Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Guimel · Mishná 4 de 9

As notas promissórias e o fio de tzitzit

אֵין כּוֹתְבִין שִׁטְרֵי חוֹב בַּמּוֹעֵד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná contrasta a lista anterior com o caso oposto: a nota promissória, proibida por padrão, salvo em duas circunstâncias específicas. Sobre copiar textos sagrados, o primeiro tanna proíbe por completo, mas Rabi Yehudá discorda quanto ao uso estritamente pessoal — e a halachá segue Rabi Yehudá.

Não se escrevem notas promissórias no Chol HaMoed. E, se o credor não confia no devedor, ou se o escriba não tem o que comer, escreve-se. Não se escrevem rolos, tefilin e mezuzot no Chol HaMoed, e não se corrige sequer uma letra, mesmo no Sefer Ezrá. Rabi Yehudá diz: um homem escreve para si tefilin e mezuzot, e fia para si, sobre a própria coxa, o fio azul do tzitzit.A nota promissória, diferente dos documentos da mishná anterior, é adiável sem prejuízo real — o empréstimo já foi feito, e o documento apenas registra formalmente uma dívida que continua válida mesmo sem ele. Por isso é proibida por padrão. Mas há duas exceções: se o credor desconfia do devedor e recusa emprestar sem garantia escrita, o próprio empréstimo — necessidade real de alguém — depende do documento; e se o escriba contratado para escrevê-lo não tem o que comer, seu próprio sustento justifica o trabalho, como qualquer salário pago a quem passa necessidade. Quanto aos textos sagrados, o primeiro tanna proíbe até mesmo corrigir uma única letra, mesmo no rolo oficial guardado no pátio do Templo — por tratar-se de um trabalho de escriba com todas as suas regras técnicas. Rabi Yehudá discorda apenas quanto ao uso estritamente pessoal: escrever tefilin e mezuzot para si mesmo, e fiar o fio de tzitzit sobre a própria coxa, com a mão apenas roçando o fio sem o método técnico usado em dia comum, é permitido por cumprir diretamente um preceito.

אֵין כּוֹתְבִין שִׁטְרֵי חוֹב בַּמּוֹעֵד. וְאִם אֵינוֹ מַאֲמִינוֹ אוֹ שֶׁאֵין לוֹ מַה יֹּאכַל, הֲרֵי זֶה יִכְתֹּב. אֵין כּוֹתְבִין סְפָרִים, תְּפִלִּין וּמְזוּזוֹת, בַּמּוֹעֵד, וְאֵין מַגִּיהִין אוֹת אַחַת, אֲפִלּוּ בְּסֵפֶר עֶזְרָא. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, כּוֹתֵב אָדָם תְּפִלִּין וּמְזוּזוֹת לְעַצְמוֹ, וְטוֹוֶה עַל יְרֵכוֹ תְּכֵלֶת לְצִיצִיתוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar (Números) 15:38
וְעָשׂוּ לָהֶם צִיצִת עַל כַּנְפֵי בִגְדֵיהֶם לְדֹרֹתָם, וְנָתְנוּ עַל צִיצִת הַכָּנָף פְּתִיל תְּכֵלֶת
Que façam para si franjas nas bordas de suas vestes, por todas as suas gerações; e sobre a franja de cada borda porão um fio azul.

É este versículo que estabelece a obrigação do fio azul do tzitzit — e é justamente por se tratar do cumprimento direto de um mandamento bíblico, tal como escrever um Sefer Torá, tefilin ou mezuzot, que a mishná permite fiá-lo mesmo no Chol HaMoed, quando feito da forma simplificada descrita, sobre a própria coxa. O contraste com a nota promissória, proibida por padrão, ilumina o princípio geral que percorre toda a lista de documentos deste capítulo: o Chol HaMoed cede à necessidade religiosa genuína e ao prejuízo real, mas não ao que pode legitimamente esperar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a exceção de sustento do escriba e confirma que a halachá segue Rabi Yehudá quanto aos demais casos da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 3:4
אִם אֵין לוֹ מַה יֹּאכַל, כּוֹתֵב וּמוֹכֵר כְּדֵי פַרְנָסָתוֹ. וְהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.
Se o escriba não tem o que comer, é permitido que escreva o documento e cobre por seu trabalho, o suficiente para seu próprio sustento — o mesmo princípio de necessidade real que justifica outras leniências do Chol HaMoed em favor de quem passa fome.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a técnica permitida de fiar o tzitzit e a permissão de escrever mesmo o Sefer Torá lido no Templo; Rashi confirma a fonte da permissão de fiar sobre a coxa.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:4
וְטוֹוֶה עַל יְרֵכוֹ תְּכֵלֶת. שֶׁנּוֹתֵן הַחוּט עַל יְרֵכוֹ וּמְשַׁפְשֵׁף בְּיָדוֹ וְהוּא נִטְוֶה מֵאֵלָיו, אֲבָל לֹא בְּיָדוֹ בֵּין אֶצְבְּעוֹתָיו וְלֹא בַּפֶּלֶךְ כְּדֶרֶךְ שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בְּחֹל.

A técnica permitida no Chol HaMoed é apenas a mais simples: colocar o fio sobre a própria coxa e esfregá-lo com a mão, deixando que se fie por si só, sem usar os dedos com a destreza técnica de um artesão profissional, nem o fuso usado em dias comuns — a mesma lógica de "modo tosco" que rege outros trabalhos permitidos no capítulo.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:4
וַאֲפִלּוּ בְּסֵפֶר הָעֲזָרָה. סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁכֹּהֵן גָּדוֹל קוֹרֵא בּוֹ בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים, וְאַף עַל גַּב דְּצָרִיךְ לָרַבִּים. לְעַצְמוֹ. לְקַיֵּם הַמִּצְוָה, אֲבָל לֹא לִמְכֹּר אוֹ לְהַשְׂכִּיר.

Bartenura observa que a proibição do primeiro tanna é tão abrangente que impede corrigir sequer uma única letra até mesmo no rolo oficial guardado no pátio do Templo, do qual o Cohen Gadol lê em Yom Kipur — apesar de ser um bem que serve a toda a comunidade. Sobre a posição de Rabi Yehudá, que a halachá segue, esclarece que a permissão vale apenas para quem escreve os textos sagrados para cumprir o próprio preceito, nunca para vendê-los ou alugá-los como negócio comercial.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 19a
וְטוֹוֶה עַל יְרֵכוֹ — הַחוּטִין, אֲבָל לֹא בְּיָדוֹ בֵּין אֶצְבְּעוֹתָיו וּבַפֶּלֶךְ כְּדֶרֶךְ חֹל.

Rashi confirma a mesma leitura de Rambam sobre a técnica permitida: o fio é fiado apenas sobre a coxa, nunca com a técnica manual completa nem com o instrumento do fuso, que marcariam o trabalho como profissional demais para os dias intermediários da festa.