Seder Kodashim · Massechet Meilá · Perek Guimel · Mishná 3 de 8

O sangue e as libações: leves no início, severos no fim

הַדָּם קַל בִּתְחִלָּתוֹ וְחָמוּר בְּסוֹפוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Ishmael formula um princípio de sentido invertido entre duas categorias do serviço do altar: o sangue da aspersão começa sem meilá e termina com ela, enquanto as libações começam com meilá e terminam sem ela — conforme o ponto do processo em que a mitzvá de cada uma se completa

Rabi Ishmael diz: o sangue é leve no seu início e severo no seu fim; e as libações são severas no seu início e leves no seu fim. O sangue: no início não há meilá nele; saiu para o vale de Kidron, há meilá nele. As libações: no início há meilá nelas; saíram para os shitin, não há meilá nelas.

Rabi Ishmael enuncia um princípio elegante, de simetria invertida, sobre dois componentes centrais do serviço no altar. O sangue destinado à aspersão é “leve no seu início”: antes de ser aspergido, não há meilá nele, pois a Torá o destina exclusivamente à expiação — “eu o dei a vós sobre o altar para expiar” —, e o que é dado para expiação não é dado para meilá. Mas é “severo no seu fim”: depois que já cumpriu sua função e saiu para o vale de Kidron (o riacho para onde escoava, pelo sistema de drenagem do pátio, o sangue derramado após a aspersão), passa a haver meilá nele — uma meilá de origem rabínica, já que em princípio nada que já cumpriu sua mitzvá deveria estar sujeito a tal responsabilidade. As libações de vinho seguem o caminho oposto: são “severas no seu início”, com meilá plena enquanto ainda aguardam ser derramadas sobre o altar; mas, uma vez que saíram para os shitin — os canais ou fossos na base do altar por onde escoavam depois de cumprida sua função —, tornam-se “leves no seu fim”, sem meilá, pois já realizaram seu propósito ritual completo.

רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר, הַדָּם, קַל בִּתְחִלָּתוֹ וְחָמוּר בְּסוֹפוֹ, וְהַנְּסָכִים, חֹמֶר בִּתְחִלָּתָן וְקַל בְּסוֹפָן. הַדָּם, בַּתְּחִלָּה אֵין מוֹעֲלִים בּוֹ. יָצָא לְנַחַל קִדְרוֹן, מוֹעֲלִים בּוֹ. הַנְּסָכִים, בַּתְּחִלָּה מוֹעֲלִים בָּהֶן. יָצְאוּ לַשִּׁיתִין, אֵין מוֹעֲלִים בָּהֶם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Meilá 3:3

Rambam recorda o que já antecipou no oitavo capítulo de Chulin: não há meilá no sangue, pois está dito “e eu o dei a vós sobre o altar para expiar”, e os sábios disseram “para expiação eu o dei, e não para meilá”; e disseram também que “pois o sangue, pela alma, expia” equipara o tempo anterior à expiação ao tempo posterior a ela — assim como depois da expiação não há meilá, segundo o princípio já estabelecido de que aquilo cuja mitzvá já se cumpriu não tem meilá, também antes da expiação não há meilá. Com isso fica claro que a halachá não segue Rabi Shimon, que afirma haver meilá depois da expiação. E já explicamos, em Sucá, que os shitin são dois orifícios no altar pelos quais escoam os vinhos das libações.

Bartenura · Meilá 3:3
הַדָּם בַּתְּחִלָּה אֵין מוֹעֲלִין בּוֹ. הַיְנוּ קֹדֶם זְרִיקָתוֹ, דִּכְתִיב וַאֲנִי נְתַתִּיו לָכֶם עַל הַמִּזְבֵּחַ לְכַפֵּר, לְכַפָּרָה נְתַתִּיו וְלֹא לִמְעִילָה: יָצָא לְנַחַל קִדְרוֹן מוֹעֲלִין בּוֹ. הַיְנוּ בָתַר זְרִיקָה, וְהַךְ מְעִילָה מִדְּרַבָּנָן הִיא וְלֹא מִדְּאוֹרַיְתָא, דְּאֵין לְךָ דָּבָר שֶׁנַּעֲשֵׂית מִצְוָתוֹ וּמוֹעֲלִים בּוֹ: יָצְאוּ לַשִּׁיתִין. נֶקֶב הָיָה בַמִּזְבֵּחַ שֶׁבּוֹ יוֹרְדִים הַנְּסָכִים לַשִּׁיתִין, דְּהַיְנוּ יְסוֹדוֹת שֶׁל מִזְבֵּחַ שֶׁהֵן חֲלוּלִים וַעֲמֻקִּים מְאֹד. וְאִם הִכְנִיס יָדוֹ וְקִבֵּל הַנְּסָכִים קֹדֶם שֶׁיָּרְדוּ לַתְּהוֹם, אֵין מוֹעֲלִין בָּהֶן, שֶׁכְּבָר נַעֲשֵׂית מִצְוָתָן:

Bartenura explica, sobre “o sangue: no início não há meilá nele”: isto é, antes de sua aspersão, pois está escrito “e eu o dei a vós sobre o altar para expiar” — para expiação eu o dei, e não para meilá. Sobre “saiu para o vale de Kidron, há meilá nele”: isto é, depois da aspersão; e essa meilá é de origem rabínica, não da Torá, pois não há nada cuja mitzvá já se cumpriu e ainda assim tenha meilá. Sobre “saíram para os shitin”: havia um orifício no altar pelo qual as libações desciam para os shitin, que são os alicerces do altar, ocos e muito profundos. E se alguém introduziu a mão e recolheu as libações antes que descessem ao abismo, não há meilá nelas, pois sua mitzvá já se cumpriu.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Meilá 11b, sobre a Guemará desta mishná
והרי תרומת הדשן — דהוי אצל המזבח דנעשית מצותו ומועלין בו דכתיב ושמו וגו' ונגמר מיניה הכא:

Rashi explica, sobre a objeção da Guemará “mas eis a teruma do dishun”: pois ela fica junto ao altar depois que sua mitzvá já se cumpriu, e ainda assim há meilá nela, como está escrito “e a colocará” etc., e disso se aprende também aqui. A Guemará usa este caso para desafiar o princípio, subjacente à opinião de Rabi Ishmael, de que aquilo cuja mitzvá já se cumpriu não deveria ter meilá — e é a partir dessa dificuldade que se explica por que a meilá do sangue e das libações, depois de cumprida sua função, é apenas de origem rabínica.