Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Vav · Mishná 2 de 10

O que desce à panela: o feito de panela fervente

הַנּוֹדֵר מִמַּעֲשֵׂה קְדֵרָה, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא מִמַּעֲשֵׂה רְתַחְתָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua a série de distinções lexicais do Perek Vav, opondo agora o termo geral "feito de panela" ao termo mais específico "o que desce à panela", que amplia o alcance do voto a tudo o que nela é cozido.

O votado do feito de panela não fica proibido senão do feito que ferve nela. Disse: konam, o que desce à panela que eu não provo, fica proibido em tudo o que se cozinha na panela.A mishná ensina que "feito de panela" é uma expressão técnica que designa, na linguagem corrente, especificamente os pratos de cereal fervido — sêmola, trigo triturado e similares — e não qualquer alimento que por acaso passe pela panela; por isso o votado desse termo específico permanece livre para comer outros alimentos cozidos na mesma panela, desde que não sejam esse tipo de prato. Já quem formula o voto de modo diferente, dizendo "o que desce à panela", usa uma expressão mais ampla e descritiva, que não aponta para um prato determinado mas para o próprio ato de ser cozido dentro da panela — e por isso essa formulação abrange indiscriminadamente tudo o que nela se prepara, qualquer que seja o alimento.

הַנּוֹדֵר מִמַּעֲשֵׂה קְדֵרָה, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא מִמַּעֲשֵׂה רְתַחְתָּה. אָמַר, קוֹנָם הַיּוֹרֵד לַקְּדֵרָה שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, אָסוּר בְּכָל הַמִּתְבַּשְּׁלִין בַּקְּדֵרָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A distinção entre um prato preparado de forma específica na panela e o simples ato de cozinhar remete à minchá — a oferenda de cereal — preparada precisamente "na panela", uma das formas mencionadas na Torá.

Vayikra (Levítico) 2:7
וְאִם מִנְחַת מַרְחֶשֶׁת קָרְבָּנֶךָ, סֹלֶת בַּשֶּׁמֶן תֵּעָשֶׂה
E se tua oferenda for minchá de panela funda, de flor de farinha com azeite se fará.

A Torá já distingue, entre as ofertas de cereal, aquela preparada especificamente "na panela funda" — a marchéshet — como uma categoria própria e nomeada, distinta da assada no forno ou na frigideira rasa. Essa mesma sensibilidade para o modo específico de preparo dentro de um utensílio determinado é o que a mishná aplica à linguagem dos votos: assim como a Torá reconhece a minchá de panela como um prato técnico e delimitado, e não qualquer alimento que tenha passado por uma panela, o votado do "feito de panela" está vinculado apenas àquele preparo técnico específico — o cereal fervido — e não a tudo que nela se cozinhe. Já a formulação "o que desce à panela" abandona esse recorte técnico e volta-se ao próprio recipiente, abrangendo por isso qualquer alimento que nele seja imerso.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Bartenura resume o princípio geral do capítulo — de que a linguagem local determina o alcance do voto — como fundamento explícito desta halachá.

Bartenura · Nedarim 6:2 (base explicitada)
וּכְלָלָא דְּמִלְּתָא, בִּנְדָרִים הַלֵּךְ אַחַר לְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם לְפִי הַזְּמַן וְהַמָּקוֹם... וְכָל סְפֵק נְדָרִים לְהַחְמִיר

Na ausência de uma citação direta correspondente na Mishné Torá para este caso específico, Bartenura resume aqui o princípio jurídico geral que rege toda a série de mishnayot do Perek Vav: em matéria de votos, segue-se a linguagem dos homens conforme o tempo e o lugar do votado. Bartenura acrescenta uma regra prática importante para os casos de ambiguidade real: se numa mesma localidade parte das pessoas usa um termo de um modo e parte de outro, não se decide pela maioria como em outras áreas da halachá — trata-se, nesse caso, de dúvida genuína sobre o alcance do voto, e toda dúvida em matéria de votos deve ser resolvida com rigor, na direção da proibição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 51a), define com precisão os termos "feito de panela" e "o que desce à panela" a partir de uma baraita citada no debate; Bartenura fecha com a formulação prática do critério.

Rashi · רש"י
Nedarim 51a
מַתְנִי' מִמַּעֲשֵׂה רְתַחְתָּא — הַיְנוּ דָּבָר שֶׁנִּגְמַר בִּשּׁוּלוֹ בַּקְּדֵרָה וְאֵינוֹ אֶלָּא מֵחֲמֵשֶׁת הַמִּינִים... בְּכָל הַנַּעֲשֶׂה בַּקְּדֵרָה — אֲפִלּוּ מְבֻשָּׁל בָּאִלְפָּס אָסוּר

Rashi define "feito que ferve" como o alimento cujo cozimento se completa inteiramente dentro da panela, restrito aos cinco tipos de grão, excluindo assim aquilo que precisa passar depois para outro utensílio — como o ilfás, uma panela rasa de tipo diferente — para terminar de cozinhar. Já sobre "tudo o que se cozinha na panela", Rashi explica que essa formulação mais ampla inclui até o alimento que, tendo sido cozido primeiro na panela comum, é depois transferido para o ilfás para terminar o preparo — pois a expressão do votado aponta para o recipiente e não para o tipo específico de prato, capturando assim qualquer coisa que em algum momento tenha "descido" à panela.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 6:2 (continuação do princípio de 6:1)
וְהָעִקָּר הַנִּסְמָךְ הוּא מַה שֶּׁאָמְרוּ בִּנְדָרִים הֲלֹךְ אַחַר לְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם

Rambam, ao apresentar o princípio geral logo na abertura do capítulo, já previne que ele deve orientar a leitura desta mishná e das seguintes: cada termo do voto — "feito de panela", "o que desce à panela" — carrega o significado que a linguagem popular lhe atribuía, e não uma definição técnica rígida e universal. É por isso que a mishná pode tratar dois termos aparentemente sinônimos, "feito de panela" e "o que desce à panela", como categorias de alcance completamente diferente: a linguagem comum já os distinguia dessa forma antes mesmo de a halachá lhes dar peso jurídico.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 6:2
מִמַּעֲשֵׂה רְתַחְתָּה. אֹכֶל עָשׂוּי מִקֶּמַח שֶׁהֻרְתַּח בַּקְּדֵרָה

Bartenura define "o feito que ferve" simplesmente como o alimento preparado de farinha fervida diretamente na panela — a categoria restrita mencionada na primeira parte da mishná. Bartenura reitera então o princípio de fundo já citado na seção de Halachot: como em matéria de votos segue-se a linguagem corrente do lugar e da época, se numa determinada região se chamasse "cozido" ao assado, o votado do cozido ficaria proibido também do assado, e assim por diante para cada par de termos tratado neste capítulo — sempre com a ressalva de que, havendo uso dividido e incerto, prevalece o rigor próprio da dúvida em matéria de votos.