Rabi Ishmael diz: o sangue é leve no seu início e severo no seu fim; e as libações são severas no seu início e leves no seu fim. O sangue: no início não há meilá nele; saiu para o vale de Kidron, há meilá nele. As libações: no início há meilá nelas; saíram para os shitin, não há meilá nelas.
Rabi Ishmael enuncia um princípio elegante, de simetria invertida, sobre dois componentes centrais do serviço no altar. O sangue destinado à aspersão é “leve no seu início”: antes de ser aspergido, não há meilá nele, pois a Torá o destina exclusivamente à expiação — “eu o dei a vós sobre o altar para expiar” —, e o que é dado para expiação não é dado para meilá. Mas é “severo no seu fim”: depois que já cumpriu sua função e saiu para o vale de Kidron (o riacho para onde escoava, pelo sistema de drenagem do pátio, o sangue derramado após a aspersão), passa a haver meilá nele — uma meilá de origem rabínica, já que em princípio nada que já cumpriu sua mitzvá deveria estar sujeito a tal responsabilidade. As libações de vinho seguem o caminho oposto: são “severas no seu início”, com meilá plena enquanto ainda aguardam ser derramadas sobre o altar; mas, uma vez que saíram para os shitin — os canais ou fossos na base do altar por onde escoavam depois de cumprida sua função —, tornam-se “leves no seu fim”, sem meilá, pois já realizaram seu propósito ritual completo.
Rambam recorda o que já antecipou no oitavo capítulo de Chulin: não há meilá no sangue, pois está dito “e eu o dei a vós sobre o altar para expiar”, e os sábios disseram “para expiação eu o dei, e não para meilá”; e disseram também que “pois o sangue, pela alma, expia” equipara o tempo anterior à expiação ao tempo posterior a ela — assim como depois da expiação não há meilá, segundo o princípio já estabelecido de que aquilo cuja mitzvá já se cumpriu não tem meilá, também antes da expiação não há meilá. Com isso fica claro que a halachá não segue Rabi Shimon, que afirma haver meilá depois da expiação. E já explicamos, em Sucá, que os shitin são dois orifícios no altar pelos quais escoam os vinhos das libações.
Bartenura explica, sobre “o sangue: no início não há meilá nele”: isto é, antes de sua aspersão, pois está escrito “e eu o dei a vós sobre o altar para expiar” — para expiação eu o dei, e não para meilá. Sobre “saiu para o vale de Kidron, há meilá nele”: isto é, depois da aspersão; e essa meilá é de origem rabínica, não da Torá, pois não há nada cuja mitzvá já se cumpriu e ainda assim tenha meilá. Sobre “saíram para os shitin”: havia um orifício no altar pelo qual as libações desciam para os shitin, que são os alicerces do altar, ocos e muito profundos. E se alguém introduziu a mão e recolheu as libações antes que descessem ao abismo, não há meilá nelas, pois sua mitzvá já se cumpriu.
Rashi explica, sobre a objeção da Guemará “mas eis a teruma do dishun”: pois ela fica junto ao altar depois que sua mitzvá já se cumpriu, e ainda assim há meilá nela, como está escrito “e a colocará” etc., e disso se aprende também aqui. A Guemará usa este caso para desafiar o princípio, subjacente à opinião de Rabi Ishmael, de que aquilo cuja mitzvá já se cumpriu não deveria ter meilá — e é a partir dessa dificuldade que se explica por que a meilá do sangue e das libações, depois de cumprida sua função, é apenas de origem rabínica.