Tanto as pedras da rampa quanto as pedras do altar vinham do vale de Beit Kerem. E cavavam abaixo da terra virgem, e traziam dali pedras inteiras, sobre as quais não fora erguido ferro, pois o ferro desqualifica pelo simples toque, e por lasca em qualquer caso. Se uma delas se lascava, ela ficava desqualificada, mas as demais permaneciam válidas. E as caiavam duas vezes ao ano, uma em Pessach e outra em Chag; e o Santuário, uma vez, em Pessach. Rabi diz: toda véspera de shabat as caiavam com um pano, por causa das manchas de sangue. Não as revestiam com colher de ferro, para que não tocasse e desqualificasse, pois o ferro foi criado para encurtar os dias do homem, e o altar foi criado para prolongar os dias do homem; não é justo que o que encurta seja erguido sobre o que prolonga.
Esta mishná trata da origem e da manutenção das pedras do altar e da rampa: extraídas de terra nunca antes escavada no vale de Beit Kerem, precisamente para garantir que nenhum ferro jamais as tivesse tocado, condição que a mera lasca, por qualquer instrumento, já poderia violar. A caiação periódica — para manter o altar branco e limpo — era feita com as mãos ou com panos, jamais com ferramentas de ferro, culminando na célebre explicação moral: o ferro, usado para forjar armas que tiram vidas, não pode ser erguido sobre o altar, que existe para prolongar a vida através da expiação e da aproximação a D-us.
Rambam observa que, tendo a mishná mencionado que enxugavam o altar com um pano, explica-se por que era proibido alisá-lo com o instrumento de alisar — uma lâmina de ferro achatada com a qual os pedreiros alisam paredes, chamada kafis — por receio de que o ferro tocasse as pedras do altar. E acrescenta que, depois disso, a mishná expõe essa grande distância que a Escritura estabelece entre o ferro e o altar, dizendo que o ferro foi criado para encurtar os dias do homem enquanto o altar foi criado para prolongá-los.
Bartenura explica: “do vale de Beit Kerem” — de lá as traziam. “De terra virgem” — terreno onde jamais se havia cavado. “E a lasca” desqualifica as pedras por qualquer causa, mesmo que não tenham sido lascadas por ferro. “E as caiavam” — com cal, duas vezes ao ano.
“Rabi diz” etc. — não discorda do primeiro tanna, mas acrescenta que, toda véspera de shabat, limpavam-nas com um pano por causa das manchas de sangue. “Não as revestiam com colheres” — explica-se a afirmação do primeiro tanna: quando as caiavam com cal duas vezes ao ano, não as revestiam com as colheres de pedreiro com que costumam caiar.