O escravo hebreu é adquirido por dinheiro e por contrato, e adquire a si mesmo pelos anos, pelo jubileu, e pelo desconto do dinheiro. Mais do que ele, a escrava hebreia, que adquire a si mesma também pelos sinais (da puberdade). O que teve a orelha furada (nirtzá) é adquirido pela perfuração, e adquire a si mesmo pelo jubileu e pela morte do senhor. — A mishná descreve o ciclo completo do escravo hebreu: ele é adquirido — seja por ter sido vendido pelo tribunal por causa de um furto que não pôde reembolsar, seja por ter se vendido a si mesmo por pobreza — por dinheiro entregue ao vendedor ou por um contrato escrito. Ele adquire sua própria liberdade de três formas: automaticamente ao completar seis anos de serviço; automaticamente com a chegada do ano do jubileu, ainda que os seis anos não tenham se completado; ou antecipadamente, pagando ao senhor o valor proporcional aos anos de serviço que ainda restam — o chamado "desconto do dinheiro" (gerion kessef). A escrava hebreia — vendida por seu pai apenas enquanto menor — tem uma vantagem a mais: ela se liberta também pelos sinais físicos da puberdade, que marcam automaticamente o fim de sua condição de escrava, independentemente dos seis anos ou do jubileu. Já o nirtzá — o escravo que, ao final de seus seis anos, prefere permanecer com o senhor por amá-lo e a sua própria família, sendo então levado à porta e tendo sua orelha perfurada com um punção, como prescreve a Torá — é adquirido especificamente por esse rito de perfuração, e só se liberta com a chegada do jubileu ou com a morte do próprio senhor, mas não ao fim de um novo período de seis anos.
O modo de aquisição por dinheiro é escrito explicitamente sobre o escravo hebreu; o modo por contrato é aprendido, por analogia verbal, da escrava hebreia, e a lei do nirtzá provém do ritual de perfuração na parashá de Mishpatim.
Rambam expõe o cálculo do desconto do dinheiro e as regras de sucessão quando o senhor morre durante os seis anos; Bartenura fixa os detalhes práticos de cada modo de liberação.
Rambam explica que o "desconto do dinheiro" funciona assim: se o senhor comprou o escravo por sessenta dinares e este já trabalhou dois anos, o senhor lhe devolve quarenta dinares — o valor proporcional aos quatro anos restantes — e ele sai livre. Explica também que, se o senhor morre antes de completados os seis anos, o filho herdeiro pode reter o escravo até completar o prazo original, mas nenhum outro herdeiro — filha, irmão ou demais parentes — tem esse direito; e que o eved ivri só se aplica, segundo a lei estrita, enquanto o próprio jubileu está em vigor.
Bartenura confirma que a chegada do jubileu liberta o escravo mesmo que os seis anos ainda não tenham se completado, e explica a base textual da distinção entre o eved ivri comum e o nirtzá quanto à morte do senhor: "e o servirá para sempre" (sobre o nirtzá) significa "a ele, e não ao filho" — por isso, se o senhor morre, o nirtzá não continua a servir o herdeiro; já o eved ivri comum, vendido no início de seu período, se o senhor morre dentro dos seis anos, continua a servir o filho herdeiro (mas não filha, irmão, ou outros herdeiros) até completar o prazo original.
Rashi sobre a Guemará (Kidushin 14b) explica o cálculo do desconto do dinheiro e a exceção da morte do senhor; Bartenura detalha a base exegética de cada modo de aquisição.
Rashi confirma que "pelos anos" significa a saída livre ao fim de seis anos, e que "pelo jubileu" se aplica quando este cai dentro do período de seis anos ainda em curso. Sobre o desconto do dinheiro, explica o mecanismo com precisão: o escravo se redime a si mesmo, e o senhor lhe desconta do valor de resgate o preço equivalente aos anos de serviço já prestados, tudo calculado proporcionalmente ao preço original de sua compra. E confirma que a vantagem da escrava hebreia é justamente somar aos três modos já mencionados também os sinais físicos da puberdade. Por fim, esclarece que "pela morte do senhor" — no caso do nirtzá — significa que ele não continua a servir os herdeiros de forma alguma, ao contrário do escravo comum vendido no início de seu prazo, que, se o senhor morre antes dos seis anos, completa o restante do período servindo o filho herdeiro.
Bartenura traça a cadeia exegética completa: o versículo "do dinheiro de sua compra" ensina diretamente que o escravo hebreu é adquirido por dinheiro; já o contrato é aprendido de forma indireta e dupla — primeiro a Torá compara a escrava hebreia adulta ("se outra tomar para si") a uma esposa comum, que é adquirida por contrato; depois, a Torá justapõe explicitamente "o hebreu ou a hebreia" em Devarim, ensinando que tudo o que vale para a escrava vale igualmente para o escravo. Assim, o modo por contrato chega ao escravo hebreu por dupla analogia.