "as testemunhas assinadas é que efetivam o divórcio" (pois, nesse caso, o filho seria mamzer em todos os três casos), nem segue integralmente a opinião de que "as testemunhas da entrega é que efetivam o divórcio" (pois, nesse caso, os três gitin seriam plenamente válidos e a mulher poderia se casar com eles a princípio). Por fim, Rambam confirma que a halachá segue Rabi Eliezer (Rabi Elazar) tanto nos gitin de mulheres quanto nos demais documentos: são as testemunhas da entrega — e não as da assinatura — que efetivamente validam o documento.
Bartenura explica que a data no get é uma instituição rabínica, motivada por razões práticas — entre elas, garantir que a mulher divorciada não continue recebendo indevidamente os frutos dos bens do ex-marido depois do divórcio, e evitar que um homem encubra uma relação imprópria com a sobrinha (viúva de um irmão, por exemplo) fingindo uma data de divórcio anterior à relação. Quanto à posição de Rabi Elazar, Bartenura explica que a exigência de testemunhas assinadas no texto do get, além das testemunhas de entrega, foi instituída pelos sábios apenas para o "reparo do mundo": para prevenir a situação em que as testemunhas que presenciaram a entrega morrem ou desaparecem, e o marido, mais tarde, contesta o divórcio alegando nunca tê-lo realizado. A halachá segue Rabi Elazar.
Rashi, sobre a Guemará (Guitin 86a), detalha o raciocínio de cada um dos três gitin inválidos e por que, na opinião de Rabi Elazar, testemunhas de entrega bastam.
Rashi explica que esta mishná não adota nem a posição de que a assinatura das testemunhas efetiva o divórcio (Rabi Meir) — pois, nesse caso, o filho seria mamzer — nem, ainda que a lei prática caminhe nesse sentido (Rabi Elazar, testemunhas de entrega efetivam), o texto trata esse get escrito de próprio punho sem testemunhas como algo intermediário: os sábios o invalidaram a princípio, temendo que se viesse a validar indevidamente um get de mera letra de escriba sem testemunha alguma; por isso, ela não deve se casar com base nele, mas, se já se casou, o filho é válido — e isso vale especificamente quando é a própria letra do marido, pois quando é letra de escriba comum, sem testemunha, o filho é mamzer. Sobre a exigência da data, Rashi confirma tratar-se de instituição rabínica ligada ao receio de encobrimento de uma relação com a sobrinha viúva de irmão. E quanto ao caso de uma única testemunha, Rashi nota que há divergência na Guemará sobre a leitura exata da cláusula.
Rashi precisa a posição de Rabi Elazar: mesmo um get que não tem testemunhas assinadas e não é da própria letra do marido — portanto sem qualquer marca de autenticação no papel — ainda assim é válido para que ela se case a princípio, contanto que tenha sido entregue diante de testemunhas. Rashi repete a razão prática por trás da exigência rabínica de assinaturas: evitar que, com o passar do tempo, as testemunhas oculares da entrega venham a falecer, abrindo caminho para que o ex-marido conteste o divórcio anos depois, negando tê-lo realizado.