Três reis e quatro plebeus não têm porção no mundo vindouro. Três reis: Yerovam, Achav e Menashé. — A mishná passa das categorias gerais de transgressores às figuras específicas, bíblicas e historicamente identificadas, que perderam sua porção. Ainda que grandes e sábios — o que a mishná assinala nomeando-os "reis" e não meros pecadores anônimos —, sua apostasia dos fundamentos da fé é o que os exclui, mostrando que nem grandeza nem sabedoria bastam onde falta a fé íntegra.
Rabi Yehudá diz: Menashé tem porção no mundo vindouro, como está dito: "E orou a Ele, e Ele Se deixou suplicar por ele, e ouviu sua súplica, e o trouxe de volta a Jerusalém, a seu reino." Disseram-lhe: a seu reino o trouxe de volta, mas não à vida do mundo vindouro o trouxe de volta. — Menashé, rei extremamente ímpio segundo o relato bíblico, é registrado em Divrei HaYamim como tendo se arrependido em cativeiro e sido restaurado ao trono. Rabi Yehudá lê esse retorno como prova de que seu arrependimento foi aceito plenamente, incluindo a porção no mundo vindouro; os Sábios distinguem: o versículo atesta apenas sua restauração terrena ao reino, sem nada dizer sobre sua porção futura.
Quatro plebeus: Bilam, Doeg, Achitofel e Guechazi. — Ao lado dos três reis, a mishná nomeia quatro homens de grande sabedoria que não ocuparam trono — daí "plebeus" — mas cuja proximidade com figuras centrais da história de Israel (Bilam, o profeta gentio que tentou amaldiçoar Israel; Doeg, conselheiro de Shaul; Achitofel, conselheiro de David; Guechazi, discípulo de Elisha) tornou sua queda paradigmática.
Rambam explica por que a mishná precisou nomear justamente estas figuras: sendo homens de grande sabedoria e conhecedores da Torá, poder-se-ia supor que esse mérito lhes garantisse porção no mundo vindouro; a mishná ensina, ao contrário, que os fundamentos da fé se corromperam neles, e alguns deles caíram em dúvida sobre esses fundamentos — o que basta para excluí-los, independentemente de sua sabedoria. Sobre Bilam, que não é israelita, Rambam nota que a menção é necessária porque, em princípio, os piedosos das nações do mundo também têm porção no mundo vindouro; ao nomear Bilam entre os excluídos, a mishná ensina que ele pertence aos ímpios das nações, e não aos seus piedosos.
Bartenura confirma que, apesar de sua grandeza e sabedoria, estes sete homens não têm porção no mundo vindouro, porque sua fé não era íntegra. E explica por que a mishná precisa mencionar Bilam separadamente, já que ele não é israelita e a mishná anterior tratou apenas de "todo Israel": como é regra estabelecida que os piedosos das nações do mundo têm porção no mundo vindouro, a menção explícita de Bilam ensina que ele não pertence a esse grupo dos piedosos gentios.
No trecho da Guemará que discute detidamente a teshuvá de Menashé, Rashi identifica precisamente as duas partes da controvérsia registrada na mishná: de um lado Rabi Yehudá, que sustenta que Menashé tem porção no mundo vindouro; do outro os Sábios, que sustentam que não tem. A Guemará ali narra, segundo a tradição, o próprio processo pelo qual Menashé, em cativeiro, clamou a todos os deuses sem resposta, até voltar-se ao Deus de seus pais e ser ouvido — episódio que fundamenta a posição de Rabi Yehudá sobre a sinceridade e eficácia de seu arrependimento, ainda que os Sábios discordem quanto ao seu alcance final.