Seder Nashim · Massechet Guitin · Perek Tet · Mishná 6 de 10

Dois gitin lado a lado: testemunhas hebraicas e gregas que se cruzam entre os documentos

שְׁנֵי גִטִּין שֶׁכְּתָבָן זֶה בְצַד זֶה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná examina um caso técnico de dois gitin escritos lado a lado no mesmo pergaminho, com testemunhas hebraicas e gregas assinando em direções opostas — o hebraico da direita para a esquerda, o grego da esquerda para a direita — o que faz seus nomes atravessarem de um documento para o outro.

Dois gitin que se escreveram um ao lado do outro, e duas testemunhas hebraicas vêm de debaixo de um para debaixo do outro, e duas testemunhas gregas vêm de debaixo de um para debaixo do outro: aquele junto ao qual as primeiras testemunhas são lidas é válido. Uma testemunha hebraica e uma testemunha grega, uma testemunha hebraica e uma testemunha grega, vindo de debaixo de um para debaixo do outro: ambos são inválidos.A mishná descreve uma situação puramente técnica de caligrafia: dois gitin foram escritos lado a lado, na mesma largura do pergaminho, e quatro testemunhas assinaram abaixo deles — duas em hebraico, que escrevem da direita para a esquerda, e duas em grego, que escrevem da esquerda para a direita. Por causa dessa direção oposta de escrita, o nome de uma testemunha pode começar sob um documento e terminar sob o outro — de modo que fica ambíguo, à primeira vista, sob qual dos dois documentos a assinatura de fato "pertence". Quando as duas testemunhas hebraicas assinaram primeiro, seguidas pelas duas gregas, o documento válido é aquele sob o qual as primeiras testemunhas — as hebraicas — são lidas integralmente, pois presume-se que as testemunhas posteriores simplesmente seguiram, na direção de sua própria escrita, o padrão já estabelecido pelas primeiras. Mas se a ordem das assinaturas se alternou — uma hebraica, uma grega, outra hebraica, outra grega, cada uma vindo de debaixo de um documento para debaixo do outro — não há mais como determinar com segurança qual conjunto de testemunhas pertence a qual get, e por isso ambos os documentos são invalidados.

שְׁנֵי גִטִּין שֶׁכְּתָבָן זֶה בְצַד זֶה וּשְׁנַיִם עֵדִים עִבְרִים בָּאִים מִתַּחַת זֶה לְתַחַת זֶה וּשְׁנַיִם עֵדִים יְוָנִים בָּאִים מִתַּחַת זֶה לְתַחַת זֶה, אֶת שֶׁהָעֵדִים הָרִאשׁוֹנִים נִקְרָאִין עִמּוֹ, כָּשֵׁר. עֵד אֶחָד עִבְרִי וְעֵד אֶחָד יְוָנִי, עֵד אֶחָד עִבְרִי וְעֵד אֶחָד יְוָנִי בָּאִין מִתַּחַת זֶה לְתַחַת זֶה, שְׁנֵיהֶן פְּסוּלִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a peculiaridade da escrita das testemunhas gregas — da esquerda para a direita — e como o nome e o patronímico de cada uma acabam se dividindo entre os dois documentos; Bartenura detalha o mesmo mecanismo com precisão gráfica.

Rambam · Perush HaMishná, Guitin 9:6
מַה שֶּׁאָמַר בְּכָאן עֵדִים יְוָנִים, אֵינוֹ רוֹצֶה לוֹמַר יְוָנִים בֶּאֱמוּנָה, אֲבָל הֵם עֵדֵי יִשְׂרָאֵל כְּשֵׁרִים, אֶלָּא שֶׁהֵם חָתְמוּ בִּכְתִיבַת הַיְּוָנִים... וְאַתָּה יוֹדֵעַ שֶׁכְּתִיבַת הַיְּוָנִים אֵינוֹ כְּמוֹ כְּתִיבַת הָעִבְרִים וְהָעֲרָבִים שֶׁמַּתְחִילִין בִּכְתִיבָה מִן הַיָּמִין אֶל הַשְּׂמֹאל, וְאַמְנָם הַיְּוָנִים כּוֹתְבִין מֵהַשְּׂמֹאל אֶל הַיָּמִין

Rambam esclarece um ponto que poderia confundir o leitor: as "testemunhas gregas" mencionadas na mishná não são gregas quanto à sua fé ou origem — são judeus plenamente qualificados para testemunhar — mas assinaram o documento usando a escrita grega, isto é, escreveram seus nomes na direção da esquerda para a direita, ao contrário do hebraico e do árabe, que se escrevem da direita para a esquerda. É exatamente essa diferença de direção que faz o nome de uma testemunha começar sob um documento e seu sobrenome patronímico terminar sob o outro, criando a ambiguidade que a mishná resolve.

Bartenura · Guitin 9:6
שְׁנֵי גִטִּין שֶׁכְּתָבָן. בִּשְׁנֵי דַפִּין זֶה בְּצַד זֶה, וּשְׁנֵי עִבְרִים חֲתוּמִים מִתַּחַת הַגֵּט הָרִאשׁוֹן לְתַחַת הַשֵּׁנִי, שֵׁם הָעֵד תַּחַת הָרִאשׁוֹן וְשֵׁם אָבִיו תַּחַת הַשֵּׁנִי... אֶת שֶׁהָעֵדִים הָרִאשׁוֹנִים נִקְרָאִים עִמּוֹ כָּשֵׁר. אִם הָעִבְרִים חֲתוּמִים לְמַעְלָה... הַיְמָנִי כָּשֵׁר. וְאִם הַיְּוָנִים חֲתוּמִים לְמַעְלָה, הַשְּׂמָאלִי כָּשֵׁר

Bartenura descreve o cenário com precisão gráfica: os dois gitin foram escritos em duas colunas lado a lado; as duas testemunhas hebraicas assinaram primeiro, com o nome da testemunha sob o documento da direita e o nome de seu pai sob o documento da esquerda (seguindo a direção direita-para-esquerda do hebraico); e as duas testemunhas gregas assinaram depois, seguindo o padrão já estabelecido pelas primeiras, mas em sentido contrário. O critério final é sempre "aquele junto ao qual as primeiras testemunhas são lidas": se as hebraicas assinaram por cima, o documento da direita é válido; se as gregas assinaram por cima, o documento da esquerda é válido — pois se presume que as segundas testemunhas seguiram a ordem física já traçada pelas primeiras.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, sobre a Guemará (Guitin 87a), detalha graficamente como o cruzamento de nome e patronímico entre os dois documentos determina qual das assinaturas pertence a cada get, e por que a ordem alternada invalida ambos.

Rashi · רש״י
Guitin 87a, s.v. שְׁנֵי גִטִּין שֶׁכְּתָבָן זֶה בְּצַד זֶה; אֶת שֶׁהָעֵדִים הָרִאשׁוֹנִים נִקְרָאִים עִמּוֹ כָּשֵׁר
שְׁנֵי גִטִּין שֶׁכְּתָבָן זֶה בְּצַד זֶה - בְּרֹחַב הַמְּגִלָּה. שְׁנַיִם עִבְרִים בָּאִים מִתַּחַת - הָרִאשׁוֹן לְתַחַת הַשֵּׁנִי, שֵׁם הָעֵד תַּחַת הָרִאשׁוֹן וְשֵׁם אָבִיו תַּחַת הַשֵּׁנִי, וְכֵן עֵד שֵׁנִי תַּחְתָּיו... נִמְצָא שֵׁם הָעֵד חָתוּם עַל גֵּט שֵׁנִי וְשֵׁם אָבִיו חָתוּם עַל הָרִאשׁוֹן, הִלְכָּךְ עַל כָּרְחָךְ הַיְּוָנִים תַּחַת הַשֵּׁנִי חָתְמוּ

Rashi explica o mecanismo gráfico exato: os dois documentos foram escritos lado a lado, na largura do pergaminho. As testemunhas hebraicas assinam do primeiro documento (direita) em direção ao segundo (esquerda) — de modo que o nome próprio da testemunha fica sob o primeiro documento, e o nome de seu pai, sob o segundo. Já as testemunhas gregas, que residem em terras helênicas e escrevem à moda grega — da esquerda para a direita —, quando assinam abaixo, na verdade invertem a ordem: como quem escreve "יוסף בן שמעון" à maneira grega, o resultado se lê como "filho de Yossef, Shimon" — de modo que o nome da testemunha acaba, na prática, sob o segundo documento, e o nome do pai, sob o primeiro. Por isso, conclui Rashi, quando as testemunhas hebraicas assinaram primeiro, as gregas necessariamente assinaram sob o segundo documento — daí o critério de que vale o get junto ao qual as primeiras testemunhas, lidas em sua própria direção de escrita, se completam integralmente.

Rashi · רש״י
Guitin 87a, s.v. עֵד אֶחָד עִבְרִי וְעֵד אֶחָד יְוָנִי; שְׁנֵיהֶם פְּסוּלִים
עֵד אֶחָד עִבְרִי וְעֵד אֶחָד יְוָנִי וְעֵד אֶחָד עִבְרִי וְעֵד אֶחָד יְוָנִי בָּאִים מִתַּחַת זֶה לְתַחַת זֶה - עֵד עִבְרִי וְעֵד יְוָנִי בָּאִים מִתַּחַת גֵּט הַיָּמִין לְתַחַת גֵּט הַשְּׂמֹאל, וְעֵד עִבְרִי וְעֵד יְוָנִי עוֹד תַּחְתֵּיהֶן בָּאִין מִתַּחַת הַשְּׂמֹאל לְתַחַת גֵּט הַיָּמִין... שְׁנֵיהֶם פְּסוּלִים - וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ טַעֲמָא

Rashi explica que, quando a ordem das assinaturas se alterna — hebraico, grego, hebraico, grego, cada par vindo de um documento para o outro em sequência —, a incerteza gráfica se agrava a ponto de já não ser mais possível determinar, com base na ordem física das assinaturas, quantas testemunhas de fato assinaram sob cada documento: pode ser que três tenham assinado sob um e apenas uma sob o outro, invertendo-se dependendo de como se lê a sequência. Diante dessa incerteza real quanto ao número de testemunhas válidas em cada get, ambos os documentos ficam inválidos — a razão precisa é desenvolvida com mais detalhe na própria Guemará.